Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Uma história simples XIII

Passou Fevereiro, Março chegou. Uma tarde, ao entrar no comboio e ao sentar-se ao lado de Henrique, Eduardo tirou uma gardénia da sua pasta e ofereceu-a ao jovem. É do nosso jardim em Pinhal Novo, disse-lhe; esta noite, acrescentou sorrindo, temos aniversário. Henrique agarrou na flor e fê-la girar entre os dedos. Ou seja, quem tem aniversário? Inclinando-se na sua direcção, com voz baixa, Eduardo explicou-lhe que hoje, dia 3, tinham falado pela primeira vez; fazemos dois meses, percebeste, meu tonto? Henrique desatou a rir. Ria agarrando a flor e fê-la ondular em frente ao rosto. És incrível, Eduardo, disse-lhe por fim, numa me teria lembrado disso. Eduardo abanou a cabeça. Vês, disse-lhe, a juventude deixa passar o tempo como água, mas nós... e não completou a frase. Em seguida explicou-lhe que no dia em que se tinham conhecido, no escritório fechavam os registos do mês anterior. É sempre assim no dia 3 de cada mês, disse-lhe, hoje voltámos a fechar os registos de Fevereiro.

De repente Henrique deixou de rir. Silêncio! disse-lhe num tom áspero - nunca lhe tinha falado nesse tom - não sei nem quero saber o que fazem na repartição de finanças! Eduardo ficou estarrecido, ia protestar. Não, não digas nada, insistiu ele, o mesmo fazia o seu pai que era chefe de secção no banco, o balanço geral coincidia com o aniversário da mulher e tomava nota dos encontros com a amante no calendário dos clientes. E o meu irmão não lhe fica atrás, disse-lhe, para se lembrar de comprar alguma coisa para a mulher toma nota nos contratos de engenharia hidroeléctrica. São todos iguais, obcecados pelo trabalho, para eles as pessoas não contam, são apenas outro item como as turbinas ou os títulos de crédito. Toda a humanidade fichada em livros de contas de merceeiros!

Eduardo estava sem fala. Tinha estendido as mãos sobre a pasta e agarrava-a como para a proteger. De vez em quando, voltava-se para observar a seu lado outros passageiros. Quando o comboio parou no Pragal, foi o primeiro a levantar-se e a dirigir-se para a saída. Sem terem combinado, iriam regressar a Lisboa. Mudaram em silêncio de plataforma, Eduardo à frente de Henrique, desviando o rosto.

Já em Lisboa. Andaram pelas ruas. E como se isto não bastasse, retomou Henrique, vens agora tu falar de fichas. Porque é que me falas deste modo? queixou-se Eduardo, alguma vez disse algo que te ferisse? A sua voz quebrada, o fato no corpo como se o tivessem pendurado num cabide. Eu sei, disse Henrique, vocês nunca dizem nada... Nós somos sempre os culpados.

Sentaram-se num café. Em frente deles uma televisão acesa. A seu lado, grupos de amigos, casais jovens. Os dois podiam passar por parentes. Tio e sobrinho. Henrique deixou a gardénia em cima da mesa. Assim, sem copo, sem água. Pediram chá e beberam devagar, sem falarem, de olhos fixos no ecrã do televisor. Lentamente a exaltação dissipou-se. Henrique foi o primeiro a estender-lhe a mão e agarrou-o pelo pulso. Desculpa, segredou-lhe, desculpa, Eduardo... Eduardo sorriu. O seu rosto perdeu o tom acizentado e desabrochou. Não estou zangado contigo, disse-lhe, pelo contrário, tento compreender-te. Aliás, se não te compreendesse talvez não estivéssemos juntos agora. Não, estaríamos de qualquer modo, disse-lhe com vivacidade, não ligues ao que disse há pouco, não era nada contigo; tu, disse-lhe, desde o primeiro momento que entraste na carruagem e te sentaste na minha frente, disse para mim mesmo; não sei como mas irei tê-lo... Verdade? perguntou-lhe Eduardo, entornando um pouco de chá, nunca mo tinhas dito; e eu pensava que fosse eu o sedutor, disse timidamente, com um sorriso, fui eu que falei primeiro. É possível, disse Henrique, mas fui eu quem te deu a ideia; se não tivesse sido eu, nunca terias feito o mais pequeno gesto. De facto sou um homem pouco ousado para a minha idade, disse Eduardo. Mas só fora do escritório e longe de casa. Quando estou perto dos livros de contas e no meu jardim, sinto que domino o mundo todo. Eu sou sempre o mesmo, disse o jovem, em casa e fora de casa. Pertences a uma nova geração, disse-lhe Eduardo com voz baixa, é essa a razão; Podes imaginar-me, na minha idade, a tentar fazer amigos na rua? O que pensarias de mim? Penso que se o tivesses feito no tempo certo agora não terias necessidade de o fazer. Eu, acrescentou, gosto de andar por todo o lado, de encontrar companhia no comboio, no ginásio, na faculdade. Gosto de dançar com jovens da minha idade, de cantar, de falar de política. Então porque não fazes amor com rapazes da tua idade? perguntou-lhe. Tenho necessidade de algo que me ultrapasse, respondeu-lhe, que não me faça lembrar de mim mesmo; depois, todos esses rapazes só pensam em bens materiais, adormecem e acordam a pensar nisso. Viste? ralhou-lhe, primeiro criticas-me, depois começas a acusar esses jovens; nunca estás satisfeito. És um rapaz estranho, disse-lhe, não sei se acreditas em algo realmente ou se apenas tentas convencer-te de que acreditas. Afinal, a única coisa que tens em mente é o sexo. Adormeces e acordas a pensar em sexo... Eduardo inclinou-se e acariciou-lhe o rosto. A sua barba, cuidado, tinha começado a endurecer. Por vezes fazes-me pensar se todos os jovens são assim, hoje em dia. Achas que as minhas filhas terão, depois de amanhã, as mesmas ideias? Tens medo? perguntou-lhe, comigo não tens medo? Só pensas em ti, disse Eduardo; mas independentemente do modo como as minhas filhas pensarão, de uma coisa estou certo, de que terão saído a mim e á minha mulher em muitos aspectos. Tu não herdaste nada dos teus pais? Henrique sorriu. Herdei a indiferença deles, é só nisso que somos parecidos. Não sei como és em outras ocasiões, disse Eduardo, mas quando estás comigo és uma pessoa calma e carinhosa. Posso abraçar-te e sentir-te. Por isso gosto de ti. É verdade, disse Eduardo, com um sorriso cansado, geralmente as pessoas que conhecemos fora de casa são pessoas amáveis, vivas, atraem-nos porque são desconhecidas. Pode ser, não sei, disse Henrique, no fim sempre me engano. Seria que as pessoas se enganavam assim ao longo da vida?

Tinham acabado de beber o chá, mais alguns casais tinham chegado, outros saído, a televisão aceso, ao fundo. Não sabiam o que dizer mais, como se tivessem esgotado a conversa, sentindo-se também eles esgotados. Saíram para dar um passeio. Entraram no Bairro Alto, passaram as ruinas do convento, desceram a rua ingreme e sem se darem conta chegaram ao seu esconderijo. Eduardo hesitou, talvez fosse melhor adiar, disse. Mas eu quero, protestou Henrique e pegou-lhe na mão.

Subiram as escadas, acenderam a luz, sentaram-se na cama de corpo e meio. Se esta noite fosse a última, disse Henrique, o que me dirias? Eduardo rodou a aliança no dedo. Com o passar dos anos, o anel e a carne tinham-se unido, tinham-se tornado num só. Que tivesses cuidado com as companhias, com que homens fazes amor, que não perdesses o juizo; por vezes tremo só de te imaginar crescido! Sempre com conselhos, riu-se o rapaz. Sempre, disse Eduardo, com um ar sério. Talvez queiras que nos separemos? perguntou-lhe Henrique, eu não quero nada disso! Eduardo tomou-lhe o rosto nas mãos e aproximou-o de si. Podia ver a sua figura triste reflectida nos olhos do rapaz. Não posso nem sequer imaginar isso, disse-lhe, se bem que, sei-o bem, no fundo te prejudique... Então eu também te prejudico, disse o jovem, beijando-o avidamente nos lábios, quero que fiquemos juntos, sempre juntos! Agora ria e com a cabeça inclinada para trás, deixava cair o cabelo sobre a almofada. Sou belo, diz-me que me achas belo, suplicou-lhe como uma criança. Muito, disse Eduardo, mais do que devias, cada vez que te vejo nem sei onde ponho os pés; perco-me; tudo em meu redor se dissipa... Que bonito! disse Henrique, gosto que me falem assim. Quando era pequeno punha a minha avó a contar histórias e fechava os olhos. Via pradarias com cavaleiros em cima de cavalos, as nuvens, no céu, a transformarem-se em estandartes e eu partia com o vento, assobiando, grtitando palavras por mim inventadas... Oh, Eduardo, fala comigo, não pares, diz-me mais coisas bonitas!

Ficaram imóveis na cama, de olhos fechados, a luz apagada. Como se o mais pequeno movimento, o mais pálido reflexo de luz, pudessem quebrar o feitiço. Podiam ouvir a respiração um do outro, sintonizada, em uníssono, os movimentos dos lábios, a pulsação, a do jovem mais rápida do que a do homem. Um relógio deu horas no silêncio do quarto, como se quisesse acelerar as coisas ou suspendê-las para sempre, no mesmo sítio. Por fim, quando acenderam aluz, sentiram-se como se tivessem acabado de chegar de um longo passeio através de planícies e de encostas de escarpadas montanhas, os pés ainda encharcados de nevoeiro e geada.

Vestiram-se, parando de vez em quando para escovarem o cabelo um do outro, Henrique apertando a gravata de Eduardo, o homem ajustando o cinto do rapaz. Gostaria que esta noite nunca acabasse, disse Henrique, que passeássemos até ao amanhanecer. Eu também, disse Eduardo, gostaria, se fosse possível, de não ir amanhã ao escritório, que estranho, nunca tinha desejado isto! E eu também, quem me dera não ter que ir à faculdade, disse Henrique, que necessidade temos de tudo isso, porquê preocuparmo-nos?

Caminharam na rua da Escola Politécnica que estava movimentada àquela hora; carros subiam em direcção ao Bairro alto. Caminharam sem parar até que sentiram fraquejar as pernas, de fadiga

Quando, por fim, entraram num táxi, sentaram-se bem juntos e permaneceram em silêncio durante todo o percurso. Ao sair, Henrique virou-se para Eduardo e disse: "já pensaste, Eduardo, aquele bendito comboio..." Eduardo virou-se para ele, espantado, como se tivesse acabado de acordar. Se não tivesse sido o comboio, riu-se, não nos tínhamos conhecido, já pensaste nisso, Eduardo? Meu Deus, exclamou, sabes o que me aconteceu? Esqueci-me da tua gardénia na mesa de cabeceira! Não faz mal, disse Eduardo, passando-lhe a mão pelo braço, trago-te outra amanhã.

(...)

2 Comments:

Blogger Luís said...

Estou muito curioso para saber como termina a história. A sério que estou. Mas deixa-me que te diga. Se terminasse neste capítulo, na frase "Não faz mal, disse Eduardo, passando-lhe a mão pelo braço, trago-te outra amanhã", ia ser um final bonito. Em aberto. Misterioso. Mas bonito.

Porém, visto que não termina aqui vê lá se adiantas mais um capítulo! Isto é péssimo: estou a ler um livro e quando estou preso à história tenho que esperar que alguém vire a página!

12:27 PM  
Blogger serrano said...

Luís, está quase a chegar ao fim, mais dois ou três posts. Quanto à tua hipótese de final, é isso mesmo: uma hipótese, mas não se coaduna com a minha intenção nem com o que já foi contado. No final, tenciono explicar o que me passou pela cabeça para escrevê-la.

Não posso ir mais rápido. Tu não estás a ler um livro já editado. Estás a ler por cima do ombro do escritor, enquanto ele vai avançando no manuscrito.

Abraços... e paciência

12:37 PM  

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