Segunda-feira, Outubro 16, 2006

Sobre Uma história simples

i.) Em Uma história simples, cujo título definitivo é Dois estranhos entre estranhos, o tema é aparentemente banal, centrado numa relação amorosa. Trata-se da história de dois seres, Eduardo, um homem maduro, casado, pai de duas crianças, empregado numa repartição de finanças, e Henrique, um jovem universitário, homossexual, que se encontram, casualmente, no comboio do eixo norte-sul e que, a partir desse momento, se irão entregar a uma transgressora e devastadora relação carnal que termina tão inopinadamente como se iniciou.

ii.) É uma narrativa breve que trata, fundamentalmente, das restrições à liberdade individual, impostas pelas convenções socioculturais e pela estrutura da família burguesa.

iii.) O narrador centra-se na problemática relação de Eduardo e de Henrique, escapeliza os seus pensamentos, os seus sentimentos, as suas reacções e os seus "fantasmas". Apesar do intenso desejo de transformação da realidade quotidiana, rotineira, banal e medíocre, que por vezes experimentam, as personagens são-nos apresentadas como vítimas do ambiente que as rodeia, incapazes de verdadeiramente se libertarem da pressão das forças sociais e das convenções que, em última instância, as acabam por dominar.

iv.). Com o tempo, a intimidade que Eduardo e Henrique desenvolvem acaba por construir um "espaço privado", só para eles, que irá excluir, momentaneamente, todos os outros. Durante alguns meses Eduardo irá então descobrir e viver intensamente uma paixão (contraponto a um casamento sem amor, sedimentado no hábito e na rotina), que não é isenta, no seu espírito, de uma certa culpabilidade. E são os desejos reprimidos por uma educação burguesa e pela submissão a uma moral convencional que agora se libertam, no seu irresistível desejo de frequentar locais gays na companhia de Henrique e de se lhe entregar num minúsculo quarto onde os dois se encontram, com frequência, ao princípio da noite, para aí unirem os seus corpos sedentos de prazer. No entanto, o trabalho de Eduardo, contabilista numa repartição de finanças (a contabilidade como metáfora da racionalização da vida, de um quotidiano ordenado, previsivelmente calculado), irá fornecer-lhe uma lógica que acaba por interferir na relação dos dois amantes, quando, numa noite, para celebrar o aniversário de dois meses de relação, Eduardo oferece uma flor ao seu jovem amante, no dia em que precisamente ele e os seus colegas, no escritório, tinham concluído o balanço do mês. É este seu desejo de ordenar/dominar o tempo e as emoções que irá marcar uma clara linha divisória na narrativa. É a partir desse momento que a circunstância da previsível partida do jovem para a Alemanha, para aí prosseguir os seus estudos, e o inevitável regresso de Eduardo ao seio do conforto e da segurança familiares, após a marcante experiência de uma conturbada viagem de comboio, de volta ao lar, o fazem tomar consciência, de um modo resignado mas determinante, do sentido dos seus deveres para com o seu trabalho, para com a mulher e filhas. Depois da tempestade, a bonança: regresso à calma, à plácida e monótona vida de burguês, a aceitação resignada de um destino ao qual sabe que não poderá fugir.

v) Propõe-se, nesta narrativa breve, uma reflexão sobre a lógica que comanda as dúvidas, as incertezas, as inquietações e indecisões do indivíduo, perdido no caótico cenário de Lisboa e seus arredores. Cenário que, afinal, poderia ser o de uma outra qualquer cidade, testemunha de um perturbado tempo que vivemos.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Isto levava a uma discussão muito interessante. Há algumas interpretações possíveis quanto às motivações e comportamentos de ambos, principalmente do Eduardo, que é o mais elaborado dos dois e ao mesmo tempo também o mais transparente e 'previsível'. Mas ainda assim passível de explicações várias. Ou então é por ser aquele de mais fácil(eis) leitura(s) para mim.

Apesar das intenções do autor, as personagens muitas vezes fogem-lhe. Quem o diz não sou eu, obviamente, mas quem escreve.


"a contabilidade como metáfora da racionalização da vida, de um quotidiano ordenado, previsivelmente calculado"

Viste o 'Play Time' do Jacques Tati, Manuel?

mar_maria

9:30 PM  
Blogger serrano said...

maria,

O Eduardo é a personagem mais elaborada, sim senhor. Foi intencional. Foi em torno dele que quis escrever esta história.

Também vi o "Play Time" do Tati, filme delicioso em que tudo aparece como que perfeitamente planificado, em que a massa humana parece escrava de um movimento que está para além da sua vontade.

1:27 PM  

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