Segunda-feira, Outubro 16, 2006

Uma história simples XVI

No dia seguinte ficou em casa, com o pretexto de que estava a chocar uma constipação. Era uma das raras ocasiões da sua vida profissional em que faltava ao escritório. O director telefonou de manhã, parecia preocupado. Com uma voz calma, ele garantiu que regressaria ao escritório, como sempre, no dia seguinte. Sentiu um prazer secreto pelo facto de a sua ausência ter sido tão notada. Bom, era um feito, mesmo que pequeno. Deixou que a mulher e as crianças o apaparicassem. Respondeu às suas perguntas ansiosas com as mesmas frases convencionais, não, não era nada de grave, apenas uma ligeira constipação, amanhã estaria óptimo.

Passou um dia calmo, vazio, em casa. Não tratou de nada em casa, ficou na cama a olhar preguiçosamente para os cabeçalhos dos jornais, descobrindo que havia coisas que haviam acontecido e ele não sabia nem se tinha preocupado nada em saber, durante anos, pareceu-lhe. Qual era a siatuação em Portugal e no mundo? Conferências, negociações, greves, manifestações, fome, inundações. Estava a leste de tudo o que explicava a razão pela qual as notícias que lia nem sempre faziam sentido. Mas estava confiante de que no dia seguinte seria capaz de seguir os assuntos do quotidiano, como retomar o fio à meada depois de perder alguns episódios à telenovela.

À noite, como sempre, correram os cortinados. Ele achou que elas estavam a exagerar nos cuidados, mas deixou-se ir, sem resistência, na contínua corrente das actividades domésticas. Tudo parecia perfeitamente regulado, predeterminado, como se uma mão invisível tivesse programado tudo. Era como se aqui existisse Deus, um Deus aborrecido, talvez, mas existia. A televisão estava acesa num canto da sala de estar, as crianças viam televisão, sentadas em almofadas no chão, de pernas cruzadas. A luz tremulante do ecrã tocava os seus rostos, clareava os seus cabelos; uma das raparigas tinha cabelo loiro, a outra castanho-escuro. Aqui e ali, os cabelos delas ondeavam, minúsculos caracóis despontavam como diabretes atrevidos. A mulher, reclinada no sofá, bebia um uisque e lia o jornal. Naquela noite Eduardo tomou um comprimido para dormir e dormiu profundamente até de manhã.

No dia seguinte estava de volta ao escritório. Houve simpáticos interrogatórios sobre o seu estado de saúde. Em seguida, as fichas e os cartões do costume, ficheiros, arquivos. Ontem tinha havido telefonemas para ele? Sim, alguém tinha telefonado, uma voz conhecida, a pessoa que lhe telefonava com frequência... Lançou-se ao trabalho sem demoras. Um dia de ausência era suficiente para perturbar o ritmo normal dos afazeres. Mas a sua longa experiência no escritório dava-lhe total confiança e sabia que podia fazer face à situação. Às vezes não podia deixar de pensar no fundo de determinação que havia nele, como um minério precioso. E quando o telefone tocou - havia desligado o telemóvel depois da discusão com Henrique -, deu instruções para que voltassem a telefonar no dia seguinte. Hoje tinha que tratar de "assuntos urgentes". E o dia foi passando e na tarde seguinte preferiu apanhar o autocarro, em vez do comboio. Na terceira tarde apanhou o comboio outra vez.

Apesar de ter tentado chegar mais tarde nessa noite, o hábito levou-o à estação ao bater das oito. No compartimento do maquinista estava sentado um velho de chapéu ao lado e óculos descaídos na ponta do naríz. Parecia esperto e experiente, como alguém que já tinha vivido muito. A Eduardo pareceu-lhe que ele se tinha voltado e lhe tinha piscado o olho.

Ao abrirem-se as portas da primeira carruagem, viu o Henrique sentado à janela, de costas voltadas para o maquinista, como sempre. O cabelo, forte e desalinhado, caía-lhe sobre os olhos, como habitualmente. Com a sua camisola e calças de botões de metal, de pasta debaixo do braço, parecia um jovem vulgar, um rapaz entre centenas de rapazes que regresam a casa depois das aulas. Assim que o viu, Henrique levantou-se acenou-lhe. Levantou a pasta, os olhos dele brilharam. O brilho típico dos olhos dos jovens, pensou Eduardo. O rapaz continuava a sorrir-lhe mas tudo o que Eduardo fez foi acenar-lhe brevemente com a cabeça. Como quando se tinham encontrado pela primeira vez, no comboio, dois estranhos entre estranhos. Depois esperou calma e firmemente que as portas se fechassem. Viu o comboio partir, as carruagens a passar, uma a uma, desaparecendo no escuro. Conseguiu ainda ver a mão do jovem, com a pasta no ar. Como uma mão numa fotografia, suspensa, gelada. Tudo isto durou uma fracção de segundo. Como num sonho, tinha visto o comboio partir. Em seguida, tirou o jornal da pasta e sentou-se a lê-lo, num banco, até o próximo comboio chegar.

Mais tarde, já no comboio, continuou a leitura. Não lia linha a linha mas escolhendo frases ao acaso, aqui e ali, incapaz de se concentrar. Uma e outra vez, pensou que tinha ouvido alguém chamar por ele e ao levantar os olhos encontrou-se rodeado de estranhos, de pé e sentados, com um olhar parado. Mergulhou e novo o rosto no jornal. Na estação de Coina, onde Henrique saía, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Ficou imóvel, por um momento a olhar pela janela. Como o comboio lhe parecia lento esta noite!

Talvez devesse mudar de transporte por uns tempos. Talvez apanhasse o autocarro ou um táxi, se necessário. Era algo que tinha que decidir, pensou, já amanhã. Mas valeria a pena dar-se a tanto trabalho, mudar os seus hábitos, pensou. E porque razão? Sempre tinha sido um homem firme nas suas decisões. E tinha a persistente impressão de que o comboio, esta noite, parava a cada estação sem uma razão particular e que as pessoas que entravam também elas viajavam sem uma razão particular, como se tudo acontecesse mecanicamente, sem motivo. Talvez devesse ter ficado em casa mais alguns dias, pensou. Precisava mesmo de descansar. Se pensarmos bem, depois de todos estes dias de intenso trabalho no escritório, tinha todo o direito de exigir alguma consideração e de esperar que fosse tratado como um ser humano. Para além disso, sentiu que não devia negligenciar a mulher, como tinha feito ultimamente. E pensou em dedicar mais tempo às suas filhas também. Só Deus sabia que espécie de problemas podiam ter, nos tempos que correm! E se a sua filha mais velha estivesse a ser desviada por algum jovem de rastas, piercings e tatuagens por todo o lado? Tremeu só de pensar nisso. Mas que lento estava o comboio esta noite!

Sentir-se-ia Henrique tão vazio e entediado como ele? Tinha provavelmente encontrado outro homem maduro. Decerto que visitavam o pequeno quarto das águas furtadas com a cama de corpo e meio e o candeeiro cor de carne. Talvez encontrassem a gardénia ainda em cima da mesa de cabeceira. É claro que já teria murchado... A viagem para casa parecia-lhe interminável. Uma longa e árdua Odisseia. Seria sempre assim, todas as noites, a partir de agora?

FIM

Nota para o leitor: Imprimir esta narrativa curta, suprimir os capítulos, mudar o título para Dois estranhos entre estranhos e relê-la em um único fôlego.

5 Comments:

Blogger Luís said...

A história, como a vida, é simples: um final em aberto. Sem se saber se será um final feliz.

PARABÉNS!!!

1:43 PM  
Blogger serrano said...

Luís, qual final em aberto? O Eduardo decidiu continuar com a "vidinha" dele e esquecer o Henrique! Não há nada em aberto.

2:40 PM  
Anonymous Anónimo said...

Um desistente, portanto. Ou um intuitivo, talvez.

mar_maria

8:51 PM  
Blogger Luís said...

Vou discordar contigo Serrano... O Eduardo continuou a vida dele (não gosto do termo "vidinha") mas o destino do Henrique fica em aberto. Não se sabe se sente saudades, se vai fazer qualquer coisa para voltar para o Eduardo, se já está com outra pessoa...

Aliás, mesmo em relação ao Eduardo, quando escreves "Seria sempre assim, todas as noites, a partir de agora?" dá a sensação que qualquer coisa poderá acontecer e mudar a rotina que ele questiona se se manterá...

Mas isto é apenas a opinião de um leitor, lol!

10:49 AM  
Blogger serrano said...

Luís, apesar da interrogação, se releres a história, julgo que fica claro que aquela foi uma aventura sem exemplo para Eduardo, e que já não lhe interessa continuar a relação com Henrique.

1:30 PM  

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