Uma história simples XII
Mais tarde, com algumas leves chuvas ocasionais, o Inverno desvaneceu-se. Sopraram ventos húmidos do Sul que provocaram dores de cabeça, uma pressão nas têmporas, uma espécie de náusea. Pontualmente, às oito da noite, Eduardo entrava no comboio para encontrar o seu rapaz na mesma carruagem, no mesmo lugar de sempre. Havia noites em que o comboio os deixava a cada um no seu destino e outras que os unia no Bairro Alto. Nem sequer pensaram em voltar ao restaurante. Na maioria das vezes sentavam-se em cafés, nas imediações do Bairro Alto ou do Princípe Real, a beber chá ou uma cerveja, olhando de vez em quando para a televisão. Então, como que impelidos por um vento irrequieto, rapidamente escapavam para o quarto das águas-furtadas com o candeeiro cor de carne.
Ficavam lá horas e horas confiantemente agarrados um ao outro, sem pensarem na roupa amarrotada, no cabelo desalinhado. Fumavam muito, conversavam ou ficavam em silêncio, faziam amor ou trocavam beijos apenas. Eduardo adorava o corpo juvenil de Henrique, tomava-o nos braços e embalava-o como a um bebé, enquanto o rapaz acariciava, com especial ternura, alguma prega na carne dele, beijando com paixão as rugas, quase com reverência. Quando ocasionalmente ouviam vozes na rua ou quando a velha escada rangia, Eduardo agarrava a mão do Henrique e agarrava-a com força. Não é nada, dizia-lhe o rapaz, algum homem lá fora, à minha procura! Eduardo nunca percebia se ele estava a brincar ou a falar a sério mas sabia que ele pretendia dizer-lhe alguma coisa. Então inclinava-se para as suas mãos, mãos nuas cujo único ornamento era a aliança de casamento, onde tinha crescido calos por causa das contas, que pareciam estranhamente frágeis, como se feitas de porcelana. Tinha emagrecido, o seu corpo estava delgado, quase gasto; as cuecas largas nas ancas.
Não comes, ralhou-lhe Henrique, à noite não jantas, no escritório dizes que bebes café atrás de café e quando estamos juntos não páras de fumar. Eduardo sorriu. De novo aquela ruga entre as sobrancelhas... Sim, tinha razão o rapaz, "o seu rapaz", disse-o com uma nota de orgulho na voz. Mas não te chegam as tuas filhas, disse-lhe Henrique, também me queres para teu filho? As minhas filhas são minhas filhas e tu és quem és, respondeu Eduardo. E a tua mulher, voltou à carga o jovem, o que é que diz a tua mulher quando chegas tarde à noite? Quando não tem nenhuma reunião de negócios escreve números e quando não lê o jornal, vê televisão, respondeu-lhe. Mas não fala contigo, não te diz absolutamente nada? Só pensa no trabalho dela, queixa-se quando as coisas não correm bem; e tu, perguntou-lhe, os teus pais não querem saber por onde andas, o teu irmão o que diz? Dantes chateava-me todo o tempo para não chegar tarde a casa, mas depois achou conveniente que as mulheres, supostamente, andassem atrás de mim; é doido por mulheres casadas. Eduardo acendeu um cigarro. E é verdade que continuas a ser perseguido por homens? Só quero saber se te sentes bem comigo, não tenho outra razão para te perguntar, insistiu o homem. O cigarro na mão dele tremeu um pouco. Estou bem, respondeu-lhe, só há momentos em que me apetece ter dois, três, dez homens ao mesmo tempo, é como se a minha cabeça estivesse a arder... Achas que estou doente, Eduardo, como é que tu explicas isto?
Eduardo agarrou a cabeça dele, com o bonito pescoço, e encostou-a aos seus joelhos. Não estás doente, murmurou-lhe ao ouvido, és apenas um rapazinho mimado e mau; quando cresceres e amadureceres, ficarás bem, tudo ficará bem, verás... Tratas-me como um bebé, queixou-se Henrique, falas como os meus pais; fugi deles para te encontrar a ti. Tens a certeza que, no fundo, não era isso que procuravas? Era a vez de Eduardo fazer pouco dele.
Ficavam horas e horas despenteados, nus numa casa que ninguém tinha tempo de limpar, o pó acumulava-se nas prateleiras, aranhas teciam as suas teias em recantos esconsos. Saíam depois das onze e iam para casa de táxi, nunca de metro. A ideia de voltarem a entrar na mesma carruagem, mesmo que vazia, rarefeita de gente, era-lhes extremamente penosa. No silêncio de um táxi, com um motorista que, surdo e mudo, ia para o seu destino, sentavam-se muito juntos, com braços e pernas tocando-se como se estivessem numa cama. Imagina, dizia-lhe Eduardo, se nas nossas casas soubessem. E todo ele gelou. Henrique encolheu os ombros. Tudo o que queria evitar era complicações e brigas. Tudo o resto era-lhe indiferente. Enquanto se sentisse bem, tudo óptimo e quando as coisas dessem para o torto - algumas noites de Inverno em que o frio picava e irritava a pele - deixava-as como estavam. Era tudo.
Ficavam lá horas e horas confiantemente agarrados um ao outro, sem pensarem na roupa amarrotada, no cabelo desalinhado. Fumavam muito, conversavam ou ficavam em silêncio, faziam amor ou trocavam beijos apenas. Eduardo adorava o corpo juvenil de Henrique, tomava-o nos braços e embalava-o como a um bebé, enquanto o rapaz acariciava, com especial ternura, alguma prega na carne dele, beijando com paixão as rugas, quase com reverência. Quando ocasionalmente ouviam vozes na rua ou quando a velha escada rangia, Eduardo agarrava a mão do Henrique e agarrava-a com força. Não é nada, dizia-lhe o rapaz, algum homem lá fora, à minha procura! Eduardo nunca percebia se ele estava a brincar ou a falar a sério mas sabia que ele pretendia dizer-lhe alguma coisa. Então inclinava-se para as suas mãos, mãos nuas cujo único ornamento era a aliança de casamento, onde tinha crescido calos por causa das contas, que pareciam estranhamente frágeis, como se feitas de porcelana. Tinha emagrecido, o seu corpo estava delgado, quase gasto; as cuecas largas nas ancas.
Não comes, ralhou-lhe Henrique, à noite não jantas, no escritório dizes que bebes café atrás de café e quando estamos juntos não páras de fumar. Eduardo sorriu. De novo aquela ruga entre as sobrancelhas... Sim, tinha razão o rapaz, "o seu rapaz", disse-o com uma nota de orgulho na voz. Mas não te chegam as tuas filhas, disse-lhe Henrique, também me queres para teu filho? As minhas filhas são minhas filhas e tu és quem és, respondeu Eduardo. E a tua mulher, voltou à carga o jovem, o que é que diz a tua mulher quando chegas tarde à noite? Quando não tem nenhuma reunião de negócios escreve números e quando não lê o jornal, vê televisão, respondeu-lhe. Mas não fala contigo, não te diz absolutamente nada? Só pensa no trabalho dela, queixa-se quando as coisas não correm bem; e tu, perguntou-lhe, os teus pais não querem saber por onde andas, o teu irmão o que diz? Dantes chateava-me todo o tempo para não chegar tarde a casa, mas depois achou conveniente que as mulheres, supostamente, andassem atrás de mim; é doido por mulheres casadas. Eduardo acendeu um cigarro. E é verdade que continuas a ser perseguido por homens? Só quero saber se te sentes bem comigo, não tenho outra razão para te perguntar, insistiu o homem. O cigarro na mão dele tremeu um pouco. Estou bem, respondeu-lhe, só há momentos em que me apetece ter dois, três, dez homens ao mesmo tempo, é como se a minha cabeça estivesse a arder... Achas que estou doente, Eduardo, como é que tu explicas isto?
Eduardo agarrou a cabeça dele, com o bonito pescoço, e encostou-a aos seus joelhos. Não estás doente, murmurou-lhe ao ouvido, és apenas um rapazinho mimado e mau; quando cresceres e amadureceres, ficarás bem, tudo ficará bem, verás... Tratas-me como um bebé, queixou-se Henrique, falas como os meus pais; fugi deles para te encontrar a ti. Tens a certeza que, no fundo, não era isso que procuravas? Era a vez de Eduardo fazer pouco dele.
Ficavam horas e horas despenteados, nus numa casa que ninguém tinha tempo de limpar, o pó acumulava-se nas prateleiras, aranhas teciam as suas teias em recantos esconsos. Saíam depois das onze e iam para casa de táxi, nunca de metro. A ideia de voltarem a entrar na mesma carruagem, mesmo que vazia, rarefeita de gente, era-lhes extremamente penosa. No silêncio de um táxi, com um motorista que, surdo e mudo, ia para o seu destino, sentavam-se muito juntos, com braços e pernas tocando-se como se estivessem numa cama. Imagina, dizia-lhe Eduardo, se nas nossas casas soubessem. E todo ele gelou. Henrique encolheu os ombros. Tudo o que queria evitar era complicações e brigas. Tudo o resto era-lhe indiferente. Enquanto se sentisse bem, tudo óptimo e quando as coisas dessem para o torto - algumas noites de Inverno em que o frio picava e irritava a pele - deixava-as como estavam. Era tudo.
(...)

2 Comments:
Eu cá acho que eles vão ser apanhados...
Luis
Lamento. Mas vou desapontar-te. A cena final já está escrita - aliás, comecei esta história por aí - e a possibilidade de serem descobertos não adianta nada ao curso da relação de Eduardo e Henrique; portanto, isso não vai acontecer.
abraços
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home