Não vi a navalha na sua mão. Ele só a comprara há pouco tempo. De repente, retirou-a do estojo e dirigiu-se para a janela, fascinado com o seu peso e com a eficácia que ela parecia permitir-lhe. O cabo com grandes rebites brilhantes era feito de madeira preta. A lâmina de doze centímetros abriu com um ligeiro impulso. A navalha estava fria e confortável na sua mão, e ele debruçou-se por trás de mim, que estava sentado na poltrona.
A janela estava aberta de par em par, e a chuva, que batia contra a casa ao sabor das rajadas de vento, ensopara as cortinas que caíam bonitas, todas pesadas e escuras à frente dos batentes da janela. No chão de parquet, uma poça de água. A luz batia nela, iluminando o compartimento às escuras.
Pus-me a imaginá-lo aqui sentado o dia inteiro a olhar o céu profundo e a linha dos telhados para lá do parque, que formava uma espécie de horizonte da cidade e escondia o outro horionte e lhe limitava o olhar. Na noite anterior, quando lhe perguntei o nome, respondeu que a placa da sua porta era a terceira a contar de baixo. A cobertura de algodão da poltrona estava fria e pegajosa. Recostei-me para poder observá-lo.
Como um médico à procura das artérias para medir as pulsações, ele pousou o indicador e o dedo médio no meu pulso. Movia-se suavemente e sem pressas. Porém, antes de fechar os olhos, ainda vi o seu antebraço coberto de suor, como verniz. Fiquei muito tempo sentado por baixo dele sem olhar e estiquei a cabeça para esfregar a testa no peito dele. Só quando ele tirou uma mão de repente e levantou a outra é que abri os olhos. Então vi a navalha. E ele cortou-me a garganta.
Fez um corte da esquerda para a direita, e a ferida de arestas vivas abriu logo. Dilacerou profundamente os músculos e a carne, separou a epiglote da laringe, cortou as artérias carótida e tiróide, a traqueia e o esófago, e ainda deu um golpe profundo numa vértebra cervical. Ao retirar a navalha da ferida, emitiu um som que não parecia humano, mas sim uma espécie de gorgolejar.
Caí para a frente na sua direcção, e a minha cabeça tombou sobre os seus joelhos. Estremeci de dor, os meus músculos contorceram-se numa cãibra e voltei a cair contra as costas da poltrona, em cima da lâmina. As minhas mãos tactearam o pescoço. Olhei para ele e tentei falar, mas deitei uma golfada de sangue pela boca; respirei e engoli sangue. Tinha sangue na saliva ensaguentada dentro da traqueia; sangue nos olhos, no nariz e na língua. A artéria cortada sugou ar e bombeou-o com força para o coração. Deixei de conseguir respirar, fiquei paralisado de medo e senti que o meu olhar parara. Deixei de vê-lo. A minha carne contorceu-se em espasmos violentos como uma tempestade, e enquanto eu entrava em colapso, as minhas pernas bateram no chão com um barulho enorme.
Ele manteve a navalha no ar sobre mim durante um bom bocado. Sentia-a pesada e confortável na mão. Nessa altura, já eu estava morto há muito. A cortina molhada ondulou e bateu contra a janela. Ele ficou parado de pé, a ouvir o vento. Depois pousou a navalha e foi-se embora.
Ouvia o ruído de aviões a descolar ou a aterrar, e cá em baixo a cidade mantinha-se presa e imóvel sobre a terra arenosa.
Quando já me encontrava em agonia, o meu corpo ainda tentara reagir ao ferimento, porém o sistema respiratório e circulatório, o sistema nervoso central e os tecidos não deram resposta. Depois, a circulação sanguínea parou. A temperatura do meu corpo baixou. Primeiro ficaram frias as mãos e a cara. Depois, o frio foi-se entranhando cada vez mais e foi-se aproximando nem eu sei bem de quê.
Durante um bocado, o metabolismo continuou a processar-se como se não tivesse acontecido nada, até que pouco a pouco começaram a dar-se reacções bioquímicas descontroladas, que eu sabia que ocorreriam até se esgotarem todos os substratos e enzimas armazenadas. Parara de chover.
E enquanto a humidade caía sobre a lâmina brilhante da navalha pousada ao lado da poltrona, sobre as minhas pupilas e sobre o sangue que começara a coagular, vi-o afastar-se por baixo das árvores despidas e segui-o. Observei pela primeira vez o gesto com que ele massajava regularmente a cana do nariz. Lembrei-me dos seus lábios. Cheirei de novo a sua pele. Não tinha reparado que ele era bonito.
E depois vi o crepúsculo engoli-lo e vi-o olhar para cima, para a janela aberta no segundo andar, atrás da qual me encontrava. Segui o seu olhar, voltei a olhá-lo por fora e por dentro, onde a minha língua o conhecera. Ouvi os seus pensamentos e senti o frio que ele sentia. Vi a luz do meio-dia envolvê-lo como se estivesse dentro de água. Soube que já quase não pensava em mim. E vi como ele se admirava, e como a cidade o estreitou como uma nova pele que cobrisse a sua.
Escutou a sua própria respiração e as batidas do coração. Sentiu, como se fosse a primeira vez, as pálpebras palpitarem e humedecerem por cima das órbitras. Ficou muito tempo a ver o manto de neblina sobre a paisagem nublada. A tarde de Inverno afundava-se mais e mais nos arbustos, cobrindo de branco as casas, os bancos, o caminho. A linha de casas recortava-se do outro lado do parque num tom escuro-queimado, à excepção de meia dúzia de janelas cujas luzes sobressaíam no escuro. As casas foram-se afundando lentamente na terra mole como descobertas futuras ou recordações escarificadas, tudo esmagado e triturado.
Ele atravessou o parque e vagueou sem destino cidade adentro. Devido ao golpe que sofrera, havia sangue na minha boca e pulmões, no esófago, na traqueia e no nariz. A traqueia emitia um brilho baço, aberta como uma calha de abastecimento, feita de osso muito branco.
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Tentei lembrar-me do que acontecera na noite anterior, e voltei a sentir a dor latejante. No princípio da noite tinha sido transmitido um discurso contrário a um novo ataque terrorista no Médio Oriente. Na embaixada norte-americana evocou-se os mortos do 11 de Setembro. Num subúrbio um jovem levou para casa o dvd "Brincadeiras Perigosas", de Michael Hanecke. Pouco depois das oito comecei a minha comunicação sobre violência, desejo ritualizado e sexualidades.
Enquanto lia, ia-me esquecendo da dor de cabeça, mas quando ia a sair da sala para me dirigir até ao jardim, senti o cheiro dos primeiros cigarros e então a dor aumentou e começou a instalar-se por detrás do olho esquerdo. Fiquei uns instantes a sentir o ar frio da noite e o barulho nítido dos mastros que se entrechocam lá em baixo, no embarcadouro do rio.
Quando pisei o cigarro contra o cascalho e acendi outro, ouvi uma porta abrir-se por trás das minhas costas e o som de passos que se aproximaram por cima do saibro do jardim de Inverno.
- Também era capaz de fazer isso?
Antes que tivesse tempo de me virar ou responder, a voz masculina voltou a falar: - De magoar tanto uma pessoa como descreveu, quero eu dizer.
Ocorreu-me novamente que tinha lido muito mal. Como se as palavras resistissem a serem ditas, obstinadas em perderem o sentido. Não percebi o que ele queria de mim, virei a cabeça para ele na escuridão.
Ao entrar na sala, tinha reparado nele numa das primeiras filas da assistência. Antes de começar a ler a comunicação, o meu olhar tinha-se detido nas suas pupilas escuras, cabeça escanhoada, barba rente e mesclada de pêlos castanhos, brancos e acobreados, queixo quadrado, casaco de cabedal com a gola levantada, camisola e calças pretas.
- Sim ou não?
Como achou que eu estava a reflectir enquanto olhava para ele, deu-me tempo para responder.
- Não - respondi de súbito em voz baixa, pisando o cigarro contra a gravilha, embora pudesse ter ido para o meu quarto.
A porta do jardim de Inverno abriu-se de novo e o tom das vozes subiu. Desci rapidamente em direcção ao lago. E ele foi atrás de mim.
Havia um grande silêncio no fundo do lago e estava tudo escuro acima das águas. Um banco de pedra abria-se para uma pequena praça redonda como uma nuvem no meio da escuridão, por entre os longos ramos das antigas árvores altas, como se a natureza tivesse resolvido imitar a arte. O tufo de ervas do parapeito surgia frio e húmido da chuva dos dias anteriores. Ao debruçar-me, via bater lá em baixo as ondas, que naquela noite reflectiam apenas algumas luzes do outro lado da margem. Ouvi-o aproximar-se de mim.
- Sim ou não?
Repetia a pergunta, como se a minha resposta não tivesse sido proferida. Mas desta vez em voz baixa, num sussurro, com a boca perto da minha orelha. E eu menti-lhe, e assenti. Ele não tinha nada a ver comigo. - Sim - respondi.
Ele pousou dois copos de vinho no parapeito. Não conseguia ver a sua cara no escuro, mas as suas mãos brilhavam contra a pedra molhada. A seguir, deslizaram sobre mim e desceram pelo meu corpo. A curva do seu pescoço era quente, e simultaneamente fria no sitio onde o vento entrava. Com as mãos entre as minhas pernas, sussurrava como se estivesse a fazer-me uma pergunta ou a falar com alguém atrás de mim. Não percebi. A pele dele arrepiou-se ao ar frio, e eu colei-me à sua nuca.
- Morde - disse ele repetidamente, num silvo, e começou a esfregar-me as calças com as mãos. - Magoa-me.
Fiquei entorpecido a olhar para a pele dele; à espera que o tempo passasse com os movimentos das suas mãos. Porém, ao fim de alguns instantes, ele parou.
- Sim ou não? - pergunta de novo.
Quando abanei a cabeça e me preparava para lhe fazer uma festa na bochecha, ele largou-me. O seu rosto adquiriu o tom vermelho de uma nuvem a reflectir os raios de sol. E, por um momento, vi-o como mais ninguém o vira, com o desejo espresso no seu estranho rosto.
Então, agarrou rapidamente na primeira coisa que apanhou à mão, o copo pousado no parapeito, e atirou-me com o vinho à cara. - Agora vê lá se contas como me viste, se é que ainda és capaz.
Não consegui perceber logo o que ele queria dizer. Só me apetecia ir-me embora pelo declive abaixo. Mas ele agarrou-me o braço. pediu-me que fosse visitá-lo no dia seguinte, se quisesse. O vento começou a resfrescar e a chuva, vinda da direcção do lago, batia-nos na cara. Só quando subi para o meu quarto na mansarda é que me ocorreu que não sabia o nome dele.