sábado, novembro 04, 2006

PAUSA

Não sei quando vou voltar a actualizar este blog. Não tenho tido tempo para escrever, e assim vou continuar nos próximos tempos. Neste momento, uma vez que dá menos dispêndio de energia, vou andar por aqui.

Espero, no entanto, que esta pausa forçada não seja muito longa!

quinta-feira, novembro 02, 2006

In a lonely place

Sempre me dei bem com a solidão. Há muito tempo - ou não há tanto tempo quanto isso -, passava horas a fio a ler e a escrever: os romances traziam-me o mundo lá fora, mundo esse que re-ordenava sempre que me dispunha a escrever.

Não era o caso de tentar provar que o homem é uma ilha, não. Sabia que existia o amor, mas não o conhecia. Pressentia que era coisa de seres malditos, sem qualquer hipótese de um viver sem o outro.

Parece que foi há muito tempo. Agora tenho uma casa que conheço até de olhos fechados, os ramos do limoeiro e da cidreira no quintal, o cheiro do refogado na cozinha, a música que se ouve baixinho - é sempre a versão lacrimosa de Alessandrini para o Stabat Mater de Pergolesi.

Agora, para além de saber que o amor existe, conheço também o rosto dele, os seus olhos, o seu corpo, sei que me ama. E tenho medo dele, como sei que ele tem medo mim, porque somos o rosto da morte um do outro.

Quando o amor diminuir... quando o sentimento de traição voltar a ser muito forte, porque nós atraiçoamos os nossos mortos, e eles estão perto, nos livros da biblioteca, nos filmes a preto e branco, na música suave e olorosa das folhas do limoeiro e da cidreira.

Mas eu amo-o tanto. E sei que ele me ama. Há momentos em que a felicidade é maior que o horror, quando lemos um livro juntos, quando nos amamos, quando damos as mãos e caminhamos pelas sombras.

E no entanto, um de nós matará o outro. Ambos o sabemos. Aquele que deixar de amar primeiro.

Só não sabemos quando. Mas o momento vai chegar, o momento de fechar o círculo, porque na vida tudo tende para o círculo, e não podemos fugir.


Conhecemos o fim da história.

Nicholas Ray também o conhecia: In a lonely place, a mais bela frase do cinema, I was born when he kissed me, I died when he left me, I lived a few weeks while he loved me.

terça-feira, outubro 31, 2006

Recordações do Brasil

Conheci o Beto no forró do Chico, no final da minha comissão de seis meses no Brasil. Os seus olhos, sombra violeta no rosto claro.

Ele, clareira luminosa no meio de cobre e de outros pigmentos em que a Canoa floresce - o mistério do esperma português, indío, afro, cigano e holandês. Beto não chega a atingir a tonalidade do ouro, requinte mínimo da pele de alguns nativos. É mesmo marfim, não posso fugir ao lugar comum. Mas Beto não é comum, confirmam as asas do nariz e os vincos que contestam a sua boca adolescente. Sinto o paradoxo: doce gavião.

- 'Cê é daqui?
- Não. Português. E o senhor?
- Você.
- Você é de onde?
- Fortaleza.
- Pensei que fosse de São Paulo.
- 'Cê toma cerveja ou cana?
- Tanto faz. O que o senhor - você - está a beber?
- Cerveja e pinga. Não gosto de cachaça, mas essa é do Cumbe. Dá p'ra botar limão ou mel. Mesmo de jandaíra ou caju. Mas como é, cerveja ou cana?
- O que viver eu bebo.
- Chico, uma cerveja e mais um copo!
- É p'ra já. Aqui você manda.

É bom sentir a proximidade de Chico. Massa. Força. A presença de um macho que dá segurança: pai, amigo, irmão. Mas vamos esquecer esta treta em psicoterapês. Psicanalista resolveu alguma vez quaisqer dos meus problemas? O que importa é Beto. Aqui e agora.

- Com espuma ou sem? Beto, quando podemos escolher, vale a pena optar pelo que se prefere.
- Sem espuma.
- Prefiro com. Sem, parece mijo.

Beto quase esvazia o copo.

- Deixa-me dar um gole no teu... no teu mijo- digo sorrindo.
- Sé é de gosto...
- Está óptimo. Porque é teu. E além do mais, quem bebe sobejo fica sabendo segredo do outro.
- Tenho segredo não.

Beto bebe um gole do meu copo.

- Agora eu sei o seu também.
- Tu já sabias. Podemos sair juntos depois do forró?
- Até agora, podemos ir já.

Bebemos mais. Helena puxa-me para dançar. Saia transparente, presa muito abaixo do umbigo. Um pano fino mal cobre os seios, num improviso. Faixa de conchas, a sua coroa. Tudo branco, destacando a nudez morena, ávida de saborear as mulheres do mundo e os homens da Canoa. Um vaqueiro da Beirada aproxima-se, espadaúdo, hoje mais princípe pelo brilho no olhar: a possibilidade de possuir novamente Helena. Ela beija-me na boca e cola-se a ele.

Ao sairmos do forró, Beto pára para mijar num beco escuro. Afasto-me e foco a lanterna no jacto.

- Ouro. Mais bonito que cerveja!...

Beto exibe o membro com discrição, esperando que eu me aproxime. Resisto, querendo muito mais que uma aventura.

- Vamos ver o mar.

Passamos as últimas casas. O palco de areia cintila à luz das estrelas. O mar, um brilho menor.

Toco no rosto de Beto. Desço as mãos pelo seu flanco. Aproximamo-nos devagar, até ao braço. Durante o beijo, mete a língua na minha boca. provoco variações a que Beto, ágil, responde num jogo. Diálogo táctil. Rimos das nossas invenções. Arranhar os seus dentes com os meus dentes, titilar a língua, sentir a intimidade das gengivas. Deitado na areia, Beto faz sexo com a espontaneidade com que beija. A mesma rapidez nas respostas às provocações dos lábios, da ponta dos dedos, de todo o meu corpo instigando-o a correr comigo, parelha.

Gosto de Beto como ele é. Pássaro livre, cavalo selvagem que, graças a Deus, vem comer à minha mão. E eu perco-me no seu hálito, na sua boca húmida, e peço com os lábios, com a língua, com os dentes, a sua saliva. Que libação, licor! A minha cabeça, formada por Garbos e Pasolinis, faz-me desejar um laço mais forte. Quando sinto o potro sacudir a brida, saio pela tangente. Dou-lhe rédea. Lambo-o dos pés à cabeça, sugo os artelhos. Mordisco a sua cabeça, da nuca à testa, como se fosse polpa de macaúba.

Beto tem o preconceito de não dar nem chupar. Vibra, bandolim de cordas tensas, quando o toco com a ponta da língua. Ouço um tilintar de sininhos de ouro?

Beto responde, não fodendo com mulher nem homem. Nem namorada. Passeia, admira o pôr-do-sol nas dunas, bebe na Tenda do Cumbe. vai à praia, ao forró. Comigo. Camaradas. Embalo Beto na rede. Despe os calções ou as cuecas, aos poucos. Enlaça as pernas no meu pescoço. Eu, Pedro Álvares Cabral deslumbrado, beijo com amor a sua pétala de rosa. Ou no chão, ele apoiado apenas nos ombros, a cabeça levantada, ergue o rabo equilibrando as pernas no ar. E puxa as nádegas com as mãos para a minha língua entrar mais. Só a língua.

- Quer ir a Fortaleza.?
- Vamos?

Não se interessa por nada. Ir a Fortaleza é passear de carro numa longa orla maritima. parar num bar qualquer.

- Queres ficar comigo. Estudas, não precisas trabalhar. Dou-te uma mão.
- Deixe p'ra lá. Um dia pode até ser. Agora vamos voltar p'ra canoa.
- Só vou ficar mais uma semana. A minha comissão está a chegar ao fim. Volto a Portugal.
- A gente se cruza de novo.

Na Canoa:

- Vou jantar com a velha. Depois passo no forró.
- Antes uma cerveja no bar do Toinho.
- É isso aí, cara.

Chega com um amigo que não conheço.

- Valtim. 'Tava viajando com um carinha gamado nele. Onde tu foi, Valtim?
- Recife.

Valtim é simpático. Esguio, moreno escuro, feições afiladas. Os olhos, dois faróis de luz negra. Um presente de faraós. Imagino-o sendo levado à presença de Cesar, enrolado num tapate. Cleópatra no masculino.

Valtim e Beto inseparáveis. Acabo fodendo com Beto, ele ali ao lado, conversando e fumando maconha.

Nós os três sempre juntos. Na praia, na Tenda, no forró. A não ser quando um gaúcho ou uma coroa levam Valtim - quem quer que largue algum dinheiro...

- Quer transar com ele, macho?

Claro que Valtim me atrai. Muito. Mas estou interessado em Beto. Muito a fim dele mesmo. Aguento as pontas.

- E tu queres que eu transe?
- Numa boa.
- Então vamos os três, 'tá?
- Barra limpa.

Apesar de humilhado por Beto não ter ciúmes, foi uma experiência incrível. Inventamos posições, toques. Improvisamos com sabedoria e eficácia. Trio perfeito: flauta, fagote, oboé. Só não uma coisa. Valtim tem os mesmos preconceitos que Beto. Duas: entre eles, nenhuma caricia.

- Beto, vou-me embora amanhã. Não queres mesmo vir comigo?
- Não, cara. Um dia pode ser.
- Então não nos vamos ver mais?
- É só pintar por aqui.
- Vou sentir a tua falta. Não vou negar.
- Leve Valtim.

Quem não tem cão, caça com gato. E Valtim é maracajá, caído do céu. Vai doer a falta de Beto.

- E ele topa?
- Topa. Combina com ele.

Valtim topa. Eu sei que apenas por uns dias, um mês talvez, depois ele vai desaparcer. Por uma camisa bonita, um passeio de mota, uns olhos azuis. De homem ou mulher. Eu tenho é que aproveitar Valtim enquanto ele estiver comigo. Enquanto reaprendo a respirar sem a presença de Beto. Enquanto diminui a saudade de segurar no seu rosto e mergulhar nos seus olhos, neblina violeta em que navego, com a minha boca ancorada nos seus lábios. Faço das tripas coração - e vale o jogo de palavras porque tripa é gíria antiga da Canoa. É cacete, pau. Pénis.

Na hora de vir embora, Valtim é uma força. Sem ele, como é que eu conseguiria? Acabou insistindo, falando coisas da novela. Beto desce trazendo a minha mala. Abro a porta do carro, estacionado debaixo dos cajueiros. Espero ainda por um último trunfo para ter Beto durante mais algum tempo. Tempo? Eu quero a vida toda, a eternidade com ele. Só Beto. Não dá, paciência, tenho que ir numa boa. Tento calar a agulha que dentro de mim tece a eterna frase de um tango inútil.

- Pois, tchau. Conhecer-te foi um troço legal p'ra caralho.

Beto tira o colar de vértebras de cação e coloca-o no meu pescoço.

- Para você se lembrar de mim um dia.

Posso responder? Valtim entra no carro. Ligo a chave. Beto aproxima-se, fecha a porta de leve. Bem perto do meu rosto, diz olhando para Valtim:

- Bonito ele, não é? Parece um peixe.

quinta-feira, outubro 26, 2006

A minha morte

Não vi a navalha na sua mão. Ele só a comprara há pouco tempo. De repente, retirou-a do estojo e dirigiu-se para a janela, fascinado com o seu peso e com a eficácia que ela parecia permitir-lhe. O cabo com grandes rebites brilhantes era feito de madeira preta. A lâmina de doze centímetros abriu com um ligeiro impulso. A navalha estava fria e confortável na sua mão, e ele debruçou-se por trás de mim, que estava sentado na poltrona.

A janela estava aberta de par em par, e a chuva, que batia contra a casa ao sabor das rajadas de vento, ensopara as cortinas que caíam bonitas, todas pesadas e escuras à frente dos batentes da janela. No chão de parquet, uma poça de água. A luz batia nela, iluminando o compartimento às escuras.

Pus-me a imaginá-lo aqui sentado o dia inteiro a olhar o céu profundo e a linha dos telhados para lá do parque, que formava uma espécie de horizonte da cidade e escondia o outro horionte e lhe limitava o olhar. Na noite anterior, quando lhe perguntei o nome, respondeu que a placa da sua porta era a terceira a contar de baixo. A cobertura de algodão da poltrona estava fria e pegajosa. Recostei-me para poder observá-lo.

Como um médico à procura das artérias para medir as pulsações, ele pousou o indicador e o dedo médio no meu pulso. Movia-se suavemente e sem pressas. Porém, antes de fechar os olhos, ainda vi o seu antebraço coberto de suor, como verniz. Fiquei muito tempo sentado por baixo dele sem olhar e estiquei a cabeça para esfregar a testa no peito dele. Só quando ele tirou uma mão de repente e levantou a outra é que abri os olhos. Então vi a navalha. E ele cortou-me a garganta.

Fez um corte da esquerda para a direita, e a ferida de arestas vivas abriu logo. Dilacerou profundamente os músculos e a carne, separou a epiglote da laringe, cortou as artérias carótida e tiróide, a traqueia e o esófago, e ainda deu um golpe profundo numa vértebra cervical. Ao retirar a navalha da ferida, emitiu um som que não parecia humano, mas sim uma espécie de gorgolejar.

Caí para a frente na sua direcção, e a minha cabeça tombou sobre os seus joelhos. Estremeci de dor, os meus músculos contorceram-se numa cãibra e voltei a cair contra as costas da poltrona, em cima da lâmina. As minhas mãos tactearam o pescoço. Olhei para ele e tentei falar, mas deitei uma golfada de sangue pela boca; respirei e engoli sangue. Tinha sangue na saliva ensaguentada dentro da traqueia; sangue nos olhos, no nariz e na língua. A artéria cortada sugou ar e bombeou-o com força para o coração. Deixei de conseguir respirar, fiquei paralisado de medo e senti que o meu olhar parara. Deixei de vê-lo. A minha carne contorceu-se em espasmos violentos como uma tempestade, e enquanto eu entrava em colapso, as minhas pernas bateram no chão com um barulho enorme.

Ele manteve a navalha no ar sobre mim durante um bom bocado. Sentia-a pesada e confortável na mão. Nessa altura, já eu estava morto há muito. A cortina molhada ondulou e bateu contra a janela. Ele ficou parado de pé, a ouvir o vento. Depois pousou a navalha e foi-se embora.

Ouvia o ruído de aviões a descolar ou a aterrar, e cá em baixo a cidade mantinha-se presa e imóvel sobre a terra arenosa.

Quando já me encontrava em agonia, o meu corpo ainda tentara reagir ao ferimento, porém o sistema respiratório e circulatório, o sistema nervoso central e os tecidos não deram resposta. Depois, a circulação sanguínea parou. A temperatura do meu corpo baixou. Primeiro ficaram frias as mãos e a cara. Depois, o frio foi-se entranhando cada vez mais e foi-se aproximando nem eu sei bem de quê.

Durante um bocado, o metabolismo continuou a processar-se como se não tivesse acontecido nada, até que pouco a pouco começaram a dar-se reacções bioquímicas descontroladas, que eu sabia que ocorreriam até se esgotarem todos os substratos e enzimas armazenadas. Parara de chover.

E enquanto a humidade caía sobre a lâmina brilhante da navalha pousada ao lado da poltrona, sobre as minhas pupilas e sobre o sangue que começara a coagular, vi-o afastar-se por baixo das árvores despidas e segui-o. Observei pela primeira vez o gesto com que ele massajava regularmente a cana do nariz. Lembrei-me dos seus lábios. Cheirei de novo a sua pele. Não tinha reparado que ele era bonito.

E depois vi o crepúsculo engoli-lo e vi-o olhar para cima, para a janela aberta no segundo andar, atrás da qual me encontrava. Segui o seu olhar, voltei a olhá-lo por fora e por dentro, onde a minha língua o conhecera. Ouvi os seus pensamentos e senti o frio que ele sentia. Vi a luz do meio-dia envolvê-lo como se estivesse dentro de água. Soube que já quase não pensava em mim. E vi como ele se admirava, e como a cidade o estreitou como uma nova pele que cobrisse a sua.

Escutou a sua própria respiração e as batidas do coração. Sentiu, como se fosse a primeira vez, as pálpebras palpitarem e humedecerem por cima das órbitras. Ficou muito tempo a ver o manto de neblina sobre a paisagem nublada. A tarde de Inverno afundava-se mais e mais nos arbustos, cobrindo de branco as casas, os bancos, o caminho. A linha de casas recortava-se do outro lado do parque num tom escuro-queimado, à excepção de meia dúzia de janelas cujas luzes sobressaíam no escuro. As casas foram-se afundando lentamente na terra mole como descobertas futuras ou recordações escarificadas, tudo esmagado e triturado.

Ele atravessou o parque e vagueou sem destino cidade adentro. Devido ao golpe que sofrera, havia sangue na minha boca e pulmões, no esófago, na traqueia e no nariz. A traqueia emitia um brilho baço, aberta como uma calha de abastecimento, feita de osso muito branco.

**

Tentei lembrar-me do que acontecera na noite anterior, e voltei a sentir a dor latejante. No princípio da noite tinha sido transmitido um discurso contrário a um novo ataque terrorista no Médio Oriente. Na embaixada norte-americana evocou-se os mortos do 11 de Setembro. Num subúrbio um jovem levou para casa o dvd "Brincadeiras Perigosas", de Michael Hanecke. Pouco depois das oito comecei a minha comunicação sobre violência, desejo ritualizado e sexualidades.

Enquanto lia, ia-me esquecendo da dor de cabeça, mas quando ia a sair da sala para me dirigir até ao jardim, senti o cheiro dos primeiros cigarros e então a dor aumentou e começou a instalar-se por detrás do olho esquerdo. Fiquei uns instantes a sentir o ar frio da noite e o barulho nítido dos mastros que se entrechocam lá em baixo, no embarcadouro do rio.

Quando pisei o cigarro contra o cascalho e acendi outro, ouvi uma porta abrir-se por trás das minhas costas e o som de passos que se aproximaram por cima do saibro do jardim de Inverno.

- Também era capaz de fazer isso?

Antes que tivesse tempo de me virar ou responder, a voz masculina voltou a falar: - De magoar tanto uma pessoa como descreveu, quero eu dizer.

Ocorreu-me novamente que tinha lido muito mal. Como se as palavras resistissem a serem ditas, obstinadas em perderem o sentido. Não percebi o que ele queria de mim, virei a cabeça para ele na escuridão.

Ao entrar na sala, tinha reparado nele numa das primeiras filas da assistência. Antes de começar a ler a comunicação, o meu olhar tinha-se detido nas suas pupilas escuras, cabeça escanhoada, barba rente e mesclada de pêlos castanhos, brancos e acobreados, queixo quadrado, casaco de cabedal com a gola levantada, camisola e calças pretas.

- Sim ou não?

Como achou que eu estava a reflectir enquanto olhava para ele, deu-me tempo para responder.

- Não - respondi de súbito em voz baixa, pisando o cigarro contra a gravilha, embora pudesse ter ido para o meu quarto.

A porta do jardim de Inverno abriu-se de novo e o tom das vozes subiu. Desci rapidamente em direcção ao lago. E ele foi atrás de mim.

Havia um grande silêncio no fundo do lago e estava tudo escuro acima das águas. Um banco de pedra abria-se para uma pequena praça redonda como uma nuvem no meio da escuridão, por entre os longos ramos das antigas árvores altas, como se a natureza tivesse resolvido imitar a arte. O tufo de ervas do parapeito surgia frio e húmido da chuva dos dias anteriores. Ao debruçar-me, via bater lá em baixo as ondas, que naquela noite reflectiam apenas algumas luzes do outro lado da margem. Ouvi-o aproximar-se de mim.

- Sim ou não?

Repetia a pergunta, como se a minha resposta não tivesse sido proferida. Mas desta vez em voz baixa, num sussurro, com a boca perto da minha orelha. E eu menti-lhe, e assenti. Ele não tinha nada a ver comigo. - Sim - respondi.

Ele pousou dois copos de vinho no parapeito. Não conseguia ver a sua cara no escuro, mas as suas mãos brilhavam contra a pedra molhada. A seguir, deslizaram sobre mim e desceram pelo meu corpo. A curva do seu pescoço era quente, e simultaneamente fria no sitio onde o vento entrava. Com as mãos entre as minhas pernas, sussurrava como se estivesse a fazer-me uma pergunta ou a falar com alguém atrás de mim. Não percebi. A pele dele arrepiou-se ao ar frio, e eu colei-me à sua nuca.

- Morde - disse ele repetidamente, num silvo, e começou a esfregar-me as calças com as mãos. - Magoa-me.

Fiquei entorpecido a olhar para a pele dele; à espera que o tempo passasse com os movimentos das suas mãos. Porém, ao fim de alguns instantes, ele parou.

- Sim ou não? - pergunta de novo.

Quando abanei a cabeça e me preparava para lhe fazer uma festa na bochecha, ele largou-me. O seu rosto adquiriu o tom vermelho de uma nuvem a reflectir os raios de sol. E, por um momento, vi-o como mais ninguém o vira, com o desejo espresso no seu estranho rosto.

Então, agarrou rapidamente na primeira coisa que apanhou à mão, o copo pousado no parapeito, e atirou-me com o vinho à cara. - Agora vê lá se contas como me viste, se é que ainda és capaz.

Não consegui perceber logo o que ele queria dizer. Só me apetecia ir-me embora pelo declive abaixo. Mas ele agarrou-me o braço. pediu-me que fosse visitá-lo no dia seguinte, se quisesse. O vento começou a resfrescar e a chuva, vinda da direcção do lago, batia-nos na cara. Só quando subi para o meu quarto na mansarda é que me ocorreu que não sabia o nome dele.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Não se trata de ciúmes

Boa noite, fala Isabel, uma amiga de Simão. Encontrámo-nos umas duas vezes quando você ainda morava na casa dele, mas quase não falámos, ou porque não calhou, ou porque não nos sentíamos à vontade. Hesitei muito antes de lhe telefonar. Espero não o incomodar. Está no seu direito de me dizer, oiça, o assunto não lhe diz respeito, ou até de desligar. Eu compreendo. Trata-se do seguinte: você foi morar para casa dele como namorado do filho, ou ex-namorado, não estou a perguntar e você não é obeigado a responder. Seja como for, ele deu-lhe abrigo, desenrrascou-o e até lhe encontrou ou ajudou a encontrar um apartamento. Não conheço os pormenores nem preciso conhecer. Ele é um homem generoso e eficiente na sua maneira discreta. Mas você, não sei se intencionalmente ou não, não lhe está a fazer nada bem. Digo está, pois mesmo agora que você foi viver para onde foi, ele ainda não tem sossego por sua causa, ou talvez não seja por sua causa, mas digamos, devido a si. Espere. Não me interrompa. Esta conversa não é o que se chama fácil para mim. Receio que não me entenda bem. Não quero fazer julgamentos e muito menos acusá-lo, antes pedir-lhe que pense um pouco no assunto. Você é um rapaz atraente e pertence a uma geração em que certas coisas se tornaram muito fáceis, talvez demasiado fáceis. Não estou a fazer um julgamento, apenas a expressar uma impressão que talvez não tenha qualquer fundamento. Sou mais velha do que você, se calhar mesmo mais velha que a sua mãe, e sou mulher, de forma que não se trata de ciúme ou competição. Você também - mas não, não vou entrar nisso, e peço-lhe que considere o que disse agora mesmo como não dito, pois mesmo negar o ciúme pode despertar a suspeita de ciúme. Vou tentar exprimir a coisa assim: ele está de luto pela mulher e para além do mais, você sabe bem, dói-lhe bastante que o filho tenha partido. E embora ele não seja um homem fraco, você decerto concordará comigo que não vale a pena aumentar-lhe a dor. Quando você morava na casa dele, ele só pensava em fugir e agora que você se foi embora, não consegue deixar de o procurar, porque você lhe prometeu ir visitá-lo e esqueceu-se de o fazer. Não, não se desculpe, está ocupado, claro que compreendo, um rapaz da sua idade e tudo o resto. Desculpe. Dê-me mais um minuto ou dois e já termino. O que eu queria dizer, ou pedir, é que não o deixe ficar pendurado. Ele não dorme à noite e tem um ar de quem vai adoecer. Só você pode desfazer o mal-entendido que criou. E além disso, talvez não tenha pensado, o que será quando o filho dele voltar? Como é que vai ser entre você e eles e entre eles os dois? Desculpe-me estas perguntas, sou funcionária pública há trinta e oito anos e se calhar pegou-se-me o tom burocrático. Não estou a pedir-lhe que corte relações ou que se afaste, mas - como dizê-lo - que estabeleça alguns limites. Se calhar não consegui explicar-me bem. Sinto necessidade de lhe dizer, olhe, Manuel, você está a despertar nele uma coisa que o entristece e deprime muito, talvez você não tenha dado por isso, mas se quiser desfazer o mal tem de colocar limites. Não. Mais uma vez não consegui dizer-lhe o que queria, e o que lhe disse talvez soe mesquinho. Tenho dificuldade em encontrar as palavras. Uma vez, há muito anos, João, o meu marido, e eu levámos Simão e Eduarda, a mulher, um sábado a passear no Gerêz. À luz do crepúsculo vimos um animal peludo a correr rapidamente por uma encosta abaixo e desaparecer por enter as árvores. Tentámos segui-lo mas ele já tinha desaparecido. O sol ia descendo e durante muito tempo foi como se todo o mundo vacilasse e fosse continuar a vacilar para sempre. Simão afirmou peremptoriamente que era um cão errante e Eduarda um lobo. Uma discussão inútil, pois olhe o que aconteceu desde então: há muito que João já não é deste mundo e Eduarda também não, e o cão errante ou o lobo morreu. Só Simão e eu estamos vivos. Segundo os meus cálculos você nem sequer tinha nascido naquela famosa noite que eu tenho recordado ao longo de todos estes anos, já sem dor mas com uma clareza que se tem vindo a tornar mais transparente à medida que o tempo passa. Lobo ou cão errante? A mata escurecera e Simão e eu tinhamos encetado uma discussão com João e Eduarda, que não conduzia nem podia conduzier a nada, a criatura tinha-se desvanecido no escuro e à nossa volta o mundo estava deserto, silencioso e vacilante. Compreenda, contei-lhe isto não para o importunar mas para lhe pedir, ou antes, confiar as minhas próprias interrogações e partilhá-las consigo. Não é obrigado a responder. Isto fica naturalmente entre nós. Ou antes, entre você e você mesmo.

Foi graças a mim que aquilo lhe voltou

Ela diz que não tem ciúmes. Uma ova! Que não está zangada. Está zangada e como. Toda aquela conversa de chacha, mas no final de contas, o que ela quer é tê-lo só para ela. Quer que eu desapareça da vista dele agora mesmo., que trace uma linha como ela diz, senão arranca-me os olhos. Que por minha causa não dorme. E então. Estar acordado é estar vivo. Sem mim, ele passaria os dias a dormitar no cadeirão ou sentado na varanda a olhar durante um mês, um Inverno, um ano, até o mar lhe subir à cabeça. E a ela também. Em vez de me moer o juizo, o que ela devia era agradecer-me: pois foi graças a mim que lhe voltou aquilo do cão errante do Gerêz ou o lobo vacilante ou lá o que era. Foi graças a mim que o que estava quase esquecido voltou a cintilar para ela e para ele. Dele gosto bastante. Mas dela, não. Não gosto mesmo nada.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Fragmento

É o sorriso de Rado, flutuando à superficíe da memória, que traz a muito esperada, a muito desejada mudança. De uma vez só, desapareceu toda a auto-comiseração, todas as nuvens negras. Ele, o patrão, é agora o empregado de Rado, que é pago para que os seus desejos sejam satisfeitos. Antes da sua chegada, já anda pela oficina, fazendo o seu melhor para facilitar o trabalho ao moldavo. Até comprou um micro-ondas para que pudesse aquecer o almoço. Na mesa, há sempre flores frescas.

A situação é absurda. O que pretende daquele homem? Quer que sorria, certamente; que sorria de novo para si. Quer ganhar um lugar no seu coração, ainda que diminuto. Será que também quer ser seu amante? Sim, quer, fervorosamente. Quer amar e cuidar daquele emigrante eslavo e dos seus filhos, Iosiip, Tibor e a menina, Marijana, a criança que ainda não pôs a vista em cima. E quanto há mulher de Rado? Não lhe quer mal, não lhe tem quaisquer intenções malignas. Deseja-lhe toda a felicidade e sorte do mundo. No entanto, sente que seria capaz de dar tudo para ser pai daquelas crianças bonitas e inteligentes, e companheiro de Rado; nem que fosse de um modo platónico, não se importa. Quer cuidar deles, de todos, protegê-los e salvá-los.

Salvá-los do quê? Ele não sabe responder, ainda não. Quer, acima de tudo, salvar Rado. Seria capaz de se interpor entre ele e o raio dos deuses ciumentos, oferecendo o peito nu ao fogo mortal.

É como uma mulher que, nunca tendo engravidado e sendo já demasiado velha para conceber, clama, repentina e urgentemente, pela maternidade. Desesperada ao ponto de ser capaz de raptar uma criança. E, embora Rado seja já pai, vê-o ainda como uma criança.

quarta-feira, outubro 18, 2006

House of Meetings




House of meetings é o novo romance de Martin Amis (25 de Agosto de 1949), romancista inglês, filho de Kingsley Amis, também escritor. Autor de romances como Os Outros (Edições Cotovia), Money e Cão Amarelo (Teorema)

Constituído por uma novela e dois contos, House of Meetings volta a oferecer ao leitor o melhor de Amis: a reflexão sobre a natureza da masculinidade.

A novela House of Meetings é uma história de amor, gótica no tom e triangular na forma. Dois irmãos e uma rapariga judia envolvem-se durante um progrom que assolou Moscovo no ano de 1946. O conflito fraternal fica em banho-maria em Norlag, um campo de trabalhos forçados acima do Círculo Polar Ártico. O destino dos três amantes fica por resolver até à véspera da morte de Brejnev, em 1982; e para o único sobrevivente as ondas de choque do triângulo amoroso continuam a sentir-se já no novo século.

Acompanhado por um "oragantango" saudita, Muhammad Atta desloca-se até Portland, Maine, EUA, no dia 10 de Setembro de 2001. Ninguém conhece a razão dessa viagem. Em The Last Days of Muhammad Atta, Martin Amis oferece uma explicação para a viagem de Atta e também para uma das lacunas do 11 de Setembro. Amis segue Atta desde que acorda no quarto de hotel de Portland até às 8:46:40.

In The Palace of the End, o narrador é um dos duplos de Saddam Hussein ou, a hipótese fica em aberto, Uday Hussein, um dos filhos e herdeiro do ditador iraquiano. O duplo divide os dias entre torturas épicas e actos sexuais épicos com belezas escolhidas a dedo: tudo isto é filmado para o prazer do ditador. Tem também uma terceira obrigação: duplicar no seu corpo os ferimentos de Saddam Hussein após cada atentado.

Aparentemente, estes temas podem não parecer familiares ao leitor de Martin Amis. Mas, na verdade, Amis está de volta a uma das suas principais preocupações: a natureza da masculinidade e a relação entre a sexualidade masculina e a violência.

Eis, pois, como começa House of Meetings:

Dear Venus
If what they say is true, and my country is dying, then I think I may be able to tell them why. You see, kid, the conscience is a vital organ, and not an extra like tonsils or the adenoids.