Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Uma história simples XIV

Passaram alguns dias. A repartição de finanças estava apinhada de gente. Uns tentavam aceder à "autoridade competente", outros, de pé, formavam bicha em frente da secretária do chefe de contabilidade ou do caixa. Nervosos, suados, como se todas as desgraças lhes tivessem caído em cima. Reclinado sobre os seus papéis, Eduardo nem levantava a cabeça. Todas estas pessoas pareciam-lhe uma nuvem de moscas importunas que lhe escondiam o sol. Ansiava por se ver livre delas, para poder voltar para os seus pensamentos íntimos, os pensamentos que o atormentavam secretamente. Não que fosse do género de permitir que os seus pensamentos pessoais interferissem com o trabalho. Irritava-o o hábito que os seus colegas tinham de discutir os seus casos amorosos, a família, os carros, durante as horas de expediente. Quanto a si, no máximo, um telefonema da mulher, a avisá-lo de uma reunião na escola das filhas.

Mas desde que tinha conhecido o Henrique, estava sempre alerta para o som do telefone e do telemóvel, sempre à espera de ouvir uma voz jovem do outro lado do fio. Afligia-se. No seu espírito surgia a escada que conduzia às águas-furtadas, no ouvido o ruído do caruncho nas tábuas. Ao folhear os livros de contas tinha medo que o riso duro e irónico de Henrique se pudesse, de repente, escapar das páginas. Parecia-lhe que, em vez da voz da sua colega na secretária ao lado, ouvia as vozes estridentes dos jovens à porta dos bares do Bairro Alto. E também se preocupava com a sua roupa - estaria convenientemente vestido para o encontro da noite? Que espécie de comentário faria Henrique, desta vez? O seu peso - o ganhar ou perder um quilo ou dois - tornou-se outra causa de preocupação.

No escritório convenceu-se, gradualmente, que as pessoas que o rodeavam, clientes ou empregados, eram criaturas grosseiras que tornavam a sua vida desnecessariamente difícil. Se não fosse a sua educação, gentileza e posição de respeito, decerto que ele já teria explodido.

No comboio tinha coimeçado a ver adversários por todo o lado. O seu primeiro pensamento ao entrar no comboio era o de descobrir quem ia sentado ao lado de Henrique. Se fosse um jovem, examinava-o com um ar preocupado e se fosse um homem maduro, olhava-o desconfiado. Só recuperava a sua paz de espiríto se encontrasse mulheres, velhos ou deficientes sentados ao lado do rapaz. Parecia-lhe que todas as pessoas cheiravam mal, que eram rudes e feias. Só tinha olhos para o jovem. Inspeccionava a sua roupa, o seu cabelo, certificava-se de que ele trazia a pasta, sinal de que regressava da escola de línguas. Queria saber se ele tinha saído da escola à hora habitual, se tinha falado com a sua amiga arquitecta, na aula. Aquela rapariga tinha-se tornado agora numa figura tranquilizadora, numa espécie de salvaguarda. A ansiedade de Eduardo deslocou-se para outros colegas de escola de Henrique. Interrogava-o sem cessar tentando descobrir alguma prova de culpa naquilo que ele lhe contava deles. Era-lhe cada vez mais dificíl dominar os seus sentimentos. Por vezes, tornava-se abertamente importuna.

Eduardo pegou-lhe no braço, apertou-o com ambas as mãos, mãos que tremiam, de veias protuberantes, o dedo em que usava a aliança parecia querer desligar-se dos outros dedos, se fosse possível, e desaparecer da vista. Não ligues, disse-lhe ele, estou cansado, os números entonteceram-me. Em momentos como esses, todo o seu desespero, a sua incapacidade de se dominar, eram visíveis aos seus olhos, despertando no jovem uma irresistível vontade de intriga. Começou a descrever-lhe uma cena de rua, um homem que o tinha abordado. Isso é verdade? perguntou Eduardo. Claro que é verdade, disse o rapaz com um ar triunfante, provocando-o. Pensamentos loucos invadiram-lhe o espírito. Tentou mudar de assunto. Perguntou-lhe, como não quer a coisa, se ele tinha dinheiro suficiente. Mas em resposta à sua pergunta, o jovem riu-se insolentemente na cara dele. Se eu precisar de mais dinheiro alguma vez, disse-lhe, sei como o obter, não te preocupes. Não preciso de ti para isso. Outras vezes dirigia-se-lhe severamente: é isso que pensas de ti? e eu, que espécie de pessoa é que julgas que sou? Ele ouvia, envergonhado, e pedia-lhe perdão. Sempre que ele dizia que não se podiam encontrar no dia seguinte, por causa de um qualquer trabalho, uma onda de fúria irracional apossava-se de Eduardo. Como se não bastasse os fins de semana e feriados... Ele sentava-se no seu lugar, sem dizer palavra. E quando, uma noite, Henrique anunciou que tinha finalmente obtido a bolsa, Eduardo ficou despedaçado, como se o mundo se tivesse desmoronado à sua volta. Mas é verdade? Quer dizer que vais partir, em breve, para a Alemanha? Já pensaste no clima, disse, sabes bem que não te dás com o frio, constipas-te tão facilmente. E as tuas lições de alemão, fizeste alguns progressos? Não me parece... Ele garantiu-lhe que ainda tinham muito tempo para estarem juntos, não partiria senão daqui a várias semanas. Tomou-o nos seus braços enquanto ele reprimia um suspiro.

Em casa, de noite, esforçava-se por se interessar pela família. Hábitos adquiridos há anos impeliam-no na rotina de pôr a mesa, de se informar sobre as aulas das filhas, de falar de assuntos do dia-a-dia com a mulher. Sentia-se como se uma marioneta tivesse tomado o seu lugar. E se um ar interrogador aparecia nos olhos da sua filha mais nova, uma expressão de confusão devido ao comportamento estranho do pai, Eduardo abraçava-a logo, tranquilizando-a com beijos. Os seus únicos momentos de trégua neste contínuo estado de tensão nervosa eram as noites em que o Henrique não aparecia e ele ficava sozinho no comboio, gradualmente recuperando o discernimento. Via-se a si mesmo como uma vítima da auto-ilusão, tinha-se deixado levar pela sua imaginação, no seu espírito tinha construído uma pura imagem ficcional do jovem. Solenemente resolveu controlar-se. Durante estes sóbrios intervalos relaxava e observava a paisagem familiar que deslizava através da janela.; reparava em casas que nunca tinha notado, árvores em redor de largos desconhecidos. E pensou que o seu estado de espírito podia ser compradao com uam tardia doença infantil, como o sarampo. Devo ter estado louco, pensou, sorrindo para si mesmo.

Nesses momentos o céu readquirira a sua cor natural, azul-escuro tingido pelo brilho amarelado das luzes da cidade; e quando saiu do comboio e a sua casa surgiu no fim da rua, achou que o seu lar era um bastião em que tudo e todos permaneciam inalteráveis, com o passar dos anos, á sua espera. Era este o seu mundo. O seu círculo familiar, fechado e seguro. Havia mesma momentos em que ele passava o serão a ocupar-se com ninharias junto da mulher e das filhas e, por fim, ia para a cama num estado de espírito calmo. Até parecia possível que esta paz se prolongasse pelo dia seguinte, não fosse a noite surgir de novo, infiltrando-se através da janela do escritório, arrastando as sombras nocturnas, despertando todas as velhas incertezas, a dor no coração. O tempo transformava-se de novo num largo rio que ele tinha que atravessar antes que pudesse, por fim, sair em direcção á estação dos caminhos de ferro, às oito horas.

Muitas vezes tinha mais prazer em esperar pelo Henrique do que propriamente o encontrar no comboio. E a visão dele, reclinado de um modo descuidado no assento, com as suas calças familiares de botões de metal, excitava-o mais do que as horas passadas na cama de corpo e meio, no quarto das águas furtadas. Deste modo, os intervalos entre os seus encontros estavam repletos de um contentamento muito mais intenso do que tudo o que ele sentia durante o tempo que passavam juntos. Expectativa e recordação, o futuro e o passado investidos pela mesma fascinante aura. Já não era capaz de desfrutar do presente. E a sua vida decorria assim, prisioneira deste ritmo quebrado e angustiado.

(...)

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