<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467</id><updated>2011-04-21T19:11:08.152+01:00</updated><title type='text'>Ficções Mínimas</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>104</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116266555074572132</id><published>2006-11-04T18:35:00.000Z</published><updated>2006-11-04T18:39:10.760Z</updated><title type='text'>PAUSA</title><content type='html'>Não sei quando vou voltar a actualizar este blog. Não tenho tido tempo para escrever, e assim vou continuar nos próximos tempos. Neste momento, uma vez que dá menos dispêndio de energia, vou andar por &lt;a href="http://serranoonline.blogspot.com/"&gt;aqui&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero, no entanto, que esta pausa forçada não seja muito longa!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116266555074572132?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116266555074572132/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116266555074572132&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116266555074572132'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116266555074572132'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/11/pausa.html' title='PAUSA'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116246377343907842</id><published>2006-11-02T10:22:00.000Z</published><updated>2006-11-02T10:44:11.826Z</updated><title type='text'>In a lonely place</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sempre me dei bem com a solidão. Há muito tempo - ou não há tanto tempo quanto isso -, passava horas a fio a ler e a escrever: os romances traziam-me o mundo lá fora, mundo esse que re-ordenava sempre que me dispunha a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era o caso de tentar provar que o homem é uma ilha, não. Sabia que existia o amor, mas não o conhecia. Pressentia que era coisa de seres malditos, sem qualquer hipótese de um viver sem o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que foi há muito tempo. Agora tenho uma casa que conheço até de olhos fechados, os ramos do limoeiro e da cidreira no quintal, o cheiro do refogado na cozinha, a música que se ouve baixinho - é sempre a versão lacrimosa de Alessandrini para o &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Stabat Mater&lt;/span&gt; de &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Pergolesi&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, para além de saber que o amor existe, conheço também o rosto dele, os seus olhos, o seu corpo, sei que me ama. E tenho medo dele, como sei que ele tem medo mim, porque somos o rosto da morte um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o amor diminuir... quando o sentimento de traição voltar a ser muito forte, porque nós atraiçoamos os nossos mortos, e eles estão perto, nos livros da biblioteca, nos filmes a preto e branco, na música suave e olorosa das folhas do limoeiro e da cidreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu amo-o tanto. E sei que ele me ama. Há momentos em que a felicidade é maior que o horror, quando lemos um livro juntos, quando nos amamos, quando damos as mãos e caminhamos pelas sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no entanto, um de nós matará o outro. Ambos o sabemos. Aquele que deixar de amar primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só não sabemos quando. Mas o momento vai chegar, o momento de fechar o círculo, porque na vida tudo tende para o círculo, e não podemos fugir.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a href="http://www.amazon.com/Pergolesi-Stabat-Mater-Scarlatti/dp/B00068B8JI"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a href="http://www.amazon.com/Pergolesi-Stabat-Mater-Scarlatti/dp/B00068B8JI"&gt;Stabat mater&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0042593/"&gt;In a lonely place&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Conhecemos o fim da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nicholas Ray também o conhecia: &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;In a lonely place&lt;/span&gt;, a mais bela frase do cinema, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;I was born when he kissed me, I died when he left me, I lived a few weeks while he loved me&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116246377343907842?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116246377343907842/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116246377343907842&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116246377343907842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116246377343907842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/11/in-lonely-place.html' title='In a lonely place'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116229714684995588</id><published>2006-10-31T11:10:00.000Z</published><updated>2006-10-31T12:19:06.870Z</updated><title type='text'>Recordações do Brasil</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Conheci o Beto no forró do Chico, no final da minha comissão de seis meses no Brasil. Os seus olhos, sombra violeta no rosto claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, clareira luminosa no meio de cobre e de outros pigmentos em que a Canoa floresce - o mistério do esperma português, indío, afro, cigano e holandês. Beto não chega a atingir a tonalidade do ouro, requinte mínimo da pele de alguns nativos. É mesmo marfim, não posso fugir ao lugar comum. Mas Beto não é comum, confirmam as asas do nariz e os vincos que contestam a sua boca adolescente. Sinto o paradoxo: doce gavião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- 'Cê é daqui?&lt;br /&gt;- Não. Português. E o senhor?&lt;br /&gt;- Você.&lt;br /&gt;- Você é de onde?&lt;br /&gt;- Fortaleza.&lt;br /&gt;- Pensei que fosse de São Paulo.&lt;br /&gt;- 'Cê toma cerveja ou cana?&lt;br /&gt;- Tanto faz. O que o senhor - você - está a beber?&lt;br /&gt;- Cerveja e pinga. Não gosto de cachaça, mas essa é do Cumbe. Dá p'ra botar limão ou mel. Mesmo de jandaíra ou caju. Mas como é, cerveja ou cana?&lt;br /&gt;- O que viver eu bebo.&lt;br /&gt;- Chico, uma cerveja e mais um copo!&lt;br /&gt;- É p'ra já. Aqui você manda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bom sentir a proximidade de Chico. Massa. Força.  A presença de um macho que dá segurança: pai, amigo, irmão. Mas vamos esquecer esta treta em psicoterapês. Psicanalista resolveu alguma vez quaisqer dos meus problemas? O que importa é Beto. Aqui e agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com espuma ou sem? Beto, quando podemos escolher, vale a pena optar pelo que se prefere.&lt;br /&gt;- Sem espuma.&lt;br /&gt;- Prefiro com. Sem, parece mijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto quase esvazia o copo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixa-me dar um gole no teu... no teu mijo- digo sorrindo.&lt;br /&gt;- Sé é de gosto...&lt;br /&gt;- Está óptimo. Porque é teu. E além do mais, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;quem bebe sobejo fica sabendo segredo do outro&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;- Tenho segredo não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto bebe um gole do meu copo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora eu sei o seu também.&lt;br /&gt;- Tu já sabias. Podemos sair juntos depois do forró?&lt;br /&gt;- Até agora, podemos ir já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebemos mais. Helena puxa-me para dançar. Saia transparente, presa muito abaixo do umbigo. Um pano fino mal cobre os seios, num improviso. Faixa de conchas, a sua coroa. Tudo branco, destacando a nudez morena, ávida de saborear as mulheres do mundo e os homens da Canoa. Um vaqueiro da Beirada aproxima-se, espadaúdo, hoje mais princípe pelo brilho no olhar: a possibilidade de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;possuir&lt;/span&gt; novamente Helena. Ela beija-me na boca e cola-se a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sairmos do forró, Beto pára para mijar num beco escuro. Afasto-me e foco a lanterna no jacto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouro. Mais bonito que cerveja!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto exibe o membro com discrição, esperando que eu me aproxime. Resisto, querendo muito mais que uma aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos ver o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos as últimas casas. O palco de areia cintila à luz das estrelas. O mar, um brilho menor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toco no rosto de Beto. Desço as mãos pelo seu flanco. Aproximamo-nos devagar, até ao braço. Durante o beijo, mete a língua na minha boca. provoco variações a que Beto, ágil, responde num jogo. Diálogo táctil. Rimos das nossas invenções. Arranhar os seus dentes com os meus dentes, titilar a língua, sentir a intimidade das gengivas. Deitado na areia, Beto faz sexo com a espontaneidade com que beija. A mesma rapidez nas respostas às provocações dos lábios, da ponta dos dedos, de todo o meu corpo instigando-o a correr comigo, parelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de Beto como ele é. Pássaro livre, cavalo selvagem que, graças a Deus, vem comer à minha mão. E eu perco-me no seu hálito, na sua boca húmida, e peço com os lábios, com a língua, com os dentes, a sua saliva. Que libação, licor! A minha cabeça, formada por Garbos e Pasolinis, faz-me desejar um laço mais forte. Quando sinto o potro sacudir a brida, saio pela tangente. Dou-lhe rédea. Lambo-o dos pés à cabeça, sugo os artelhos. Mordisco a sua cabeça, da nuca à testa, como se fosse polpa de macaúba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto tem o preconceito de não dar nem chupar. Vibra, bandolim de cordas tensas, quando o toco com a ponta da língua. Ouço um tilintar de sininhos de ouro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto responde, não fodendo com mulher nem homem. Nem namorada. Passeia, admira o pôr-do-sol nas dunas, bebe na Tenda do Cumbe. vai à praia, ao forró. Comigo. Camaradas. Embalo Beto na rede. Despe os calções ou as cuecas, aos poucos. Enlaça as pernas no meu pescoço. Eu, Pedro Álvares Cabral deslumbrado, beijo com amor a sua pétala de rosa. Ou no chão, ele apoiado apenas nos ombros, a cabeça levantada, ergue o rabo equilibrando as pernas no ar. E puxa as nádegas com as mãos para a minha língua entrar mais. Só a língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quer ir a Fortaleza.?&lt;br /&gt;- Vamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se interessa por nada. Ir a Fortaleza é passear de carro numa longa orla maritima. parar num bar qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queres ficar comigo. Estudas, não precisas trabalhar. Dou-te uma mão.&lt;br /&gt;- Deixe p'ra lá. Um dia pode até ser. Agora vamos voltar p'ra canoa.&lt;br /&gt;- Só vou ficar mais uma semana. A minha comissão está a chegar ao fim. Volto a Portugal.&lt;br /&gt;- A gente se cruza de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Canoa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou jantar com a velha. Depois passo no forró.&lt;br /&gt;- Antes uma cerveja no bar do Toinho.&lt;br /&gt;- É isso aí, cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega com um amigo que não conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Valtim. 'Tava viajando com um carinha gamado nele. Onde tu foi, Valtim?&lt;br /&gt;- Recife.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valtim é simpático. Esguio, moreno escuro, feições afiladas. Os olhos, dois faróis de luz negra. Um presente de faraós. Imagino-o sendo levado à presença de Cesar, enrolado num tapate. Cleópatra no masculino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valtim e Beto inseparáveis. Acabo fodendo com Beto, ele ali ao lado, conversando e fumando maconha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós os três sempre juntos. Na praia, na Tenda, no forró. A não ser quando um gaúcho ou uma coroa levam Valtim - quem quer que largue algum dinheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quer transar com ele, macho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que Valtim me atrai. Muito. Mas estou interessado em Beto. Muito a fim dele mesmo. Aguento as pontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E tu queres que eu transe?&lt;br /&gt;- Numa boa.&lt;br /&gt;- Então vamos os três, 'tá?&lt;br /&gt;- Barra limpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de humilhado por Beto não ter ciúmes, foi uma experiência incrível. Inventamos posições, toques. Improvisamos com sabedoria e eficácia. Trio perfeito: flauta, fagote, oboé. Só não uma coisa. Valtim tem os mesmos preconceitos que Beto. Duas: entre eles, nenhuma caricia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Beto, vou-me embora amanhã. Não queres mesmo vir comigo?&lt;br /&gt;- Não, cara. Um dia pode ser.&lt;br /&gt;- Então não nos vamos ver mais?&lt;br /&gt;- É só pintar por aqui.&lt;br /&gt;- Vou sentir a tua falta. Não vou negar.&lt;br /&gt;- Leve Valtim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não tem cão, caça com gato. E Valtim é maracajá, caído do céu. Vai doer a falta de Beto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E ele topa?&lt;br /&gt;- Topa. Combina com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valtim topa. Eu sei que apenas por uns dias, um mês talvez, depois ele vai desaparcer. Por uma camisa bonita, um passeio de mota, uns olhos azuis. De homem ou mulher. Eu tenho é que aproveitar Valtim enquanto ele estiver comigo. Enquanto reaprendo a respirar sem a presença de Beto. Enquanto diminui a saudade de segurar no seu rosto e mergulhar nos seus olhos, neblina violeta em que navego, com a minha boca ancorada nos seus lábios. Faço das tripas coração - e vale o jogo de palavras porque &lt;span style="font-style: italic;"&gt;tripa&lt;/span&gt; é gíria antiga da Canoa. É cacete, pau. Pénis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora de vir embora, Valtim é uma força. Sem ele, como é que eu conseguiria? Acabou insistindo, falando coisas da novela. Beto desce trazendo a minha mala. Abro a porta do carro, estacionado debaixo dos cajueiros. Espero ainda por um último trunfo para ter Beto durante mais algum tempo. Tempo? Eu quero a vida toda, a eternidade com ele. Só Beto. Não dá, paciência, tenho que ir numa boa. Tento calar a agulha que dentro de mim tece a eterna frase de um tango inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  Pois, tchau. Conhecer-te foi um troço legal p'ra caralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beto tira o colar de vértebras de cação e coloca-o no meu pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para você se lembrar de mim um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso responder? Valtim entra no carro. Ligo a chave. Beto aproxima-se, fecha a porta de leve. Bem perto do meu rosto, diz olhando para Valtim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bonito ele, não é? Parece um peixe.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116229714684995588?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116229714684995588/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116229714684995588&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116229714684995588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116229714684995588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/recordaes-do-brasil.html' title='Recordações do Brasil'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116185923471532277</id><published>2006-10-26T10:04:00.000+01:00</published><updated>2006-10-26T11:53:54.493+01:00</updated><title type='text'>A minha morte</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não vi a navalha na sua mão. Ele só a comprara há pouco tempo. De repente, retirou-a do estojo e dirigiu-se para a janela, fascinado com o seu peso e com a eficácia que ela parecia permitir-lhe. O cabo com grandes rebites brilhantes era feito de madeira preta. A lâmina de doze centímetros abriu com um ligeiro impulso. A navalha estava fria e confortável na sua mão, e ele debruçou-se por trás de mim, que estava sentado na poltrona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A janela estava aberta de par em par, e a chuva, que batia contra a casa ao sabor das rajadas de vento, ensopara as cortinas que caíam bonitas, todas pesadas e escuras à frente dos batentes da janela. No chão de parquet, uma poça de água. A luz batia nela, iluminando o compartimento às escuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pus-me a imaginá-lo aqui sentado o dia inteiro a olhar o céu profundo e a linha dos telhados para lá do parque, que formava uma espécie de horizonte da cidade e escondia o outro horionte e lhe limitava o olhar. Na noite anterior, quando lhe perguntei o nome, respondeu que a placa da sua porta era a terceira a contar de baixo. A cobertura de algodão da poltrona estava fria e pegajosa. Recostei-me para poder observá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um médico à procura das artérias para medir as pulsações, ele pousou o indicador e o dedo médio no meu pulso. Movia-se suavemente e sem pressas. Porém, antes de fechar os olhos, ainda vi o seu antebraço coberto de suor, como verniz. Fiquei muito tempo sentado por baixo dele sem olhar e estiquei a cabeça para esfregar a testa no peito dele. Só quando ele tirou uma mão de repente e levantou a outra é que abri os olhos. Então vi a navalha. E ele cortou-me a garganta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez um corte da esquerda para a direita, e a ferida de arestas vivas abriu logo. Dilacerou profundamente os músculos e a carne, separou a epiglote da laringe, cortou as artérias carótida e tiróide, a traqueia e o esófago, e ainda deu um golpe profundo numa vértebra cervical. Ao retirar a navalha da ferida, emitiu um som que não parecia humano, mas sim uma espécie de gorgolejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caí para a frente na sua direcção, e a minha cabeça tombou sobre os seus joelhos. Estremeci de dor, os meus músculos contorceram-se numa cãibra e voltei a cair contra as costas da poltrona, em cima da lâmina. As minhas mãos tactearam o pescoço. Olhei para ele e tentei falar, mas deitei uma golfada de sangue pela boca; respirei e engoli sangue. Tinha sangue na saliva ensaguentada dentro da traqueia; sangue nos olhos, no nariz e na língua. A artéria cortada sugou ar e bombeou-o com força para o coração. Deixei de conseguir respirar, fiquei paralisado de medo e senti que o meu olhar parara. Deixei de vê-lo. A minha carne contorceu-se em espasmos violentos como uma tempestade, e enquanto eu entrava em colapso, as minhas pernas bateram no chão com um barulho enorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele manteve a navalha no ar sobre mim durante um bom bocado. Sentia-a pesada e confortável na mão. Nessa altura, já eu estava morto há muito. A cortina molhada ondulou e bateu contra a janela. Ele ficou parado de pé, a ouvir o vento. Depois pousou a navalha e foi-se embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvia o ruído de aviões a descolar ou a aterrar, e cá em baixo a cidade mantinha-se presa e imóvel sobre a terra arenosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já me encontrava em agonia, o meu corpo ainda tentara reagir ao ferimento, porém o sistema respiratório e circulatório, o sistema nervoso central e os tecidos não deram resposta. Depois, a circulação sanguínea parou. A temperatura do meu corpo baixou. Primeiro ficaram frias as mãos e a cara. Depois, o frio foi-se entranhando cada vez mais e foi-se aproximando nem eu sei bem de quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante um bocado, o metabolismo continuou a processar-se como se não tivesse acontecido nada, até que pouco a pouco começaram a dar-se reacções bioquímicas descontroladas, que eu sabia que ocorreriam até se esgotarem todos os substratos e enzimas armazenadas. Parara de chover.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto a humidade caía sobre a lâmina brilhante da navalha pousada ao lado da poltrona, sobre as minhas pupilas e sobre o sangue que começara a coagular, vi-o afastar-se por baixo das árvores despidas e segui-o. Observei pela primeira vez o gesto com que ele massajava regularmente a cana do nariz. Lembrei-me dos seus lábios. Cheirei de novo a sua pele. Não tinha reparado que ele era bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois vi o crepúsculo engoli-lo e vi-o olhar para cima, para a janela aberta no segundo andar, atrás da qual me encontrava. Segui o seu olhar, voltei a olhá-lo por fora e por dentro, onde a minha língua o conhecera. Ouvi os seus pensamentos e senti o frio que ele sentia. Vi a luz do meio-dia envolvê-lo como se estivesse dentro de água. Soube que já quase não pensava em mim. E vi como ele se admirava, e como a cidade o estreitou como uma nova pele que cobrisse a sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutou a sua própria respiração e as batidas do coração. Sentiu, como se fosse a primeira vez, as pálpebras palpitarem e humedecerem por cima das órbitras. Ficou muito tempo a ver o manto de neblina sobre a paisagem nublada. A tarde de Inverno afundava-se mais e mais nos arbustos, cobrindo de branco as casas, os bancos, o caminho. A linha de casas recortava-se do outro lado do parque num tom escuro-queimado, à excepção de meia dúzia de janelas cujas luzes sobressaíam no escuro. As casas foram-se afundando lentamente na terra mole como descobertas futuras ou recordações escarificadas, tudo esmagado e triturado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele atravessou o parque e vagueou sem destino cidade adentro. Devido ao golpe que sofrera, havia sangue na minha boca e pulmões, no esófago, na traqueia e no nariz. A traqueia emitia um brilho baço, aberta como uma calha de abastecimento, feita de osso muito branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;**&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Tentei lembrar-me do que acontecera na noite anterior, e voltei a sentir a dor latejante. No princípio da noite tinha sido transmitido um discurso contrário a um novo ataque terrorista no Médio Oriente. Na embaixada norte-americana evocou-se os mortos do 11 de Setembro. Num subúrbio um jovem levou para casa o dvd "Brincadeiras Perigosas", de Michael Hanecke. Pouco depois das oito comecei a minha comunicação sobre &lt;span style="font-style: italic;"&gt;violência, desejo ritualizado e sexualidades&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto lia, ia-me esquecendo da dor de cabeça, mas quando ia a sair da sala para me dirigir até ao jardim, senti o cheiro dos primeiros cigarros e então a dor aumentou e começou a instalar-se por detrás do olho esquerdo. Fiquei uns instantes a sentir o ar frio da noite e o barulho nítido dos mastros que se entrechocam lá em baixo, no embarcadouro do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pisei o cigarro contra o cascalho e acendi outro, ouvi uma porta abrir-se por trás das minhas costas e o som de passos que se aproximaram por cima do saibro do jardim de Inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também era capaz de fazer isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que tivesse tempo de me virar ou responder, a voz masculina voltou a falar: - De magoar tanto uma pessoa como descreveu, quero eu dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocorreu-me novamente que tinha lido muito mal. Como se as palavras resistissem a serem ditas, obstinadas em perderem o sentido. Não percebi o que ele queria de mim, virei a cabeça para ele na escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar na sala, tinha reparado nele numa das primeiras filas da assistência. Antes de começar a ler a comunicação, o meu olhar tinha-se detido nas suas pupilas escuras, cabeça escanhoada, barba rente e mesclada de pêlos castanhos, brancos e acobreados, queixo quadrado, casaco de cabedal com a gola levantada, camisola e calças pretas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como achou que eu estava a reflectir enquanto olhava para ele, deu-me tempo para responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não - respondi de súbito em voz baixa, pisando o cigarro contra a gravilha, embora pudesse ter ido para o meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do jardim de Inverno abriu-se de novo e o tom das vozes subiu. Desci rapidamente em direcção ao lago. E ele foi atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um grande silêncio no fundo do lago e estava tudo escuro acima das águas. Um banco de pedra abria-se para uma pequena praça redonda como uma nuvem no meio da escuridão, por entre os longos ramos das antigas árvores altas, como se a natureza tivesse resolvido imitar a arte. O tufo de ervas do parapeito surgia frio e húmido da chuva dos dias anteriores. Ao debruçar-me, via bater lá em baixo as ondas, que naquela noite reflectiam apenas algumas luzes do outro lado da margem. Ouvi-o aproximar-se de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repetia a pergunta, como se a minha resposta não tivesse sido proferida. Mas desta vez em voz baixa, num sussurro, com a boca perto da minha orelha. E eu menti-lhe, e assenti. Ele não tinha nada a ver comigo. - Sim - respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pousou dois copos de vinho no parapeito. Não conseguia ver a sua cara no escuro, mas as suas mãos brilhavam contra a pedra molhada. A seguir, deslizaram sobre mim e desceram pelo meu corpo. A curva do seu pescoço era quente, e simultaneamente fria no sitio onde o vento entrava. Com as mãos entre as minhas pernas, sussurrava como se estivesse a fazer-me uma pergunta ou a falar com alguém atrás de mim. Não percebi. A pele dele arrepiou-se ao ar frio, e eu colei-me à sua nuca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morde - disse ele repetidamente, num silvo, e começou a esfregar-me as calças com as mãos. - Magoa-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei entorpecido a olhar para a pele dele; à espera que o tempo passasse com os movimentos das suas mãos. Porém, ao fim de alguns instantes, ele parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim ou não? - pergunta de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abanei a cabeça e me preparava para lhe fazer uma festa na bochecha, ele largou-me. O seu rosto adquiriu o tom vermelho de uma nuvem a reflectir os raios de sol. E, por um momento, vi-o como mais ninguém o vira, com o desejo espresso no seu estranho rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, agarrou rapidamente na primeira coisa que apanhou à mão, o copo pousado no parapeito, e atirou-me com o vinho à cara. - Agora vê lá se contas como me viste, se é que ainda és capaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consegui perceber logo o que ele queria dizer. Só me apetecia ir-me embora pelo declive abaixo. Mas ele agarrou-me o braço. pediu-me que fosse visitá-lo no dia seguinte, se quisesse. O vento começou a resfrescar e a chuva, vinda da direcção do lago, batia-nos na cara. Só quando subi para o meu quarto na mansarda é que me ocorreu que não sabia o nome dele.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116185923471532277?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116185923471532277/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116185923471532277&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116185923471532277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116185923471532277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/minha-morte.html' title='A minha morte'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116134611555539524</id><published>2006-10-20T12:28:00.000+01:00</published><updated>2006-10-20T13:08:44.600+01:00</updated><title type='text'>Não se trata de ciúmes</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Boa noite, fala Isabel, uma amiga de Simão. Encontrámo-nos umas duas vezes quando você ainda morava na casa dele, mas quase não falámos, ou porque não calhou, ou porque não nos sentíamos à vontade. Hesitei muito antes de lhe telefonar. Espero não o incomodar. Está no seu direito de me dizer, oiça, o assunto não lhe diz respeito, ou até de desligar. Eu compreendo. Trata-se do seguinte: você foi morar para casa dele como namorado do filho, ou ex-namorado, não estou a perguntar e você não é obeigado a responder. Seja como for, ele deu-lhe abrigo, desenrrascou-o e até lhe encontrou ou ajudou a encontrar um apartamento. Não conheço os pormenores nem preciso conhecer. Ele é um homem generoso e eficiente na sua maneira discreta. Mas você, não sei se intencionalmente ou não, não lhe está a fazer nada bem. Digo está, pois mesmo agora que você foi viver para onde foi, ele ainda não tem sossego por sua causa, ou talvez não seja por sua causa, mas digamos, devido a si. Espere. Não me interrompa. Esta conversa não é o que se chama fácil para mim. Receio que não me entenda bem. Não quero fazer julgamentos e muito menos acusá-lo, antes pedir-lhe que pense um pouco no assunto. Você é um rapaz atraente e pertence a uma geração em que certas coisas se tornaram muito fáceis, talvez demasiado fáceis. Não estou a fazer um julgamento, apenas a expressar uma impressão que talvez não tenha qualquer fundamento. Sou mais velha do que você, se calhar mesmo mais velha que a sua mãe, e sou mulher, de forma que não se trata de ciúme ou competição. Você também - mas não, não vou entrar nisso, e peço-lhe que considere o que disse agora mesmo como não dito, pois mesmo negar o ciúme pode despertar a suspeita de ciúme. Vou tentar exprimir a coisa assim: ele está de luto pela mulher e para além do mais, você sabe bem, dói-lhe bastante que o filho tenha partido. E embora ele não seja um homem fraco, você decerto concordará comigo que não vale a pena aumentar-lhe a dor. Quando você morava na casa dele, ele só pensava em fugir e agora que você se foi embora, não consegue deixar de o procurar, porque você lhe prometeu ir visitá-lo e esqueceu-se de o fazer. Não, não se desculpe, está ocupado, claro que compreendo, um rapaz da sua idade e tudo o resto. Desculpe. Dê-me mais um minuto ou dois e já termino. O que eu queria dizer, ou pedir, é que não o deixe ficar pendurado. Ele não dorme à noite e tem um ar de quem vai adoecer. Só você pode desfazer o mal-entendido que criou. E além disso, talvez não tenha pensado, o que será quando o filho dele voltar? Como é que vai ser entre você e eles e entre eles os dois? Desculpe-me estas perguntas, sou funcionária pública há trinta e oito anos e se calhar pegou-se-me o tom burocrático. Não estou a pedir-lhe que corte relações ou que se afaste, mas - como dizê-lo - que estabeleça alguns limites. Se calhar não consegui explicar-me bem. Sinto necessidade de lhe dizer, olhe, Manuel, você está a despertar nele uma coisa que o entristece e deprime muito, talvez você não tenha dado por isso, mas se quiser desfazer o mal tem de colocar limites. Não. Mais uma vez não consegui dizer-lhe o que queria, e o que lhe disse talvez soe mesquinho. Tenho dificuldade em encontrar as palavras. Uma vez, há muito anos, João, o meu marido, e eu levámos Simão e Eduarda, a mulher, um sábado a passear no Gerêz. À luz do crepúsculo vimos um animal peludo a correr rapidamente por uma encosta abaixo e desaparecer por enter as árvores. Tentámos segui-lo mas ele já tinha desaparecido. O sol ia descendo e durante muito tempo foi como se todo o mundo vacilasse e fosse continuar a vacilar para sempre. Simão afirmou peremptoriamente que era um cão errante e Eduarda um lobo. Uma discussão inútil, pois olhe o que aconteceu desde então: há muito que João já não é deste mundo e Eduarda também não, e o cão errante ou o lobo morreu. Só Simão e eu estamos vivos. Segundo os meus cálculos você nem sequer tinha nascido naquela famosa noite que eu tenho recordado ao longo de todos estes anos, já sem dor mas com uma clareza que se tem vindo a tornar mais transparente à medida que o tempo passa. Lobo ou cão errante?  A mata escurecera e Simão e eu tinhamos encetado uma discussão com João e Eduarda, que não conduzia nem podia conduzier a nada, a criatura tinha-se desvanecido no escuro e à nossa volta o mundo estava deserto, silencioso e vacilante. Compreenda, contei-lhe isto não para o importunar mas para lhe pedir, ou antes, confiar as minhas próprias interrogações e partilhá-las consigo. Não é obrigado a responder. Isto fica naturalmente entre nós. Ou antes, entre você e você mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Foi graças a mim que aquilo lhe voltou&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela diz que não tem ciúmes. Uma ova! Que não está zangada. Está zangada e como. Toda aquela conversa de chacha, mas no final de contas, o que ela quer é tê-lo só para ela. Quer que eu desapareça da vista dele agora mesmo., que trace uma linha como ela diz, senão arranca-me os olhos. Que por minha causa não dorme. E então. Estar acordado é estar vivo. Sem mim, ele passaria os dias a dormitar no cadeirão ou sentado na varanda a olhar durante um mês, um Inverno, um ano, até o mar lhe subir à cabeça. E a ela também. Em vez de me moer o juizo, o que ela devia era agradecer-me: pois foi graças a mim que lhe voltou aquilo do cão errante do Gerêz ou o lobo vacilante ou lá o que era. Foi graças a mim que o que estava quase esquecido voltou a cintilar para ela e para ele. Dele gosto bastante. Mas dela, não. Não gosto mesmo nada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116134611555539524?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116134611555539524/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116134611555539524&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116134611555539524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116134611555539524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/no-se-trata-de-cimes.html' title='Não se trata de ciúmes'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116127430598611613</id><published>2006-10-19T16:56:00.000+01:00</published><updated>2006-10-19T17:11:46.006+01:00</updated><title type='text'>Fragmento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É o sorriso de Rado, flutuando à superficíe da memória, que traz a muito esperada, a muito desejada mudança. De uma vez só, desapareceu toda a auto-comiseração, todas as nuvens negras. Ele, o patrão, é agora o empregado de Rado, que é pago para que os seus desejos sejam satisfeitos. Antes da sua chegada, já anda pela oficina, fazendo o seu melhor para facilitar o trabalho ao moldavo. Até comprou um micro-ondas para que pudesse aquecer o almoço. Na mesa, há sempre flores frescas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A situação é absurda. O que pretende daquele homem? Quer que sorria, certamente; que sorria de novo para si. Quer ganhar um lugar no seu coração, ainda que diminuto. Será que também quer ser seu amante? Sim, quer, fervorosamente. Quer amar e cuidar daquele emigrante eslavo e dos seus filhos, Iosiip, Tibor e a menina, Marijana, a criança que ainda não pôs a vista em cima. E quanto há mulher de Rado? Não lhe quer mal, não lhe tem quaisquer intenções malignas. Deseja-lhe toda a felicidade e sorte do mundo. No entanto, sente que seria capaz de dar tudo para ser pai daquelas crianças bonitas e inteligentes, e companheiro de Rado; nem que fosse de um modo platónico, não se importa. Quer cuidar deles, de todos, protegê-los e salvá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salvá-los do quê? Ele não sabe responder, ainda não. Quer, acima de tudo, salvar Rado. Seria capaz de se interpor entre ele e o raio dos deuses ciumentos, oferecendo o peito nu ao fogo mortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como uma mulher que, nunca tendo engravidado e sendo já demasiado velha para conceber, clama, repentina e urgentemente, pela maternidade. Desesperada ao ponto de ser capaz de raptar uma criança. E, embora Rado seja já pai, vê-o ainda como uma criança.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116127430598611613?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116127430598611613/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116127430598611613&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116127430598611613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116127430598611613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/fragmento.html' title='Fragmento'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116117989141525208</id><published>2006-10-18T14:14:00.000+01:00</published><updated>2006-10-18T14:58:11.446+01:00</updated><title type='text'>House of Meetings</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/1600/house.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/200/house.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.amazon.co.uk/House-Meetings-Martin-Amis/dp/0224076094"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;House of meetings&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; é o novo romance de &lt;a href="http://www.martinamisweb.com/"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Martin Amis&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; (25 de Agosto de 1949), romancista inglês, filho de &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Kingsley_Amis"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Kingsley Amis&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, também escritor. Autor de romances como Os Outros (&lt;a href="http://www.livroscotovia.pt/"&gt;Edições Cotovia&lt;/a&gt;), Money e Cão Amarelo (Teorema)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Constituído por uma novela e dois contos, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;House of Meetings&lt;/span&gt; volta a oferecer ao leitor o melhor de Amis: a reflexão sobre a natureza da masculinidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A novela &lt;span style="font-style: italic;"&gt;House of Meetings&lt;/span&gt; é uma história de amor, gótica no tom e triangular na forma. Dois irmãos e uma rapariga judia envolvem-se durante um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;progrom&lt;/span&gt; que assolou Moscovo no ano de 1946. O conflito fraternal fica em banho-maria em Norlag, um campo de trabalhos forçados acima do Círculo Polar Ártico. O destino dos três amantes fica por resolver até à véspera da morte de Brejnev, em 1982; e para o único sobrevivente as ondas de choque do triângulo amoroso continuam a sentir-se já no novo século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhado por um "oragantango" saudita, Muhammad Atta desloca-se até Portland, Maine, EUA, no dia 10 de Setembro de 2001. Ninguém conhece a razão dessa viagem. Em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;The Last Days of Muhammad Atta&lt;/span&gt;, Martin Amis oferece uma explicação para a viagem de Atta e também para uma das lacunas do 11 de Setembro. Amis segue Atta desde que acorda no quarto de hotel de Portland até às 8:46:40.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;In The Palace of the End&lt;/span&gt;, o narrador é um dos duplos de Saddam Hussein ou, a hipótese fica em aberto, Uday Hussein, um dos filhos e herdeiro do ditador iraquiano. O duplo divide os dias entre torturas épicas e actos sexuais épicos com belezas escolhidas a dedo: tudo isto é filmado para o prazer do ditador. Tem também uma terceira obrigação: duplicar no seu corpo os ferimentos de Saddam Hussein após cada atentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aparentemente, estes temas podem não parecer familiares ao leitor de Martin Amis. Mas, na verdade, Amis está de volta a uma das suas principais preocupações: a natureza da masculinidade e a relação entre a sexualidade masculina e a violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis, pois, como começa &lt;span style="font-style: italic;"&gt;House of Meetings&lt;/span&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Dear Venus&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;If what they say is true, and my country is dying, then I think I may be able to tell them why. You see, kid, the conscience is a vital organ, and not an extra like tonsils or the adenoids.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116117989141525208?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116117989141525208/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116117989141525208&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116117989141525208'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116117989141525208'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/house-of-meetings.html' title='House of Meetings'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116109431318914897</id><published>2006-10-17T14:58:00.000+01:00</published><updated>2006-10-18T12:04:57.160+01:00</updated><title type='text'>Primeiro amor: reencontro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tozé, António José, é mais velho do que eu. Creio que muito mais velho. Tem, pelo menos, mais dois anos. Depois de tanto tempo, não esperava encontrá-lo na aldeia, a quarenta quilómetros de Portalegre, mas ali estava, languidamente sentado no poial dos Bogalho, entre dois vasos de sardinheiras e com a sombra da velha amoreira a morder-lhe os pés descalços.&lt;br /&gt;- Olá.&lt;br /&gt;- Olá.&lt;br /&gt;- Como vais?&lt;br /&gt;- Bem. E tu?&lt;br /&gt;- Bem. Muito bem. Caramba, óptimo!&lt;br /&gt;Na realidade, era muito mais velho que eu. Três anos, talvez.&lt;br /&gt;- Estás mais gordo.&lt;br /&gt;- Tu também estás mais gordo.&lt;br /&gt;Tinha uns calções caqui e o tronco nu. Era um tronco peludo. Os pêlos subiam pelos ombros e depois desciam pelas costas, formando um par de asas. Auréolas prateadas orlavam-lhe os mamilos.&lt;br /&gt;- Estiveste fora?&lt;br /&gt;- Estive.&lt;br /&gt;- Se calhar também vou.&lt;br /&gt;- Ah, sim?&lt;br /&gt;- Sim. Vou-me embora. Estou a pensar em emigrar. Mas para muito longe, sabes? Para a Austrália ou um lugar desses.&lt;br /&gt;- Seria fabuloso.&lt;br /&gt;- Sim, é quase certo ir para a Austrália. Um amigo meu tem lá um irmão. Tem um computador e fala com ele todas as noites.&lt;br /&gt;- Eu estive em Lisboa, sabes? Vivi com um homem e assim.&lt;br /&gt;- Ah, Lisboa, claro. Nunca saí daqui, sabes? Gostaria de emigrar. Para a Austrália, ou coisa assim.&lt;br /&gt;- Deve ser alucinante. Tão longe.&lt;br /&gt;- O meu amigo diz que se cavássemos um buraco a partir daqui que sairíamos na Austrália. Que tal, Lisboa?&lt;br /&gt;- Bem. Quer dizer, normal. Mal.&lt;br /&gt;- Sabes? Eu tenho uma filha.&lt;br /&gt;- Uma filha?&lt;br /&gt;- Sim. Queres vê-la?&lt;br /&gt;E convidou-me a entrar, sorrindo, como se lhe doesse sorrir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116109431318914897?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116109431318914897/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116109431318914897&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116109431318914897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116109431318914897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/primeiro-amor-reencontro.html' title='Primeiro amor: reencontro'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116102076366512632</id><published>2006-10-16T18:45:00.000+01:00</published><updated>2006-10-17T12:58:49.826+01:00</updated><title type='text'>Donald Barthelme</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/1600/barthelme.0.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/200/barthelme.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Barthelme"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Donald Barthelme&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, contista e romancista norte-americano, nasceu em Filadélfia em 1931, faleceu em 1989.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;David Gates&lt;/span&gt;, na introdução à edição da Penguin Classics da obra &lt;a href="http://www.amazon.com/Sixty-Stories-Donald-Barthelme/dp/0140153004"&gt;Sixty Stories&lt;/a&gt;, colectânea de contos, editada pela primeira vez em 1981, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Barthelme could probably have been happy among the High Modernists: marching shoulder-to-shoulder in the vanguard with Joyce and Woolf, Eliot and Pound, making it new. Kicking over the played-out paradigms, twisting linear narrative into a Möbius strip, making the haunt and main region of his song of consciousness of his consciousness of his consciousness, cutting up Baudelaire, Wagner, Jacobean drama, and contemporary pop songs and shoring the fragments against his ruins, building Homeric/Dantean epics out of blocks of text carved from Confucious and John Adams. From the &lt;/span&gt;Waste Land&lt;span style="font-style: italic;"&gt; to Duchamp's ready-mades - and on through &lt;/span&gt;Naked Lunch&lt;span style="font-style: italic;"&gt; and "The Adventures of Grandmaster Flash on the Wheels of Steel" - the twentieth century's characteristic artistic procedure was (pick your term) collage, appropriation, assemblage, bricolage, or sampling."&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Eis o parágrafo inaugural de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Me and  Miss Mandible"&lt;/span&gt;, conto que ocupa o terceiro lugar na colectânea &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sixty Stories&lt;/span&gt;, livro que ando agora a ler e que me afasta da escrita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.coldbacon.com/writing/barthelme-mandible.html"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Me and Miss Mandible&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;a href="http://www.coldbacon.com/writing/barthelme-mandible.html"&gt;13 September&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.coldbacon.com/writing/barthelme-mandible.html"&gt;Miss Mandible wants to make love to me but she hesitates because I am officially a child; I am, according to the records, according to the gradebook on her desk, according on the card index in the principal's office, eleven years old. There is a misconception here, one that I haven't quiete managed to get cleared up yet. I am in fact thirty-five, I've been in the Army, I am six feet one, I have hair in the appropriate places, my voice is a baritone, I know very well what to do with Miss Mandible if she ever makes her mind.&lt;/a&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116102076366512632?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116102076366512632/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116102076366512632&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116102076366512632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116102076366512632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/donald-barthelme.html' title='Donald Barthelme'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116100978559242954</id><published>2006-10-16T15:06:00.000+01:00</published><updated>2006-10-16T15:43:05.606+01:00</updated><title type='text'>Sobre Uma história simples</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;i.&lt;/span&gt;) Em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Uma história simples&lt;/span&gt;, cujo título definitivo é &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Dois estranhos entre estranhos&lt;/span&gt;, o tema é aparentemente banal, centrado numa relação amorosa. Trata-se da história de dois seres, Eduardo, um homem maduro, casado, pai de duas crianças, empregado numa repartição de finanças, e Henrique, um jovem universitário, homossexual, que se encontram, casualmente, no comboio do eixo norte-sul e que, a partir desse momento, se irão entregar a uma transgressora e devastadora relação carnal que termina tão inopinadamente como se iniciou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;ii.&lt;/span&gt;) É uma narrativa breve que trata, fundamentalmente, das restrições à liberdade individual, impostas pelas convenções socioculturais e pela estrutura da família burguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;iii.&lt;/span&gt;) O narrador centra-se na problemática relação de Eduardo e de Henrique, escapeliza os seus pensamentos, os seus sentimentos, as suas reacções e os seus "fantasmas". Apesar do intenso desejo de transformação da realidade quotidiana, rotineira, banal e medíocre, que por vezes experimentam, as personagens são-nos apresentadas como vítimas do ambiente que as rodeia, incapazes de verdadeiramente se libertarem da pressão das forças sociais e das convenções que, em última instância, as acabam por dominar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;iv.)&lt;/span&gt;. Com o tempo, a intimidade que Eduardo e Henrique desenvolvem acaba por construir um "espaço privado", só para eles, que irá excluir, momentaneamente, todos os outros. Durante alguns meses Eduardo irá então descobrir e viver intensamente uma paixão (contraponto a um casamento sem amor, sedimentado no hábito e na rotina), que não é isenta, no seu espírito, de uma certa culpabilidade. E são os desejos reprimidos por uma educação burguesa e pela submissão a uma moral convencional que agora se libertam, no seu irresistível desejo de frequentar locais gays na companhia de Henrique e de se lhe entregar num minúsculo quarto onde os dois se encontram, com frequência, ao princípio da noite, para aí unirem os seus corpos sedentos de prazer. No entanto, o trabalho de Eduardo, contabilista numa repartição de finanças (a contabilidade como metáfora da racionalização da vida, de um quotidiano ordenado, previsivelmente calculado), irá fornecer-lhe uma lógica que acaba por interferir na relação dos dois amantes, quando, numa noite, para celebrar o aniversário de dois meses de relação, Eduardo oferece uma flor ao seu jovem amante, no dia em que precisamente ele e os seus colegas, no escritório, tinham concluído o balanço do mês. É este seu desejo de ordenar/dominar o tempo e as emoções que irá marcar uma clara linha divisória na narrativa. É a partir desse momento que a circunstância da previsível partida do jovem para a Alemanha, para aí prosseguir os seus estudos, e o inevitável regresso de Eduardo ao seio do conforto e da segurança familiares, após a marcante experiência de uma conturbada viagem de comboio, de volta ao lar, o fazem tomar consciência, de um modo resignado mas determinante, do sentido dos seus deveres para com o seu trabalho, para com a mulher e filhas. Depois da tempestade, a bonança: regresso à calma, à plácida e monótona vida de burguês, a aceitação resignada de um destino ao qual sabe que não poderá fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;v) Propõe-se, nesta narrativa breve, uma reflexão sobre a lógica que comanda as dúvidas, as incertezas, as inquietações e indecisões do indivíduo, perdido no caótico cenário de Lisboa e seus arredores. Cenário que, afinal, poderia ser o de uma outra qualquer cidade, testemunha  de um perturbado tempo que vivemos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116100978559242954?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116100978559242954/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116100978559242954&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116100978559242954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116100978559242954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/sobre-uma-histria-simples.html' title='Sobre Uma história simples'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116099816489680467</id><published>2006-10-16T12:15:00.000+01:00</published><updated>2006-10-16T13:34:13.460+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples XVI</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia seguinte ficou em casa, com o pretexto de que estava a chocar uma constipação. Era uma das raras ocasiões da sua vida profissional em que faltava ao escritório. O director telefonou de manhã, parecia preocupado. Com uma voz calma, ele garantiu que regressaria ao escritório, como sempre, no dia seguinte. Sentiu um prazer secreto pelo facto de a sua ausência ter sido tão notada. Bom, era um feito, mesmo que pequeno. Deixou que a mulher e as crianças o apaparicassem. Respondeu às suas perguntas ansiosas com as mesmas frases convencionais, não, não era nada de grave, apenas uma ligeira constipação, amanhã estaria óptimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou um dia calmo, vazio, em casa. Não tratou de nada em casa, ficou na cama a olhar preguiçosamente para os cabeçalhos dos jornais, descobrindo que havia coisas que haviam acontecido e ele não sabia nem se tinha preocupado nada em saber, durante anos, pareceu-lhe. Qual era a siatuação em Portugal e no mundo? Conferências, negociações, greves, manifestações, fome, inundações. Estava a leste de tudo o que explicava a razão pela qual as notícias que lia nem sempre faziam sentido. Mas estava confiante de que no dia seguinte seria capaz de seguir os assuntos do quotidiano, como retomar o fio à meada depois de perder alguns episódios à telenovela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, como sempre, correram os cortinados. Ele achou que elas estavam a exagerar nos cuidados, mas deixou-se ir, sem resistência, na contínua corrente das actividades domésticas. Tudo parecia perfeitamente regulado, predeterminado, como se uma mão invisível tivesse programado tudo. Era como se aqui existisse Deus, um Deus aborrecido, talvez, mas existia. A televisão estava acesa num canto da sala de estar, as crianças viam televisão, sentadas em almofadas no chão, de pernas cruzadas. A luz tremulante do ecrã tocava os seus rostos, clareava os seus cabelos; uma das raparigas tinha cabelo loiro, a outra castanho-escuro. Aqui e ali, os cabelos delas ondeavam, minúsculos caracóis despontavam como diabretes atrevidos. A mulher, reclinada no sofá, bebia um uisque e lia o jornal. Naquela noite Eduardo tomou um comprimido para dormir e dormiu profundamente até de manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte estava de volta ao escritório. Houve simpáticos interrogatórios sobre o seu estado de saúde. Em seguida, as fichas e os cartões do costume, ficheiros, arquivos. Ontem tinha havido telefonemas para ele? Sim, alguém tinha telefonado, uma voz conhecida, a pessoa que lhe telefonava com frequência... Lançou-se ao trabalho sem demoras. Um dia de ausência era suficiente para perturbar o ritmo normal dos afazeres. Mas a sua longa experiência no escritório dava-lhe total confiança e sabia que podia fazer face à situação. Às vezes não podia deixar de pensar no fundo de determinação que havia nele, como um minério precioso. E quando o telefone tocou - havia desligado o telemóvel depois da discusão com Henrique -, deu instruções para que voltassem a telefonar no dia seguinte. Hoje tinha que tratar de "assuntos urgentes". E o dia foi passando e na tarde seguinte preferiu apanhar o autocarro, em vez do comboio. Na terceira tarde apanhou o comboio outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ter tentado chegar mais tarde nessa noite, o hábito levou-o à estação ao bater das oito. No compartimento do maquinista estava sentado um velho de chapéu ao lado e óculos descaídos na ponta do naríz. Parecia esperto e experiente, como alguém que já tinha vivido muito. A Eduardo pareceu-lhe que ele se tinha voltado e lhe tinha piscado o olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao abrirem-se as portas da primeira carruagem, viu o Henrique sentado à janela, de costas voltadas para o maquinista, como sempre. O cabelo, forte e desalinhado, caía-lhe sobre os olhos, como habitualmente. Com a sua camisola e calças de botões de metal, de pasta debaixo do braço, parecia um jovem vulgar, um rapaz entre centenas de rapazes que regresam a casa depois das aulas. Assim que o viu, Henrique levantou-se acenou-lhe. Levantou a pasta, os olhos dele brilharam. O brilho típico dos olhos dos jovens, pensou Eduardo. O rapaz continuava a sorrir-lhe mas tudo o que Eduardo fez foi acenar-lhe brevemente com a cabeça. Como quando se tinham encontrado pela primeira vez, no comboio, dois estranhos entre estranhos. Depois esperou calma e firmemente que as portas se fechassem. Viu o comboio partir, as carruagens a passar, uma a uma, desaparecendo no escuro. Conseguiu ainda ver a mão do jovem, com a pasta no ar. Como uma mão numa fotografia, suspensa, gelada. Tudo isto durou uma fracção de segundo. Como num sonho, tinha visto o comboio partir. Em seguida, tirou o jornal da pasta e sentou-se a lê-lo, num banco, até o próximo comboio chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, já no comboio, continuou a leitura. Não lia linha a linha mas escolhendo frases ao acaso, aqui e ali, incapaz de se concentrar. Uma e outra vez, pensou que tinha ouvido alguém chamar por ele e ao levantar os olhos encontrou-se rodeado de estranhos, de pé e sentados, com um olhar parado. Mergulhou e novo o rosto no jornal. Na estação de Coina, onde Henrique saía, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Ficou imóvel, por um momento a olhar pela janela. Como o comboio lhe parecia lento esta noite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez devesse mudar de transporte por uns tempos. Talvez apanhasse o autocarro ou um táxi, se necessário. Era algo que tinha que decidir, pensou, já amanhã. Mas valeria a pena dar-se a tanto trabalho, mudar os seus hábitos, pensou. E porque razão? Sempre tinha sido um homem firme nas suas decisões. E tinha a persistente impressão de que o comboio, esta noite, parava a cada estação sem uma razão particular e que as pessoas que entravam também elas viajavam sem uma razão particular, como se tudo acontecesse mecanicamente, sem motivo. Talvez devesse ter ficado em casa mais alguns dias, pensou. Precisava mesmo de descansar. Se pensarmos bem, depois de todos estes dias de intenso trabalho no escritório, tinha todo o direito de exigir alguma consideração e de esperar que fosse tratado como um ser humano. Para além disso, sentiu que não devia negligenciar a mulher, como tinha feito ultimamente. E pensou em dedicar mais tempo às suas filhas também. Só Deus sabia que espécie de problemas podiam ter, nos tempos que correm! E se a sua filha mais velha estivesse a ser desviada por algum jovem de rastas, piercings e tatuagens por todo o lado? Tremeu só de pensar nisso. Mas que lento estava o comboio esta noite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentir-se-ia Henrique tão vazio e entediado como ele? Tinha provavelmente encontrado outro homem maduro. Decerto que visitavam o pequeno quarto das águas furtadas com a cama de corpo e meio e o candeeiro cor de carne. Talvez encontrassem a gardénia ainda em cima da mesa de cabeceira. É claro que já teria murchado... A viagem para casa parecia-lhe interminável. Uma longa e árdua Odisseia. Seria sempre assim, todas as noites, a partir de agora?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Nota para o leitor&lt;/span&gt;: Imprimir esta narrativa curta, suprimir os capítulos, mudar o título para &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Dois estranhos entre estranhos&lt;/span&gt; e relê-la em um único fôlego.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116099816489680467?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116099816489680467/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116099816489680467&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116099816489680467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116099816489680467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-xvi.html' title='Uma história simples XVI'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116091423868329134</id><published>2006-10-15T11:59:00.000+01:00</published><updated>2006-10-15T13:23:01.903+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples XV</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nessa terça-feira, à tardinha, Eduardo saiu do escritório com um mau pressentimento. Um desconforto difuso, quase físico incomodava-o, como se a etiqueta da camisa estivesse a morder-lhe a pele ou usasse umas cuecas demasiado apertadas. Março estava no fim. Pelas janelas da repartição de finanças infiltrava-se uma Primavera com odores doces e pungentes. Debruçado sobre os seus papéis, sentiu uma opressão no peito que o fez endireitar as costas instintivamente e respirar fundo. O relógio parecia-lhe incrivelmente lento, reparava em cada segundo que teimava em não passar. Os seus colegas estavam ocupados com mexericos, via-os colados às secretárias, a segredarem lado a lado. E o director, um homem calvo, de cabeça brilhante e voz forte, porque é que ele tinha que escolher logo esta tarde para o sobrecarregar com trabalho? Não havia nada de urgente, poderia ter esperado para outra ocasião!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro comboio a chegar à estação vinha apinhado. Eduardo deu uma olhadela a cada janela e, depois, consultou o relógio. Ainda era cedo. De certeza que encontraria Henrique no próximo comboio, sentado no lugar do costume, à janela. Ele e Henrique estavam tão absorvidos um no outro que se portavam como se fossem donos do comboio! Mas o comboio seguinte estava tão cheio como o anterior, os passageiros entalados como sardinhas. Não havia sinal do jovem. Ou talvez... começou a suspeitar de que não tinha visto bem, que o Henrique estaria provavelmente de pé, invisível, no interior de uma carruagem completamente apinhada. Mas nesse caso, não tinha ele olhos para o ver? No fundo, algo lhe podia ter acontecido, era um ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comboio já tinha passado a estação de Campolide quando teve uma ideia. E se saísse no Pragal? Talvez o encontrasse à sua espera, no cais, para voltarem juntos a Lisboa. Ou até podia dar um pulo ao pequeno quarto. Talvez estivesse lá. Deu voltas emais voltas a estas ideias. Ainda tinha tempo para se decidir. Faltava a travessia da ponte antes do Pragal. A verdade é que nunca até agora tinha sonhado em ir sozinho bater-lhe à porta do quarto, nunca tinha havido necessidade disso. E se o encontrasse lá, com outro homem mais velho do que ele, mais próximo da sua idade? pensou, horrorizado. Bom, tudo bem, tentou convencer-se a si mesmo, seria uma oportunidade de enfrentar o seu rival, fosse quem fosse, novo ou velho. As coisas já tinham atingido o ponto de não-retorno. A ideia de ir para casa, para Pinhal Novo, sem o ver, mesmo por pouco tempo, sem ouvir a sua voz, era impensável. Sentiu-se como se lhe tivessem dado uma droga potente, como a um cavalo de corrida ou aum jogador de futebol. E a sensação de opressão no peito não passava. As maçãs do rosto ardiam-lhe. Tocava mecanicamente na gravata para se certificar de que não estava desalinhada. Parecia-lhe que toda agente estava a olhar para ele, que se tinha tornado no centro das atenções. Sentia todo o seu corpo em brasa, como se tivesse quarenta de febre. Não me importo, disse para si mesmo, o que for soará. Estava farto de ter cuidado, cansado de medir a sua vida a conta-gotas. De repente, as luzes no interior do comboio começaram a piscar; permaneceram acesas durante uns poucos minutos, depois apagaram-se, desta vez, de todo. O comboio, lentamente, acabou por se imobilizar no meio da ponte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduardo viu-se rodeado por uma massa humana que protestava, que exigia uma explicação. As mulheres gritavam mais alto do que os homens, as crianças choramingavam, vozes rudes diziam palavrões. Ninguém sabia o que tinha acontecido exactamente. Através do corredor, podia ver um homem de uniforme que caminhava na sua direcção, transportava uma lanterna e tentava acalmar as pessoas. Não é nada de grave, dizia, não entrem em pânico, é apenas um corte de energia. A pouco e pouco a confusão na carruagem dissipara-se. Tudo o que se podia ouvir agora era um leve zumbido como um monstro cansado de rugir que, por fim, se aninha. Murmúrios passavam pelos ouvidos de Eduardo. Respiração pesada por toda a parte, um ar infectado, partículas venenosas, secreções, feridas ulceradas. No seu espírito, como num oásis, passou a sobra de Henrique. Viu-o orgulhoso, de passo elástico, como uma gazela. Onde estava o jovem? Porque é que tinha escolhido logo esta noite, de todas as noites, para não aparecer? Ou terá sido algo de premeditado, parte de um maior desígnio? E, nesse caso, quem tinha premeditado tudo isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento começou a acusar-se a si mesmo. O que significava, afinal, este rapaz para ele? Já não tinha preocupações que chegassem, tinha ainda que carregar esta cruz também? E aquela ridícula ideia que tinha tido de sair no Pragal e de passar pelo quarto - lugar horrível, detestável! - tudo lhe parecia agora sem sentido. Um homem diferente, armado com os seus princípios, acordou dentro dele, pronto para o condenar. E se isto fosse a hora do Juízo Final, pensou, a hora em que os céus se abrem para revelarem arcanjos brandindo as suas longas espadas? Se esta fosse a hora, então teria que responder por ele, mas a quem? Ao poder que o conservava com vida, que o compelia a defender-se e a tentar lutar por um pouco de ar, no meio desta multidão anónima? E era nisto que ele encontrava coragem para continuar a lutar? Sim, pensou, em alturas de aflição todos nos viramos para Deus. Ele não era, no entanto, um religioso praticante. Só ia à igreja na Páscoa, no Natal, em ocasiões especiais e, mesmo assim, por causa das suas filhas, para lhes instigar uma fé que ele tinha permitido que se estiolasse em si mesma, com o passar dos anos. Então que direito tinha ele de pedir ajuda? Onde podia esperar encontrar um refúgio? Desejou poder ficar imóvel entre longos lençóis brancos, as mãos unidas sobre o peito, pronto para receber a hóstia e limpar os lábios ao pano oferecido pelo padre. Ansiava por ouvir uma voz paternal removendo por completo todas as outras vozes, murmurando palavras que o conduzissem a um sentimento de plenitude, de uma vida, finalmente, realizada. Ansiava por sentir  a voz íntegra libertando-o da condenação auma vida de trabalho durante todos estes anos e devolvendo-o ao mundo radiante, sem mácula, que tinha conhecido em criança. Mas era incapaz de pensar numa presença tão benevolente na sua vida. Não havia nada a não ser lúgubres sombras, os seus colegas de trabalho maliciosamente trocando segredinhos, o director dando-lhe ordens, a sua mulher falando-lhe exactamente no mesmo tom severo que usava quando dava instruções aos empregados, ao telefone. parecia-lhe que estas vozes - as únicas que conhecia - eram emitidas por inúmeros telefones; telefones monopolizados por mulheres incessantemente conversando com os amantes ou queixando-se dos filhos. Então e a voz de Henrique, pensou ele? Apenas mais uma voz juvenil, entre tantas, um pouco rouca devido ao excesso de tabaco, uma voz que soava inocente devido à sua juventude mas ligeiramente cínica, uma voz vulgar, no fim de contas. De quem era aculpa? o que tinha falhado? O seu velho padrão de ordem tinha-se perdido, a sua ligação com o mundo seriamente desfeita. Agora, dia e noite sucediam-se num fluxo contínuo que não lhe dava tréguas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os passageiros na carruagem - desconhecidos, gente vulgar de regresso acasa depois de um dia de trabalho - conversavam agora uns com os outros, como se se conhecessem há anos, como se pudessem resolver juntos este problema, enfrentar um perigo inexplicável que todos pareciam adivinhar. Cada um deles oferecia um comentário, dava ou recebia nova confiança. Eduardo pensou nesta estranha multidão. Era como se visse a sua própria imagem multiplicada por mil, uma imagem de humanidade convocando todos os seus recursos num esforço de sobrevivência, esforçando-se por se comportar racionalmente. Dos seus olhos brotaram lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De algum modo sentiu-se aliviado pelo facto de Henrique  não estar no comboio e ter sido poupado a uma experiência como esta, mesmo que fosse apenas por esta noite. Sentiu uma profunda compaixão por todas as jovens criaturas inexperientes, obrigadas ao confronto com a vida, a verem os seus sonhos desfazerem-se, o futuro vazio e cinzento. Sentiu-se grato pelo facto de as filhas e da mulher estarem na sua casa de dois pisos, em Pinhal Novo, correndo os cortinados contra a escuridão, ocupadas com uma variedade de pequenos trabalhos caseiros, na cozinha, na sala de jantar, nos quartos, arrumando objectos, preparando-se para se instalarem confortavelmente num serão no lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O doce conforto dos serões de Inverno numa casa abrigada! Eduardo olhou para os seus companheiros de viagem e pensou se também eles teriam casas bonitas, bem cuidadas, à sua espera. E supondo que não, seria que mesmo assim ainda ansiavam para ir para casa - mesmo que casa sgnificasse não mais do que uma barraca, um quarto alugado - de volta ao sítio que era o objectivo deles, e seu destino, o lugar pelo qual faziam este percurso diário de comboio? Uma prece brotou dos lábios de Eduardo como uma canção, que toda esta gente possa ir para casa hoje à noite, para os seus amados ou mesmo para os seus não-amados, que possa repetir os mesmos gestos, a mesma rotina, as compras de última hora na mercearia, encontrar alguém no café, apressando-se para ligar a televisão no seu programa favorito. Esta noite deixa-os fazer  as coisas que sempre fizeram, rezou, não importa se não as fazem bem ou alterem algum detalhe menor desde que as possam fazer. Chorava agora em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As luzes acenderam-se e, por fim, o comboio pôs-se em marcha, como uma criatura ferida. A estação do Pragal estava cheia de passageiros à espera. O seu plano de sair aqui, parecia-lhe agora totalmente louca. Eduardo estremeceu, era como se essa ideia pertencesse a outra pessoa. As portas abriram-se e e fecharam-se e Eduardo permaneceu sentado. Observou os passageiros em seu redor. As pessoas que tinham estado em pânico aquando do corte de energia pareciam agora calmas. Como um grupo de paranóicos que tivessem recuperado a lucidez por um breve instante. Pelo contrário, as pessoas que tinham acabado de entrar pareciam deslocadas, incongruentemente saudáveis; todos executavam os gestos rotineiros dos passageiros, prontos para seguir viagem. Eduardo sorriu amargamente para si mesmo. Sacou de um lenço de papel e limpou o suor da testa e do pescoço, as lágrimas, compôs o cabelo, apertou a gravata. Quando chegasse a casa, esta noite, tinha que ter um aspecto perfeito. Como na maior parte das outras noites. Só que hoje ele sentia-se diferente. Não, não se tratava de esconder a sua febril exaltação ao beijar as filhas na testa, apressadamente, e ao perguntar à mulher se ela tinha fome ou se estava pronta para se ir deitar. Esta noite uma serenidade gelada tinha-se instalado no seu coração.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116091423868329134?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116091423868329134/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116091423868329134&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116091423868329134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116091423868329134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-xv.html' title='Uma história simples XV'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116074358260371181</id><published>2006-10-13T12:46:00.000+01:00</published><updated>2006-10-14T12:22:29.313+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples XIV</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passaram alguns dias. A repartição de finanças estava apinhada de gente. Uns tentavam aceder à "autoridade competente", outros, de pé, formavam bicha em frente da secretária do chefe de contabilidade ou do caixa. Nervosos, suados, como se todas as desgraças lhes tivessem caído em cima. Reclinado sobre os seus papéis, Eduardo nem levantava a cabeça. Todas estas pessoas pareciam-lhe uma nuvem de moscas importunas que lhe escondiam o sol. Ansiava por se ver livre delas, para poder voltar para os seus pensamentos íntimos, os pensamentos que o atormentavam secretamente. Não que fosse do género de permitir que os seus pensamentos pessoais interferissem com o trabalho. Irritava-o o hábito que os seus colegas tinham de discutir os seus casos amorosos, a família, os carros, durante as horas de expediente. Quanto a si, no máximo, um telefonema da mulher, a avisá-lo de uma reunião na escola das filhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas desde que tinha conhecido o Henrique, estava sempre alerta para o som do telefone e do telemóvel, sempre à espera de ouvir uma voz jovem do outro lado do fio. Afligia-se. No seu espírito surgia a escada que conduzia às águas-furtadas, no ouvido o ruído do caruncho nas tábuas. Ao folhear os livros de contas tinha medo que o riso duro e irónico de Henrique se pudesse, de repente, escapar das páginas. Parecia-lhe que, em vez da voz da sua colega na secretária ao lado, ouvia as vozes estridentes dos jovens à porta dos bares do Bairro Alto. E também se preocupava com a sua roupa - estaria convenientemente vestido para o encontro da noite? Que espécie de comentário faria Henrique, desta vez? O seu peso - o ganhar ou perder um quilo ou dois - tornou-se outra causa de preocupação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No escritório convenceu-se, gradualmente, que as pessoas que o rodeavam, clientes ou empregados, eram criaturas grosseiras que tornavam a sua vida desnecessariamente difícil. Se não fosse a sua educação, gentileza e posição de respeito, decerto que ele já teria explodido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No comboio tinha coimeçado a ver adversários por todo o lado. O seu primeiro pensamento ao entrar no comboio era o de descobrir quem ia sentado ao lado de Henrique. Se fosse um jovem, examinava-o com um ar preocupado e se fosse um homem maduro, olhava-o desconfiado. Só recuperava a sua paz de espiríto se encontrasse mulheres, velhos ou deficientes sentados ao lado do rapaz. Parecia-lhe que todas as pessoas cheiravam mal, que eram rudes e feias. Só tinha olhos para o jovem. Inspeccionava a sua roupa, o seu cabelo, certificava-se de que ele trazia a pasta, sinal de que regressava da escola de línguas. Queria saber se ele tinha saído da escola à hora habitual, se tinha falado com a sua amiga arquitecta, na aula.  Aquela rapariga tinha-se tornado agora numa figura tranquilizadora, numa espécie de salvaguarda. A ansiedade de Eduardo deslocou-se para outros colegas de escola de Henrique. Interrogava-o sem cessar tentando descobrir alguma prova de culpa naquilo que ele lhe contava deles. Era-lhe cada vez mais dificíl dominar os seus sentimentos. Por vezes, tornava-se abertamente importuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduardo pegou-lhe no braço, apertou-o com ambas as mãos, mãos que tremiam, de veias protuberantes, o dedo em que usava a aliança parecia querer desligar-se dos outros dedos, se fosse possível, e desaparecer da vista. Não ligues, disse-lhe ele, estou cansado, os números entonteceram-me. Em momentos como esses, todo o seu desespero, a sua incapacidade de se dominar, eram visíveis aos seus olhos, despertando no jovem uma irresistível vontade de intriga. Começou a descrever-lhe uma cena de rua, um homem que o tinha abordado. Isso é verdade? perguntou Eduardo. Claro que é verdade, disse o rapaz com um ar triunfante, provocando-o. Pensamentos loucos invadiram-lhe o espírito. Tentou mudar de assunto. Perguntou-lhe, como não quer a coisa, se ele tinha dinheiro suficiente. Mas em resposta à sua pergunta, o jovem riu-se insolentemente na cara dele. Se eu precisar de mais dinheiro alguma vez, disse-lhe, sei como o obter, não te preocupes. Não preciso de ti para isso. Outras vezes dirigia-se-lhe severamente: é isso que pensas de ti? e eu, que espécie de pessoa é que julgas que sou? Ele ouvia, envergonhado, e pedia-lhe perdão. Sempre que ele dizia que não se podiam encontrar no dia seguinte, por causa de um qualquer trabalho, uma onda de fúria irracional apossava-se de Eduardo. Como se não bastasse os fins de semana e feriados... Ele sentava-se no seu lugar, sem dizer palavra. E quando, uma noite, Henrique anunciou que tinha finalmente obtido a bolsa, Eduardo ficou despedaçado, como se o mundo se tivesse desmoronado à sua volta. Mas é verdade? Quer dizer que vais partir, em breve, para  a Alemanha? Já pensaste no clima, disse, sabes bem que não te dás com o frio, constipas-te tão facilmente. E as tuas lições de alemão, fizeste alguns progressos? Não me parece... Ele garantiu-lhe que ainda tinham muito tempo para estarem juntos, não partiria senão daqui a várias semanas. Tomou-o nos seus braços enquanto ele reprimia um suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, de noite, esforçava-se por se interessar pela família. Hábitos adquiridos há anos impeliam-no na rotina de pôr a mesa, de se informar sobre as aulas das filhas, de falar de assuntos do dia-a-dia com a mulher. Sentia-se como se uma marioneta tivesse tomado o seu lugar. E se um ar interrogador aparecia nos olhos da sua filha mais nova, uma expressão de confusão devido ao comportamento estranho do pai, Eduardo abraçava-a logo, tranquilizando-a com beijos. Os seus únicos momentos de trégua neste contínuo estado de tensão nervosa eram as noites em que o Henrique não aparecia e ele ficava sozinho no comboio, gradualmente recuperando o discernimento. Via-se a si mesmo como uma vítima da auto-ilusão, tinha-se deixado levar pela sua imaginação, no seu espírito tinha construído uma pura imagem ficcional do jovem. Solenemente resolveu controlar-se. Durante estes sóbrios intervalos relaxava e observava a paisagem familiar que deslizava através da janela.; reparava em casas que nunca tinha notado, árvores em redor de largos desconhecidos. E pensou que o seu estado de espírito podia ser compradao com uam tardia doença infantil, como o sarampo. Devo ter estado louco, pensou, sorrindo para si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses momentos o céu readquirira a sua cor natural, azul-escuro tingido pelo brilho amarelado das luzes da cidade; e quando saiu do comboio e a sua casa surgiu no fim da rua, achou que o seu lar era um bastião em que tudo e todos permaneciam inalteráveis, com o passar dos anos, á sua espera. Era este o seu mundo. O seu círculo familiar, fechado e seguro.  Havia mesma momentos em que ele passava o serão a ocupar-se com ninharias junto da mulher e das filhas e, por fim, ia para a cama num estado de espírito calmo. Até parecia possível que esta paz se prolongasse pelo dia seguinte, não fosse a noite surgir de novo, infiltrando-se através da janela do escritório, arrastando as sombras nocturnas, despertando todas as velhas incertezas, a dor no coração. O tempo transformava-se de novo num largo rio que ele tinha que atravessar antes que pudesse, por fim, sair em direcção á estação dos caminhos de ferro, às oito horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes tinha mais prazer em esperar pelo Henrique do que propriamente o encontrar no comboio. E a visão dele, reclinado de um modo descuidado no assento, com as suas calças familiares de botões de metal, excitava-o mais  do que as horas passadas na cama de corpo e meio, no quarto das águas furtadas. Deste modo, os intervalos entre os seus encontros estavam repletos de um contentamento muito mais intenso do que tudo o que ele sentia durante o tempo que passavam juntos. Expectativa e recordação, o futuro e o passado investidos pela mesma fascinante aura. Já não era capaz de desfrutar do presente. E a sua vida decorria assim, prisioneira deste ritmo quebrado e angustiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116074358260371181?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116074358260371181/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116074358260371181&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116074358260371181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116074358260371181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-xiv.html' title='Uma história simples XIV'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116067788489114690</id><published>2006-10-12T18:50:00.000+01:00</published><updated>2006-10-13T12:28:31.486+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples XIII</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passou Fevereiro, Março chegou. Uma tarde, ao entrar no comboio e ao sentar-se ao lado de Henrique, Eduardo tirou uma gardénia da sua pasta e ofereceu-a ao jovem. É do nosso jardim em Pinhal Novo, disse-lhe; esta noite, acrescentou sorrindo, temos aniversário. Henrique agarrou na flor e fê-la girar entre os dedos. Ou seja, quem tem aniversário? Inclinando-se na sua direcção, com voz baixa, Eduardo explicou-lhe que hoje, dia 3, tinham falado pela primeira vez; fazemos dois meses, percebeste, meu tonto? Henrique desatou a rir. Ria agarrando a flor e fê-la ondular em frente ao rosto. És incrível, Eduardo, disse-lhe por fim, numa me teria lembrado disso. Eduardo abanou a cabeça. Vês, disse-lhe, a juventude deixa passar o tempo como água, mas nós... e não completou a frase. Em seguida explicou-lhe que no dia em que se tinham conhecido, no escritório fechavam os registos do mês anterior. É sempre assim no dia 3 de cada mês, disse-lhe, hoje voltámos a fechar os registos de Fevereiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente Henrique deixou de rir. Silêncio! disse-lhe num tom áspero - nunca lhe tinha falado nesse tom - não sei nem quero saber o que fazem na repartição de finanças! Eduardo ficou estarrecido, ia protestar. Não, não digas nada, insistiu ele, o mesmo fazia o seu pai que era chefe de secção no banco, o balanço geral coincidia com o aniversário da mulher e tomava nota dos encontros com a amante no calendário dos clientes. E o meu irmão não lhe fica atrás, disse-lhe, para se lembrar de comprar alguma coisa para a mulher toma nota  nos contratos de engenharia hidroeléctrica. São todos iguais, obcecados pelo trabalho, para eles as pessoas não contam, são apenas outro &lt;span style="font-style: italic;"&gt;item&lt;/span&gt; como as turbinas ou os títulos de crédito. Toda a humanidade fichada em livros de contas de merceeiros!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduardo estava sem fala. Tinha estendido as mãos sobre a pasta e agarrava-a como para a proteger. De vez em quando, voltava-se para observar a seu lado outros passageiros. Quando o comboio parou no Pragal, foi o primeiro a levantar-se e a dirigir-se para a saída. Sem terem combinado, iriam regressar a Lisboa. Mudaram em silêncio de plataforma, Eduardo à frente de Henrique, desviando o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já em Lisboa. Andaram pelas ruas. E como se isto não bastasse, retomou Henrique, vens agora tu falar de fichas. Porque é que me falas deste modo? queixou-se Eduardo, alguma vez disse algo que te ferisse? A sua voz quebrada, o fato no corpo como se o tivessem pendurado num cabide. Eu sei, disse Henrique, vocês nunca dizem nada... Nós somos sempre os culpados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentaram-se num café. Em frente deles uma televisão acesa. A seu lado, grupos de amigos, casais jovens. Os dois podiam passar por parentes. Tio e sobrinho. Henrique deixou a gardénia em cima da mesa. Assim, sem copo, sem água. Pediram chá e beberam devagar, sem falarem, de olhos fixos no ecrã do televisor. Lentamente a exaltação dissipou-se. Henrique foi o primeiro a estender-lhe a mão e agarrou-o pelo pulso. Desculpa, segredou-lhe, desculpa, Eduardo... Eduardo sorriu. O seu rosto perdeu o tom acizentado e desabrochou. Não estou zangado contigo, disse-lhe, pelo contrário, tento compreender-te. Aliás, se não te compreendesse talvez não estivéssemos juntos agora. Não, estaríamos de qualquer modo, disse-lhe com vivacidade, não ligues ao que disse há pouco, não era nada contigo; tu, disse-lhe, desde o primeiro momento que entraste na carruagem e te sentaste na minha frente, disse para mim mesmo; não sei como mas irei tê-lo... Verdade? perguntou-lhe Eduardo, entornando um pouco de chá, nunca mo tinhas dito; e eu pensava que fosse eu o sedutor, disse timidamente, com um sorriso, fui eu que falei primeiro. É possível, disse Henrique, mas fui eu quem te deu a ideia; se não tivesse sido eu, nunca terias feito o mais pequeno gesto. De facto sou um homem pouco ousado para a minha idade, disse Eduardo. Mas só fora do escritório e longe de casa. Quando estou perto dos livros de contas e no meu jardim, sinto que domino o mundo todo. Eu sou sempre o mesmo, disse o jovem, em casa e fora de casa. Pertences a uma nova geração, disse-lhe Eduardo com voz baixa, é essa a razão; Podes imaginar-me, na minha idade, a tentar fazer amigos na rua? O que pensarias de mim? Penso que se o tivesses feito no tempo certo agora não terias necessidade de o fazer. Eu, acrescentou, gosto de andar por todo o lado, de encontrar companhia no comboio, no ginásio, na faculdade. Gosto de dançar com jovens da minha idade, de cantar, de falar de política. Então porque não fazes amor com rapazes da tua idade? perguntou-lhe. Tenho necessidade de algo que me ultrapasse, respondeu-lhe, que não me faça lembrar de mim mesmo; depois, todos esses rapazes só pensam em bens materiais, adormecem  e acordam a pensar nisso. Viste? ralhou-lhe, primeiro criticas-me, depois começas a acusar esses jovens; nunca estás satisfeito. És um rapaz estranho, disse-lhe, não sei se acreditas em algo realmente ou se apenas tentas convencer-te de que acreditas. Afinal, a única coisa que tens em mente é o sexo. Adormeces e acordas a pensar em sexo... Eduardo inclinou-se e acariciou-lhe o rosto. A sua barba, cuidado, tinha começado a endurecer. Por vezes fazes-me pensar se todos os jovens são assim, hoje em dia. Achas que as minhas filhas terão, depois de amanhã, as mesmas ideias? Tens medo? perguntou-lhe, comigo não tens medo? Só pensas em ti, disse Eduardo; mas independentemente do modo como as minhas filhas pensarão, de uma coisa estou certo, de que terão saído a mim e á minha mulher em muitos aspectos. Tu não herdaste nada dos teus pais? Henrique sorriu. Herdei a indiferença deles, é só nisso que somos parecidos. Não sei como és em outras ocasiões, disse Eduardo, mas quando estás comigo és uma pessoa calma e carinhosa. Posso abraçar-te e sentir-te. Por isso gosto de ti. É verdade, disse Eduardo, com um sorriso cansado, geralmente as pessoas que conhecemos fora de casa são pessoas amáveis, vivas, atraem-nos porque são desconhecidas. Pode ser, não sei, disse Henrique, no fim sempre me engano. Seria que as pessoas se enganavam assim ao longo da vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham acabado de beber o chá, mais alguns casais tinham chegado, outros saído, a televisão aceso, ao fundo. Não sabiam o que dizer mais, como se tivessem esgotado a conversa, sentindo-se também eles esgotados. Saíram para dar um passeio. Entraram no Bairro Alto, passaram as ruinas do convento, desceram a rua ingreme e sem se darem conta chegaram ao seu esconderijo. Eduardo hesitou, talvez fosse melhor adiar, disse. Mas eu quero, protestou Henrique e pegou-lhe na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiram as escadas, acenderam a luz, sentaram-se na cama de corpo e meio. Se esta noite fosse a última, disse Henrique, o que me dirias? Eduardo rodou a aliança no dedo. Com o passar dos anos, o anel e a carne tinham-se unido, tinham-se tornado num só. Que tivesses cuidado com as companhias, com que homens fazes amor, que não perdesses o juizo; por vezes tremo só de te imaginar crescido! Sempre com conselhos, riu-se o rapaz. Sempre, disse Eduardo, com um ar sério. Talvez queiras que nos separemos? perguntou-lhe Henrique, eu não quero nada disso! Eduardo tomou-lhe o rosto nas mãos e aproximou-o de si. Podia ver a sua figura triste reflectida nos olhos do rapaz. Não posso nem sequer imaginar isso, disse-lhe, se bem que, sei-o bem, no fundo te prejudique... Então eu também te prejudico, disse o jovem, beijando-o avidamente nos lábios, quero que fiquemos juntos, sempre juntos! Agora ria e com a cabeça inclinada para trás, deixava cair o cabelo sobre a almofada. Sou belo, diz-me que me achas belo, suplicou-lhe como uma criança. Muito, disse Eduardo, mais do que devias, cada vez que te vejo nem sei onde ponho os pés; perco-me; tudo em meu redor se dissipa... Que bonito! disse Henrique, gosto que me falem assim. Quando era pequeno punha a minha avó a contar histórias e fechava os olhos. Via pradarias com cavaleiros em cima de cavalos, as nuvens, no céu, a transformarem-se em estandartes e eu partia com o vento, assobiando, grtitando palavras por mim inventadas... Oh, Eduardo, fala comigo, não pares, diz-me mais coisas bonitas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram imóveis na cama, de olhos fechados, a luz apagada. Como se o mais pequeno movimento, o mais pálido reflexo de luz, pudessem quebrar o feitiço. Podiam ouvir a respiração um do outro, sintonizada, em uníssono, os movimentos dos lábios, a pulsação, a do jovem mais rápida do que a do homem. Um relógio deu horas no silêncio do quarto, como se quisesse acelerar as coisas ou suspendê-las para sempre, no mesmo sítio. Por fim, quando acenderam aluz, sentiram-se como se tivessem acabado de chegar de um longo passeio através de planícies e de encostas de escarpadas montanhas, os pés ainda encharcados de nevoeiro e geada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestiram-se, parando de vez em quando para escovarem o cabelo um do outro, Henrique apertando a gravata de Eduardo, o homem ajustando o cinto do rapaz. Gostaria que esta noite nunca acabasse, disse Henrique, que passeássemos até ao amanhanecer. Eu também, disse Eduardo, gostaria, se fosse possível, de não ir amanhã ao escritório, que estranho, nunca tinha desejado isto! E eu também, quem me dera não ter que ir à faculdade, disse Henrique, que necessidade temos de tudo isso, porquê preocuparmo-nos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminharam na rua da Escola Politécnica que estava movimentada àquela hora; carros subiam em direcção ao Bairro alto. Caminharam sem parar até que sentiram fraquejar as pernas, de fadiga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, por fim, entraram num táxi, sentaram-se bem juntos e permaneceram em silêncio durante todo o percurso. Ao sair, Henrique virou-se para Eduardo e disse: "já pensaste, Eduardo, aquele bendito comboio..." Eduardo virou-se para ele, espantado, como se tivesse acabado de acordar. Se não tivesse sido o comboio, riu-se, não nos tínhamos conhecido, já pensaste nisso, Eduardo? Meu Deus, exclamou, sabes o que me aconteceu? Esqueci-me da tua gardénia na mesa de cabeceira! Não faz mal, disse Eduardo, passando-lhe a mão pelo braço, trago-te outra amanhã.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116067788489114690?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116067788489114690/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116067788489114690&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116067788489114690'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116067788489114690'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-xiii_12.html' title='Uma história simples XIII'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116067340192227306</id><published>2006-10-12T17:59:00.000+01:00</published><updated>2006-10-12T18:44:31.930+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples XII</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais tarde, com algumas leves chuvas ocasionais, o Inverno desvaneceu-se. Sopraram ventos húmidos do Sul que provocaram dores de cabeça, uma pressão nas têmporas, uma espécie de náusea. Pontualmente, às oito da noite, Eduardo entrava no comboio para encontrar o seu rapaz na mesma carruagem, no mesmo lugar de sempre. Havia noites em que o comboio os deixava a cada um no seu destino e outras que os unia no Bairro Alto. Nem sequer pensaram em voltar ao restaurante. Na maioria das vezes sentavam-se em cafés, nas imediações do Bairro Alto ou do Princípe Real, a beber chá ou uma cerveja, olhando de vez em quando para a televisão. Então, como que impelidos por um vento irrequieto, rapidamente escapavam para o quarto das águas-furtadas com o candeeiro cor de carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficavam lá horas e horas confiantemente agarrados um ao outro, sem pensarem na roupa amarrotada, no cabelo desalinhado. Fumavam muito, conversavam ou ficavam em silêncio, faziam amor ou trocavam beijos apenas. Eduardo adorava o corpo juvenil de Henrique, tomava-o nos braços e embalava-o como a um bebé, enquanto o rapaz acariciava, com especial ternura, alguma prega na carne dele, beijando com paixão as rugas, quase com reverência. Quando ocasionalmente ouviam vozes na rua ou quando a velha escada rangia, Eduardo agarrava a mão do Henrique e agarrava-a com força. Não é nada, dizia-lhe o rapaz, algum homem lá fora, à minha procura! Eduardo nunca percebia se ele estava a brincar ou a falar a sério mas sabia que ele pretendia dizer-lhe alguma coisa. Então inclinava-se para as suas mãos, mãos nuas cujo único ornamento era a aliança de casamento, onde tinha crescido calos por causa das contas, que pareciam estranhamente frágeis, como se feitas de porcelana. Tinha emagrecido, o seu corpo estava delgado, quase gasto; as cuecas largas nas ancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não comes, ralhou-lhe Henrique, à noite não jantas, no escritório dizes que bebes café atrás de café e quando estamos juntos não páras de fumar. Eduardo sorriu. De novo aquela ruga entre as sobrancelhas... Sim, tinha razão o rapaz, "o seu rapaz", disse-o com uma nota de orgulho na voz. Mas não te chegam as tuas filhas, disse-lhe Henrique, também me queres para teu filho? As minhas filhas são minhas filhas e tu és quem és, respondeu Eduardo. E a tua mulher, voltou à carga o jovem, o que é que diz a tua mulher quando chegas tarde à noite? Quando não tem nenhuma reunião de negócios escreve números e quando não lê o jornal, vê televisão, respondeu-lhe. Mas não fala contigo, não te diz absolutamente nada? Só pensa no trabalho dela, queixa-se quando as coisas não correm bem; e tu, perguntou-lhe, os teus pais não querem saber por onde andas, o teu irmão o que diz? Dantes chateava-me todo o tempo para não chegar tarde a casa, mas depois achou conveniente que as mulheres, supostamente, andassem atrás de mim; é doido por mulheres casadas. Eduardo acendeu um cigarro. E é verdade que continuas a ser perseguido por homens? Só quero saber se te sentes bem comigo, não tenho outra razão para te perguntar, insistiu o homem. O cigarro na mão dele tremeu um pouco. Estou bem, respondeu-lhe, só há momentos em que me apetece ter dois, três, dez homens ao mesmo tempo, é como se a minha cabeça estivesse a arder... Achas que estou doente, Eduardo, como é que tu explicas isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduardo agarrou a cabeça dele, com o bonito pescoço, e encostou-a aos seus joelhos. Não estás doente, murmurou-lhe ao ouvido, és apenas um rapazinho mimado e mau; quando cresceres e amadureceres, ficarás bem, tudo ficará bem, verás... Tratas-me como um bebé, queixou-se Henrique, falas como os meus pais; fugi deles para te encontrar a ti. Tens a certeza que, no fundo, não era isso que procuravas? Era a vez de Eduardo fazer pouco dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficavam horas e horas despenteados, nus numa casa que ninguém tinha tempo de limpar, o pó acumulava-se nas prateleiras, aranhas teciam as suas teias em recantos esconsos. Saíam depois das onze e iam para casa de táxi, nunca de metro. A ideia de voltarem a entrar na mesma carruagem, mesmo que vazia, rarefeita de gente, era-lhes extremamente penosa. No silêncio de um táxi, com um motorista que, surdo e mudo, ia para o seu destino, sentavam-se muito juntos, com braços e pernas  tocando-se como se estivessem numa cama. Imagina, dizia-lhe Eduardo, se nas nossas casas  soubessem. E todo ele  gelou. Henrique encolheu os ombros. Tudo o que queria evitar era complicações e brigas. Tudo o resto era-lhe indiferente. Enquanto se sentisse bem, tudo óptimo e quando as coisas dessem para o torto - algumas noites de Inverno em que o frio picava e irritava a pele - deixava-as como estavam. Era tudo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116067340192227306?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116067340192227306/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116067340192227306&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116067340192227306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116067340192227306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-xii.html' title='Uma história simples XII'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116057678472073174</id><published>2006-10-11T12:57:00.000+01:00</published><updated>2006-10-11T15:26:24.746+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples XI</title><content type='html'>No dia seguinte foi trabalhar como de costume. Encerrado no escritório, não teve olhos a não ser para os seus números e livros de contas. Qualquer outro pensamento parecia-lhe irrelevante. O dia passou sem que ele tivesse dado por isso. Às oito horas da noite, como sempre, estava na estação à espera do comboio. O jovem já se encontrava sentado no seu lugar habitual. Viu-o ao longe e ia para se levantar para lhe dar o lugar mas Eduardo fez-lhe sinal para que permanecesse sentado. Em Campolide, quando alguns lugares ficaram vagos, foi sentar-se em frente dele. No momento em que o comboio seguiu viagem, deixando para trás a cidade, o jovem começou a tagarelar e ele ouvia-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falou-lhe das aulas, mostrou-lhe os livros; palrava e chalreava, parecia não se lembrar de nada, como se a noite anterior nunca tivesse existido. Mas Eduardo permanecia em silêncio, entalado no seu fato de três peças. Tens alguma coisa? perguntou-lhe Henrique, estás zangado comigo? Como é infantil, pensou Eduardo; uma criança adorável, se os costumes fossem diferentes... ponderou sorrindo. Não, não tinha nada, apenas estava um pouco cansado, do escritório. Queres aoanhar um pouco de ar, propôs-lhe, que tomemos um café... Eduardo levantou os olhos e examinou-o. Tinha um ar simultaneamente inocente e perverso. Por um momento hesitou mas depois acabou por semicerrar os olhos em sinal de consentimento. E se voltássemos a Lisboa? Se ele tivesse a mais leve objecção, deveria dizer, é claro. Eduardo sentiu uma certa relutância mas estava determinada a mostrar-lhe que não tinha preconceitos. Não me importo, disse, como queiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram pelo restaurante - Eduardo lançou-lhe uma rápida olhadela - deram a volta ao quarteirão, saíram no Princípe Real e acabaram numa pastelaria. À sua volta, vitrinas, bolos, boiões com rebuçados, taças com marmelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começaram de novo a falar dos estudos do jovem - é verdade, que novidades da bolsa de estudo? - mas era óbvio que a conversa não adiantava. Não era palavras o que realmente queriam; era olhar um para o outro, tocar as mãos, acariciar o cabelo, roubar um beijo. Ficaram a olhar-se em silêncio. Viste, disse o jovem, percebes agora porque fujo de pastelarias, seria muito melhor se tivéssemos uma casa, um quarto nosso. Mas não faríamos nada, disse Eduardo, sentar-nos-íamos tal como agora. Nada, prometeu Henrique. No máximo, deixavas que te abraçasse. Importar-te-ias? perguntou-lhe. Eduardo mordeu os lábios. Só se me prometesses que te portavas bem, disse ele. Tinhas que jurar! E pousou os dedos nos lábios de Eduardo. Estavam a escaldar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez mais abriram a porta verde, subiram a escada que rangia, chegaram ao pequeno quarto com os posters e os homens nus. Deita isto fora, ordenou-lhe Eduardo. Ele apressou-se a obedecer. Sentaram-se à beira da cama, brincando com as franjas de uma colcha envelhecida. Henrique... começou a dizer ele mas já Henrique o abraçava. Não tinha nada debaixo da camisola e das calças, excepto um diminuto e apertado slip, como o de um bebé. No caso de Eduardo, custou-lhe muito tirar o casaco, o colete, desapertar a gravata, desabotoar a camisa. Latejava da cabeça aos pés repetindo com lábios trémulos, estou doido, estamos ambos doidos. Mas quando se encontrou debaixo da colcha, daquela manta esfiapada que picava os corpos, foi Eduardo o primeiro a colar a boca nos lábios de Henrique. Que franzino que és, murmurou-lhe ao ouvido, que cintura tão fina! A cabeça à roda, o seu corpo ardia como uma fornalha. Com os corpos juntos era como se uma força demoníaca os tivesse unido, assim tão difíceis de desemaranhar. E quando Eduardo, a dado momento, tentou apagar a luz do candeeiro da mesa de cabeceira, o jovem, apertando-lhe o braço, deteve-o. Não, disse-lhe, quero ver os teus olhos, quero ver tudo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde sentaram-se aos pés da cama, meio-vestidos, a fumar. Diz-me, perguntou Eduardo, trazes muitos rapazes para aqui? Fez a pergunta com o rosto afogueado, um rosto que ainda ardia. Henrique baixou a cabeça. Era belo, assim despenteado, com o pescoço nu, a luz do candeeiro a fazer sobressair as vértebras ao longo da curva graciosa das suas costas. Não trago rapazes, disse-lhe, gosto de homens maduros. E sempre gostaste de andar com homens mais velhos? sim, disse com vivacidade, com homens da tua idade e apertou os lábios obstinadamente. Conta-me como foi a primeira vez, pediu-lhe Eduardo. Ora, por acaso, na rua; era um homem quarentão, alto, moreno, com ombros largos. Foi ele que me abordou e propôs-me que o acompanhasse. E aceitaste? perguntou Eduardo. Por acaso aceitei, estava a pensar no dinheiro. Recebeste dinheiro dele? exclamou o homem horrorizado. Sim, mas depois gostei e esqueci-me do dinheiro. E para onde foram? Para uma pensão, cheirava mal, senti-me incomodado, queria ir-me embora; mas depois, no dia seguinte e nos outros dias, tudo o que queria era fazer amor com ele outra vez! E agora, ainda vês esse homem? perguntou-lhe. Não, respondeu-lhe rindo, como seria possível vê-lo? E a tua amiga arquitecta sabe dessa história? perguntou-lhe com um toque de reprovação na voz. Ela nem sequer imagina, disse o jovem, essa vive na lua. Tomou-o nos braços e beijou-o. Vamos, Eduardo, não te faças difícil, vais representar agora o papel de casto em defesa da honra. Não te fica bem; afinal não sou um homem? Sim, um homem, disse-lhe, é por isso que tens este quarto, para aqui trazeres os casados... O Henrique voltou-se e olhou-o fixamente. Sim, exactamente; e tu, porque vieste comigo esta noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olharam-se nos olhos. Inclinaram-se e deixaram que as suas bocas se tocassem suavemente. Um tremor passou pelos lábios de Eduardo. Quem te ensinou a beijar assim? perguntou ele. Mas antes que ele pudesse dizer uma palavra, cobriu-lhe os lábios com os dedos como se os quisesse selar. Pendurou-se-lhe no pescoço, passou-lhe a mão pelos cabelos. Tens um cabelo bonito, liso. Gostava que as minhas filhas tivessem o cabelo como o teu, o delas encrespa com frequência. Continuas a pensar na tua família, queixou-se Henrique, não consegues deixar de pensar nela. A propósito, não te perguntei nada da tua mulher, o que fazes com ela? De repente Eduardo corou. Obrigas-me a dizer coisas que nunca disse a ninguém, em lado algum, respondeu ele. E tu, quando me perguntas, disse-lhe, julgas que são coisas que digo a qualquer um? Tens que saber tudo sobre mim? perguntou-lhe Eduardo. Tudo, respondeu-lhe, a partir de aagora não deve haver segredos entre nós. Há anos que não faço amor com ela, disse Eduardo e levantou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pôs-se em frente do espelho, de pé, e começou a pentear-se. Se não dormem juntos, insistiu o jovem, tentando meter o pé no sapato de Eduardo, então o que fazem? Apenas vivemos juntos, disse o homem. Disse-o de um modo frio, como se falasse para si mesmo, olhando severamente para a sua imagem reflectida no espelho. De certeza que a amas, disse Henrique, aposto que sentes o mesmo que todos os homens casados; esta noite não significa nada para ti a não ser uma aventura, uma pausa na rotina. E para ti, disse Eduardo, uma aventura entre tantas... Olharam-se através do espelho, surpreendidos por terem chegado a tal grau de intimidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente Eduardo voltou-se para Henrique. As suas mãos tremiam segurando a escova do cabelo e todo ele tremia. Tu não podes compreender, disse-lhe, és muito novo, não sabes o que é vivermos com uma pessoa de que não gostamos, uma pessoa que nada significa para nós! E então porquê? disse Henrique, perplexo, pegando na mão de Eduardo. Há um momento na nossa vida em que escolhemos, disse Eduardo, quer queiramos quer não, ou as circunstâncias escolhem por nós... Bem, bem, disse o jovem e acariciou-lhe o cabelo para o acalmar. Os fios de cabelo, soltos e recém-penteados, pareciam fibras vegetais. Então porque é que não te separaste antes de ser tarde demais? E não parava de o acariciar. Pouco tempo depois de termos casado, disse Eduardo, pensei no divórcio. Até cheguei a consultar um advogado, um amigo de infância. André, disse-lhe, quero divorciar-me da Silvia, diz-me o que é preciso fazer, quero que trates de tudo. Estava decidido. Por que razão, perguntou-me, o que é que te deu de repente? E quando lhe disse o motivo, riu-se e bateu-me amigavelmente no ombro. Ora Edu, estás a portar-te como uma criancinha de escola, ninguém é suposto estar apaixonado pela mulher ou pelo marido, o casamento é apenas uma questão de hábito, e é melhor que te acostumes à ideia: a felicidade é isso, ainda não percebeste, meu parvinho, ainda não aprendeste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, agora aprendeste e percebeste, disse Henrique. Eduardo baixou os olhos. Ficaram em silêncio, um ao lado do outro. O fato escuro contra a camisola vermelha. Vamos, temos que ir embora, disse Henrique como se falasse para uma criança, limpa os olhos, é tarde, a tua família vai começar a ficar preocupada. Sim, vamos embora, disse Eduardo, a tua amiga pode aparecer e encontrar-nos aqui. Passaram pela porta verde. Caminharam até à rua da Escola Poltécnica e apanharam um táxi. Henrique saiu em Coina, Eduardo seguiu para o Pinhal Novo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116057678472073174?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116057678472073174/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116057678472073174&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116057678472073174'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116057678472073174'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-xi.html' title='Uma história simples XI'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116047708594221648</id><published>2006-10-10T11:09:00.000+01:00</published><updated>2006-10-10T11:44:45.960+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples X</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passava das dez quando saíram do restaurante. Se quiseres, disse Henrique, podemos ir para casa de um amigo que está a estudar em Inglaterra em vez de andarmos às voltas na rua. Não te importes, parecia dizer o passo despreocupado do rapaz que conduzia o homem. No fundo não se importava muito para onde fossem desde que estivessem juntos, que ficassem sós para conversar. Sentiu o braço do jovem que lhe envolvia os ombros. Era como se tivessem sido colegas de escola. Passaram o convento dos Inglesinhos, desceram uma rua comprida e, praticamente a meio, pararam em frente de uma porta verde. Abriram a porta e começaram a subir uma escada de madeira que rangia e que conduzia a um pequeno quarto, em cima, nas águas furtadas, não maior que a cabina de um navio. As paredes estavam cobertas com fotografias de homens nus; no meio da divisão, uma cama de corpo e meio e, ao lado, um pequeno quebra-luz cor de carne. Por quem me tomaste? perguntou-lhe Eduardo com um ar reprovador, unindo as sobrancelhas, um movimento que sempre reestabelecia os seus princípios morais. E quando o jovem ia para protestar, ele voltou-lhe as costas e correu para as escadas. Henrique correu atrás dele, alcançou-o já na rua, abraçou-o e arremessou o rosto contra o peito dele. Desculpa... desculpa... disse-lhe várias vezes. Eduardo colocou a mão no queixo do rapaz e levantou-lhe a cabeça. Por cima das suas cabeças, uma mancha de céu limpo. Não tinhamos combinado que nos encontraríamos apenas como amigos? relembrou-lhe. Mas eu quero-te, disse-lhe como uma criança queixosa. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quero-te&lt;/span&gt;... Pensas que podes ter sempre o que queres com tanta facilidade? Não, disse o jovem, mas sinto-me só! Todos estamos sós, disse Eduardo, num tom neutro como se se dirigisse a si mesmo. Penteou-lhe o cabelo com os dedos, acariciou-lhe a testa branca, ainda não marcada pela vida. Talvez eu também te queira, disse-lhe numa voz estrangulada, mas ninguém pode querer tudo. Já te esqueceste de que sou um homem casado? Não, respondeu-lhe, e inclinou-se para o beijar. O homem fugiu-lhe de novo. Correu pela rua até ser surpreendido por risos. A culpa é toda do restaurante, atirou-lhe à cara, não deveríamos nunca ter ido lá! Sentiu-se vazio por dentro; sabia que tinha estado prestes a ceder. Vemo-nos amanhã, murmurou-lhe, no comboio... Naquela noite, Eduardo sonhou com as escadas de madeira, o minusculo quarto com o abajur de tonalidades carnais. Acordou lançando um grito. Tinha amanhecido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116047708594221648?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116047708594221648/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116047708594221648&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116047708594221648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116047708594221648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-x.html' title='Uma história simples X'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116040826555572967</id><published>2006-10-09T16:27:00.000+01:00</published><updated>2006-10-09T16:37:45.570+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples IX</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eduardo via-se um jovem rapaz, regressando a casa depois das aulas. Um homem olhava-o do urinol contíguo, na casa-de-banho da estação dos caminhos de ferro, não o deixou em paz até que se ajoelhou diante dele, ainda se lembrava de como a sua ejaculação o apanhou desprevenido... Lembrou-se ainda de um domingo em São Miguel, nos primeiros anos de casado. Tinha-se sentado com a mulher num restaurante com vista para o mar. Quem os servia era um empregado de mesa moreno, de longas pestanas e olhos atrevidos. No momento em que se debruçou para os servir, tocando-lhe intencionalmente no braço. E quando a mulher se levantou para ir à casa-de-banho, encontrou outra oportunidade para, de novo, se debruçar sobre ele e lhe segredar algo ao ouvido. A voz do empregado ardia nos ouvidos dele. Toda a noite as carícias do empregado de mesa em todo o seu corpo. Na manhã acordou com um horrível gosto acre na boca... Meu Deus, disse a Henrique, porque é que te dei ouvidos esta noite? Mas o jovem sorria, bonacheirão, de copo erguido. "À nossa", "À saúde", "Vai acima, bota abaixo"!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116040826555572967?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116040826555572967/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116040826555572967&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116040826555572967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116040826555572967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-ix.html' title='Uma história simples IX'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-116030761478376219</id><published>2006-10-08T12:28:00.000+01:00</published><updated>2006-10-08T12:40:14.796+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples VIII</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Paredes brancas com posters de actrizes de Hollywod, mesas postas com toalhas de linho. Clientes variados: estudantes, profissionais liberais de fato e gravata, homens de meia idade e numa mesa mais afastada duas caras conhecidas da televisão. Eduardo parecia levemente surpreendido mas curioso, definitivamente interessado. Então vens aqui muitas vezes? Não, disse Henrique, nem sempre é fácil encontrar a pessoa certa. E olhou-o directamente nos olhos. Eduardo baixou os olhos. De certeza que gostas de andar atrás de rapazes, disse-lhe num tom gentil, como que a criticá-lo. O jovem fingiu que não tinha ouvido. Porque é que não tiras a gravata, disse-lhe, já não estás no escritório. E com a mão desapertou-lhe o nó. Instintivamente Eduardo ergeu a mão para o apertar. Estás a ver como não te libertas, disse Henrique, queres estar sempre "engomado". E esse casaco comprido que usas às vezes, deita-o fora, dá-o a um velho, tu és novo. Novo... e Eduardo riu nervosamente. Os olhos de Henrique reluziam, os seus lábios, cuidado, de um intenso vermelho como se tivessem acabado de ser beijados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barulho de pratos, de vez em quando levantava-se uma onda de risos. Está demasiado barulho aqui; queixou-se o homem, não podemos conversar. Não tenhas pressa, disse-lhe Henrique, chegará o momento em que ficaremos sozinhos. E não parava de lhe encher o copo. Havia algo nos seus modos que lhe provocava uma espécie de repulsa e, ao mesmo tempo, o atraía irresistivelmente. À sua volta as paredes esbatiam-se, o restaurante crescia, o pasado voltava...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-116030761478376219?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/116030761478376219/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=116030761478376219&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116030761478376219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/116030761478376219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-viii.html' title='Uma história simples VIII'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115996941190588252</id><published>2006-10-04T14:15:00.000+01:00</published><updated>2006-10-04T14:43:31.923+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples VII</title><content type='html'>Dois dias depois, Eduardo deixou o trabalho a correr. Durante a tarde os seus olhos não tinham largado o relógio. Imagina o jovem chegar primeiro e ele não estar ainda lá! Chegar atrasado não era de bom tom, pensou para si mesmo, era totalmente contra o seu código de comportamento, os seus hábitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estação de Entrecampos estava apinhada. Era hora de ponta. Esvaziavam-se os escritórios, os estabelecimentos comerciais, saía gente das lojas. Começou a ficar desesperado; no meio de tal multidão facilmente poderiam não se ver. Sentou-se num banco corrido da estação, junto à saída, à esquerda, para ficar mais perto da primeira carruagem; de onde, passados poucos minutos, viu-o a saltar de camisola azul e calças de ganga. Fez-lhe sinal para o seguir pelas escadas rolantes. Deixaram a estação e meteram-se no metro. Pela primeira vez ficaram de pé, um contra o outro, roçando com volúpia a cintura, as ancas, os ombros sobre essa imensa almofada que era a multidão. Os olhos de Eduardo invariavelmente jovens e vivos. Que bonito estás esta noite! disse Henrique num repente e acrescentou logo: Onde é que nos apeamos? O que vamos fazer? Tens alguma preferência? Eduardo permaneceu em silêncio. Tenho uma ideia, disse Henrique, que tal se fôssemos até ao Bairro Alto. Está bem, concordou Eduardo, mas o que é que vamos fazer no Bairro Alto? Conheço lá um pequeno restaurante, uma cave, com pessoas engraçadas, frequentado por outros gays. Importas-te? Como queiras, disse-lhe ele, não querendo ser um desmancha-prazeres. E logo ele que nunca na vida tinha estado num sítio daqueles.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115996941190588252?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115996941190588252/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115996941190588252&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115996941190588252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115996941190588252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-vii.html' title='Uma história simples VII'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115988567848094276</id><published>2006-10-03T14:49:00.000+01:00</published><updated>2006-10-03T15:27:58.500+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples VI</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando no terceiro dia, ao entrar em Entrecampos, o encontrou sentado no lugar do costume, sentiu o coração saltar. O tempo que decorreu até que a carruagem se esvaziasse no Pragal e ele pudesse encontrar um lugar em frente de Henrique, pareceu-lhe uma eternidade. Os olhos do jovem também brilharam de alegria. Estava perfeitamente bem, já estava curado da constipação, curado das suas preocupações. Que remédios tinha tomado? Quem tinha preparado as suas refeições? A sua mãe, sim, claro, mas e o pai? Tinha-se preocupado? Um rosário de perguntas nos lábios de Eduardo, naquele princípio de noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem sorria. O seu rosto tinha recuperado a cor; usava uma camisola de um vermelho vivo e um par de calças de bombazina. Não, respondeu, não se dava assim tão bem com o pai. Para além de outras divergências, discutiam por causa da política. Repare, explicou-lhe, o meu pai é um homem de direita, praticamente de extrema-direita. Eduardo sorriu de um modo tolerante. Eu sei, também o meu pai era de direita, com todas as conotações que tal tinha logo depois do 25 de Abril. E você, perguntou-lhe o jovem, num tom animado, concordava com ele? Eduardo ficou pensativo. Não sei, de verdade, no fundo nunca concordei com ele. Então deve, com certeza, apoiar outro quadrante político. Não, não apoio, respondeu com um ar sério. As sobrancelhas franziram-se um pouco como se fosse confrontado com um novo problema a exigir uma solução urgente. Parece-me, disse, que não apoio nenhum partido. Sei que não é correcto, apressou-se a acrescentar, mas não posso deixar de ser assim. Permaneceram em silêncio algum tempo, de olhos fixos um no outro. Passageiros entravam e saíam a cada estação. Bem, o que é que estávamos a dizer, perguntou Eduardo, recompondo-se, as vogais arrancadas à força, as últimas sílabas prolongando-se no ar; a propósito, nunca me disseste o que faz aquela rapariga com quem estavas no outro dia, chegou a visitar-te quando estavas doente? Encontram-se com frequência? Tentou adoptar um tom paternal mas a sua voz soou nervosa, fora de tom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frequentamos ambos o curso de alemão na escola de línguas, disse Henrique; é arquitecta, também concorreu a uma bolsa, como eu. Mas é raro que a deixe acompanhar-me. Depois das aulas tenho sempre que fingir que estou com imensa pressa e quando ela consegue alcançar-me finjo que me esqueci de qualquer coisa para voltar atrás. Ou seja, disse  Eduardo de um modo hesitante, por outras palavras, tens tentado evitá-la... Não, não é bem isso, respondeu com um encolher nervoso de ombros. É que não quero que ela se cole a mim como uma lapa. Disse-o em voz alta e, de imediato, voltou-se para olhar em seu redor; ninguém tinha reparado, toda a gente estava absorta nos seus próprios pensamentos. Ambos sorriram. Espero não estar a ser demasiado indiscreto, disse Eduardo. Não, de modo nenhum, respondeu, é que quero ser eu a decidir como é que vou passar a noite. Esta noite, digamos que poderei querer sair com outra pessoa - contigo, por exemplo. Disse isto apressadamente, como se as palavras se lhe tivessem escapado, de repente, após terem estado encerradas num lugar secreto e obscuro da sua mente. De repente Eduardo corou. Esteve prestes a dizer algo abruptamente mas pensou melhor e baixou os olhos. Sinto muito, disse Henrique de um modo impulsivo, espero que não tenha ofendido. Talvez não goste que o trate por tu? Os olhos do rapaz brilhavam intencionalmente fixos nos lábios dele. Não, disse Eduardo sem levantar os olhos, nem sequer reparei. Aborrecem-me as raparigas, já agora também os rapazes da minha idade, confessou num impulso de paixão, aborrecem-me terrivelmente; consigo sinto que tenho imensas coisas que dizer e ainda mais que aprender; sinto-me bem consigo, não sei se também sente o mesmo. Eduardo conservou os olhos baixos. Os seus dedos agarravam a alça da pasta como se fosse a sua última boia de salvação. Então, Eduardo - era a primeira vez que ele o tratava pelo nome próprio - quando é que nós dois saímos juntos? Ele levantou os olhos, surpreendido; não sei, o que é que sugeres? Esta noite? perguntou ele, com uma esperança louca. Não, esta noite não, respondeu asperamente. Outro dia. Então amanhã, depois de amanhã, o mais cedo possível, disse ele com vivacidade. Os seus olhos pareciam febris, os lábios humedecidos. Eduardo contou os dias pelos dedos. Depois de amanhã, disse-lhe timidamente. Depois de amanhã, concordou ele. Como amigos, disse-lhe ele no mesmo tom àspero. Como amigos, repetiu o jovem, como uma criança pequena. O comboio tinha chegado a Coina. Boa noite, Eduardo. Boa noite, Henrique.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115988567848094276?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115988567848094276/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115988567848094276&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115988567848094276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115988567848094276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-vi.html' title='Uma história simples VI'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115978777715672718</id><published>2006-10-02T12:00:00.000+01:00</published><updated>2006-10-02T12:16:17.180+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples V</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos dois dias seguintes o jovem não apareceu. Sentado em frente a uma mulher desconhecida, Eduardo observava a mancha das luzes da cidade através do vidro embaciado. Em cada estação entrava uma multidão impaciente e variegada continuamente alimentando as carruagens; mulheres que puxavam crianças, casais, amigos, grupos de jovens e aqui e ali tipos solitários de olhos febris em busca de companhia, de um contacto que fosse apenas físico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagens da mulher, das filhas, da vida familiar invadiram o seu espírito. Deu com ele a recordar os dias de noivado: uma atmosfera opressiva, com a casa cheia de parentes que entravam e saíam, cada um com o seu conselho, os intermináveis preparativos, os jantares de família, as visitas, as compras e aquela sensação de naufrágio que normalmente  precede um casamento - o sentimento de que a juventude acaba. Esteve prestes a desfazer o noivado; depois percebeu que o casamento lhe permitiria viver de cabeça erguida, com a certeza de que tinha cumprido o seu papel na vida, o papel de marido e de pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do casamento, a vida tinha decorrido sem sobressaltos; tudo perfeitamente regulado, correctamente medido. Era talvez por esse motivo que se remetia ao silêncio, ao contrário dos colegas casados do trabalho que falavam dos filhos encantadores, que louvavam ou criticavam os esposos ou as esposas com igual falta de moderação. A sua mulher nunca lhe deu azo a tais exageros. Era uma mulher eficiente, competente, tão honesta quanto a sua profissão lhe permitia. Dedicava-se ao comércio. Não tinham casado por amor, isso era claro para ambos. Suspeitava que ela tinha as suas escapadelas de vez em quando. Mas tinha sido sempre extremamente discreta. Viviam em harmonia. E as filhas - para além dos problemas que têm todas as crianças - nunca lhe tinham dado grandes preocupações. Eram crianças perfeitamente normais. E os anos tinham passado, calmamente, sem altos nem baixos, sem um estremecimento. As mesmas estações, quase sempre os mesmos rostos, as mesmas pessoas. No fundo desejou que Henrique estivesse ali à sua frente. Se ele estivesse agora aqui alguma coisa poderia acontecer, teriam algo em que falar, algo que excluiria todas as outras pessoas. Seria como uma conspiração secreta, uma pequena revolução contra os hábitos e as convenções. Talvez por isso esta noite sentisse a sua falta. Suspirou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115978777715672718?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115978777715672718/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115978777715672718&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115978777715672718'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115978777715672718'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-v.html' title='Uma história simples V'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115970134147757434</id><published>2006-10-01T11:10:00.000+01:00</published><updated>2006-10-01T12:15:41.503+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples IV</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um vento frio de norte soprava naquele regresso a casa e os passageiros entravam na carruagem, com o naríz e as orelhas vermelhas. Comprimiam-se nos lugares em silêncio, deixando escapar pela boca baforadas de ar condensado, como nevoeiro. O jovem vestia uma camisola de lã espessa e levava um cachecol enrolado no pescoço mas não trazia sobretudo nem casaco. Estava sentado sozinho, em direcção contrária ao maquinista como de costume, os olhos fixos na porta. Tinha o ar pesaroso de uma criança que sabe que se portou mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem entrou em Entrecampos. Levava o sobretudo cinzento que lhe dava ar de um soldado da frente russa, durante a II Guerra Mundial. Por segundos hesitou em olhar para o lugar habitual do jovem. Então dirigiu-se directamente para o lugar em frente dele. Até estendeu um pouco as mãos como se pedisse desculpa por usar luvas, enquanto o jovem, por seu turno, tirava o cachecol, relaxando todo o corpo. Trocaram um sorriso de alívio. Sem pensarem mais apresentaram-se. O nome do homem era Eduardo e o do jovem Henrique. Ficaram-se pelos nomes próprios, omitindo os apelidos e passaram de imediato a falar da súbita mudança de tempo. Henrique disse que vivia num bloco de apartamentos em que o aquecimento central parecia nunca funcionar em condições. Eduardo disse ter optado por uma lareira com recuperador de calor na sua vivenda de dois pisos em Pinhal Novo. Também lhe falou da mulher e das filhas. Tinha duas filhas, uma de treze e outra de oito anos. A mais velha está a entrar agora na adolescência, mais um problema entre outros, sublinhou. E você, perguntou-lhe, que idade tem? Vinte e dois. Mas é ainda uma criança, disse-lhe, surpreendido. Desculpe, acrescentou logo, não o queria subestimar. Disse que vivia com os pais e o irmão que era engenheiro e trabalha no departamento de planeamento da Câmara Municipal de Sesimbra. O pai era bancário e a mãe doméstica. Ele estudava também engenharia, como o irmão, e também estava a tirar um curso de alemão, à noite. Os seus planos, continuou, eram obter uma bolsa de estudos na Alemanha para uma especialização. Já tinha enviado a sua candidatura e esperava ansiosamente resposta. E o Eduardo, o que faz? Em que é que se ocupa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduardo Sorriu. Quando ria ou sorria uma profunda ruga vertical entre as sobrancelhas fendia o seu rosto. Era como se tivesse duas faces, reparou Henrique. Ele disse-lhe que trabalhava num escritório. Contabilista. Era agora chefe de secção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca poderia ter esse emprego e riu-se para o homem, a contabilidade parecia-lhe uma actividade limitada, pouco imaginativa, escolástica, foi a razão porque optou por uma matéria moderna, científica. Não que tivesse grandes planos para o futuro, apenas queria levar uma vida decente, mudar o rumo actual da sua vida, tornar-se independente dos pais. Entretanto, disse, estava a tentar arranjar um trabalho temporário, mas os empregadores não estavam muito dispostos a contratá-lo. Eduardo acenou com a cabeça. Com certeza, no seu caso era diferente, nunca tinha tido uma educação académica em sentido estrito, tinha aprendido um pouco de contabilidade, o pai tinha-o ajudado enquanto foi vivo, mas foi quando arranjou o actual emprego na repartição que realmente sentiu ter encontrado o seu caminho. Tudo acaba por se arranjar, disse-lhe, quando assentas, quando encontras um trabalho e, nessa altura, decides dar o teu melhor. Mesmo que não seja o que realmente procuravas. Nunca é exactamente o que procuras. Bom, pelo menos, era este o seu modo de encarar as coisas; e aconchegou a gola do sobretudo no pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando for para a Alemanha, disse-lhe, num tom paternal, tem que ter cuidado e vestir roupa mais quente, não como hoje - olhe para si, sem sobretudo neste tempo, uma camisola não é suficiente; e precisa de tomar vitaminas, montes de vitaminas. Henrique pediu-lhe que o tratasse por tu. Era difícil tratá-lo sempre por você. Hoje em dia as pessoas são muito menos formais, disse. Eduardo sorriu. Tinha acerteza de que ele tinha razão. As suas filhas eram a prova real de que as coisas tinham mudado, mas ele era assim, antiquado. Terá que nos visitar um dia destes, terás que nos visitar, corrigiu, para conheceres as minhas filhas. Mas já o comboio tinha chegado a Coina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite seguinte o jovem tinha os olhos lacrimejantes, a sua voz tinha-se tornado rouca como a dos galo na madrugada. Eduardo estava visivelmente preocupado. Vês como te disse, não me deste ouvidos, as pessoas não andam por aí nuas, com este frio, mesmo quando são novas! O jovem sorriu, triste e lacrimoso. Era estranho vê-lo assim, um rapaz da idade dele e a chorar. No seu intímo de pai despertaram emoções conflituosas. Não é nada de grave, ouviu-o dizer, não vamos perder tempo a discutir a minha constipação; tinha coisas mais importantes em mente, disse. O que poderia ser mais importante do que a saúde, perguntou Eduardo com um ar surpreendido. Henrique encolheu os ombros. Olharam-se. Os seus pensamentos centraram-se automaticamente na mesma pessoa, era o que estava claramente inscrito nos seus olhos. Ambos estavam surpreendidos por descobrirem como poderiam ler tão bem os seus pensamentos. Algum caso amoroso, perguntou Eduardo. O rapaz não pôde deixar de sorrir - um ténue sorriso malandro. Uma velha história, respondeu tornando-se sério, nada de importante; deveria ter acabado há muito tempo. Ficaram de novo em silêncio. Seria a rapariga que insistia, ousou perguntar Eduardo. Ele acenou que sim com a cabeça, assoando-se repetidamente a um lenço de papel que começava a desfazer-se. Tinha um ar macilento e doentio. Eduardo mergulhou as mãos nos bolsos do sobretudo. Enervou-se por não encontrar logo o que procurava mas, depois de abrir a pasta, sacou um pacote de lenços de papel novo e entregou-lhe com um ar triunfante. Gostarias de vir a minha casa para conversarmos um pouco uma destas noites? A sua casa? Como é que vou a sua casa? Talvez fosse melhor encontrarmo-nos nouitro sítio, só os dois, disse Henrique. Só os dois... ponderou Eduardo! e este pensamento fê-lo estremecer inesperadamente. Este rapaz tinha o condão de o fazer sair do severo padrão de hábitos que regulavam a sua vida; ele não gostou, não gostou mesmo nada. Bom, veremos, disse com um toque de severidade na voz, como se fosse um parente mais velho, um tio solteirão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115970134147757434?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115970134147757434/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115970134147757434&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115970134147757434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115970134147757434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/10/uma-histria-simples-iv.html' title='Uma história simples IV'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115961516054831115</id><published>2006-09-30T11:58:00.000+01:00</published><updated>2006-09-30T12:19:20.563+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples III</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Numa tarde de Inverno - deveria ser em meados de Janeiro - ao subir para o comboio, o homem reparou que o jovem tinha companhia. Uma rapariga provavelmente mais velha do que ele, com cerca de vinte e cinco ou vinte e seis anos no máximo; tinha cabelos compridos, morena, uma rapariga banal. Também ela levava uma pequena pasta com papéis, semelhante à do jovem. De forma como os seus joelhos se tocavam e pela maneira de se inclinarem um para o outro poder-se-ia dizer, de imediato, que tinham algo em comum; pareciam ser companheiros de faculdade ou colegas de escritório. O jovem sentiu o olhar do homem assim que este olhou na direcção deles. Desviou rapidamente o olhar, um súbito rubor invadindo-lhe o rosto. De súbito colocou a mão no braço da rapariga e segredaram algumas palavras. A rapariga deixou cair a cabeça no ombro do rapaz que, por sua vez, sacudiu a cabeça para trás em sinal de menosprezo, com um ar pretensioso e provocador. Pareciam ter dito algo mais, o jovem riu alto, dissonante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, o homem permanecia de pé. Mesmo no momento em que a rapariga se prepara para descer na estação do Pragal e se debruça sobre o jovem - talvez para lhe roubar um beijo - o homem mantém-se absolutamente imóvel. Durante o curto trajecto para Coina mantém-se de pé, de olhos teimosamente fixos na biqueira dos sapatos e recusou sentar-se quando um rapaz de uns dezassete anos se afastou um pouco para lhe arranjar lugar. O jovem fez questão em evitar o olhar do homem. Olhava através da janela, ignorando ostensivamente a sua presença, cabisbaixo, de rosto ligeiramente tocado por uma espécie de cansaço. Na estação de Coina levantou-se, desceu pelo corredor na direcção oposta do homem, empurrou um gordo que obstruía a saída e desapareceu na plataforma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que a porta se fechou e que o comboio se pôs de novo em movimento, o homem cerrou os olhos. Como alguém que estivesse muito cansado devido a um esforço imenso de concentração ou a um grave problema pessoal. Só nessa altura se permitiu ocupar um dos muitos lugares vagos, colocando as mãos em volta da pasta de cabedal num gesto protector. Eram mãos que tinham escrito inúmeras contas. A idade tinha feito com que os seus dedos tivessem inchado um pouco - no terceiro dedo a aliança parecia cravada profundamente na carne -, mãos salpicadas de manchas de fígado. Contudo eram mãos finas, graciosas. Apeou-se, como habitualmente, em Pinhal Novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, ou porque o jovem se tinha atrasado ou porque o homem tinha mudado de carruagem - por hábito entravam na primeira carruagem - não se encontraram. No dia seguinte foi sábado, portanto não se tornaram a encontrar até segunda-feira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115961516054831115?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115961516054831115/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115961516054831115&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115961516054831115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115961516054831115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/uma-histria-simples-iii.html' title='Uma história simples III'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115961168113543065</id><published>2006-09-30T11:03:00.000+01:00</published><updated>2006-09-30T11:21:21.153+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples II</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Começaram a falar-se com naturalidade. No início só diziam o essencial. "Boa noite", "adeus". Depois começaram a abrir-se um pouco mais, oferecendo-se pequenas frases como "o tempo esfriou" ou "hoje há muita gente". Se o homem parecia demasiado carregado, o jovem oferecia-se para lhe levar um ou outro pacote e quando a pasta do jovem, repleta de papéis, parecia que estava prestes a rebentar, o homem ordenava os papéis com dedos destros e leves, devolvendo-lhe a pasta com um tímido sorriso que parecia dizer-lhe "tudo bem, estamos aqui de novo amanhã". Desde o início tinham dado a impressão de uma certa familariedade e de uma rigorosa pontualidade no que parecia ser o seu encontro diário. Agora trocavam frequentes sorrisos e entendiam-se com um mero acenar de cabeça. O jovem fixava os olhos no homem, expectantes, enquanto os olhos deste permaneciam serenos, tocados pela tristeza - o olhar de alguém a quem falta qualquer coisa vital. Em seu redor - homens, mulheres, crianças barulhentos era como se não existissem. Formavam uma massa densa e indiferenciada. Ao viajares com um amigo intímo ou com alguém que amas é assim: perdes a consciência daquilo que te rodeia para só a recuperares, dolorosamente, no momento em que, de novo, te encontras só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era o que acontecia com aqueles dois. Como se a viagem de pouco mais de meia hora não fosse mais do que uma desculpa convencional para que se encontrassem. Enquanto durava dedicavam a sua atenção um ao outro, os rostos inundados com o brilho calmo de uma harmonia e intimidade perfeitas. Mas no momento em que o jovem se levantava para sair do comboio, pegando desajeitadamente na pequena pasta, nos cigarros e no telemóvel, friamente neutro. Enquanto esperava, de pé, que o comboio parasse, também o jovem adoptava um ar de indiferença que contrastava com o aspecto que apresentava há minutos. E ficavam ambos impassíveis, o homem sentado no seu lugar, o jovem de pé, frente à porta. Então o comboio deixava Coina, monotonamente avançado em direcção a Pinhal Novo onde o homem se apearia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115961168113543065?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115961168113543065/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115961168113543065&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115961168113543065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115961168113543065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/uma-histria-simples-ii.html' title='Uma história simples II'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115945175018814802</id><published>2006-09-28T14:25:00.000+01:00</published><updated>2006-09-28T14:55:50.250+01:00</updated><title type='text'>Uma história simples I</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Encontrtavam-se todas as noite às oito. O mais novo entrava na estação de Roma/Areeiro, o mais velho em Entrecampos. O rapaz vestia calças de ganga e camisola largas. Tinha cabelos rebeldes. Numa mão segurava o telemóvel e o maço de cigarros e na outra uma pequena pasta cheia de papéis. Escolhia sempre o mesmo lugar, num canto à janela, no piso superior da carruagem, em direcção contrária ao maquinista, o tempo que o comboio levaria a chegar a Entrecampos, o outro iria surgir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um homem maduro, bem conservado, de cabelos escuros, alguns ligeiramente mais claros. Aparecia sempre bem cuidado. Usava geralmente fatos escuros e gravatas azuis a condizer com os olhos. Em raras ocasiões, quando o frio apertava, aparecia envolto num sobretudo cinzento comprido, uma informe peça de vestuário fora de moda que parecia um sobretudo militar. Ao contrário das outras peças de roupa, o sobretudo fazia-o parecer mais velho. Se não havia lugares livres, ficava de pé, pacientemente, até o comboio atravessar a ponte e chegar ao Pragal, onde muitos passageiros saíam e teria então a certeza de encontrar um lugar. De modo que, passada a estação do Pragal, quase sempre ficavam sentados um em frente do outro, a perna traçada e a biqueira do sapato engraxado do homem a espreitar no corredor, as pernas do jovem abertas, uma mão como que esquecida sobre a braguilha onde brilhavam botões de metal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros tempos não trocaram palavra; nem sequer o convencional "desculpe" quando o jovem se levantava para sair na estação de Coina. Limitavam-se a olhar furtivamente um para o outro: o peito do homem, o rosto do jovem; os olhos do homem, a boca do jovem. Observavam-se como os visitantes do jardim zoológico observam, com curiosidade, os animais enjaulados. Mas nunca ostensivamente, nunca insistentemente. Apenas uma espécie de interlúdio enquanto o comboio atravessava um túnel, os seus mútuos olhares encontrando justificação na ausência de paisagem. No entanto, quando o comboio emergia a céu aberto, os dois passageiros continuavam a olhar-se e ficavam então completamnte absortos um no outro, libertos de timidez, do mal-estar que geralmente separa as pessoas e faz com que evitem olhar-se. Libertos das restrições das boas maneiras convencionais. Contudo não se olhavam nos olhos - algo difícil de suportar, como olhar demasiado tempo para o céu. Deixavam o olhar viajar pelas suas peles, detendo-se nos poros dilatados, nas borbulhas, nos lunares, em todas as pequenas irregularidades que tornavam os seus rostos mais ricos e os individualizavam. De vez em quando, o homem baixava os olhos como se saísse de um transe e olhava para as mãos de um modo ausente, para a aliança que era o seu único ornamento. Mas rapidamente libertava o seu espírito de novo. Mais do que o olhar do jovem, o olhar dele parecia atravessá-lo, perder-se no desmaiado halo formado pelo brilho do seu cabelo escuro. Para ambos estes olhares pareciam propiciar um respeito mutuamente partilhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115945175018814802?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115945175018814802/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115945175018814802&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115945175018814802'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115945175018814802'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/uma-histria-simples-i.html' title='Uma história simples I'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115935779333123941</id><published>2006-09-27T11:54:00.000+01:00</published><updated>2006-09-27T12:49:53.436+01:00</updated><title type='text'>Depois da tua ausência</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tenho a certeza de que também me viste, embora pudesse ser que não. Na realidade, o mais provável é que de facto te tenhas dado conta de que, após três anos sem nos vermos nem nos telefonarmos, hoje nos cruzámos por um instante. Conduzias um carro, saías de um semáforo e eu cheguei à beira do passeio. Então os nossos olhos encontraram-se e algo estourou dentro de mim. Com o tempo fui recolhendo os teus restos. Depois da tua partida, não podias estar a ocupar todo o meu corpo, não teria aguentado a tensão. Foi algo automático; pouco a pouco o que de ti havia foi ficando guardado numa cápsula e aí estava bem. O certo é que nunca chegaste a ocupar-me por completo. Nenhum de nós se atreveu correr o risco de um contacto que anulasse as distâncias. E no entanto, houve uma intensidade que não voltei a sentir com ninguém depois da tua ausência. É uma história quase sem episódios, a nossa, a sua própria breviedade priva-a de tragédia. Apesar da nostalgia, pouco a pouco fui-me convencendo que fizemos bem em deixar de nos vermos quando te foste embora do trabalho. Então, porquê esse olhar e a explosão? Não vou fazer nada para estar contigo, nem que seja para tomar um café juntos, e suponho que tu também não tentarás nada, se de facto me viste como eu te vi; não me atreverei a transformar em algo objectivo aquilo que foi um fogacho, apagado sem cinzas, uma condensação do nosso encanto tão pousado de outrora. Talvez tenhas aparecido só para me certificar que já não existes ou, pelo menos, que a esfera que te contém pode estar em vias de volatizar-se, como aconteceu quando arrancaste o carro e voltaste ao território das recordações com um breve fulgor que te ilumina sem mudar o teu carácter de passado. Sempre puseste especial cuidado em não provocar mudanças na minha vida, para além da luz de uma presença que haveria de captar com esmero, que não se impunha de imediato, como essas belezas óbvias, que circulam com brilhos que cegam e não permitem ver para lá de um exterior sujeito a cânones que apenas movem o lado explícito, animal, sem dúvida alegre no seu instinto, mas algo chato na sua rotundidade. Em ti houve sempre um pormenor subtil, como o desta tarde, tão leve que às vezes parece só ter existido na imaginação. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115935779333123941?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115935779333123941/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115935779333123941&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115935779333123941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115935779333123941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/depois-da-tua-ausncia.html' title='Depois da tua ausência'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115927487952264564</id><published>2006-09-26T12:15:00.000+01:00</published><updated>2006-09-26T13:47:59.643+01:00</updated><title type='text'>Mr. Perfect</title><content type='html'>"O melhor é misturá-las", disse o Raul sobre as artes marciais. Era cinturão castanho e esperava conseguir o preto antes do Inverno; entretanto, complementava o judo com tae kwon do. Era também surfista semi-profissional e um génio informático - reformara-se milionário um ano antes, quando acabara de fazer os trinta e cinco. Além de extremamente atraente (um ex-modelo), era eloquente e lêra o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ulisses&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;As Ondas&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Montanha Mágica&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Processo&lt;/span&gt; e o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Grande Gatsby&lt;/span&gt; entre os treze e os catorze anos ("Influenciaram o meu modo de ser de várias formas, moldando profundamente o meu carácter"). Era fluente em seis línguas, sete se se contar com o mandarim, que apenas sabia ler. Contou-me isto enquanto brincava com um pedaço de beterraba, ensanguentando o prato de tofu salteado com espinafres, acompanhado com arroz integral cozido ao vapor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acenei a cabeça, sem saber o que dizer. "Espantoso!", disse finalmente. Espetei uma alga com o garfo e levei-a à boca. Não sabia a nada parecido com o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cheeseburger&lt;/span&gt; com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bacon&lt;/span&gt; que eu queria estar a comer naquela altura - um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cheeseburger&lt;/span&gt; com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bacon&lt;/span&gt;, a pingar colesterol, em casa, no sofá, a ver a MTV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não tinha decorrido meia hora desde que tinha cumprimentado Raul e já estava surpreendido pela intensidade da antipatia que tinha por ele. Verdade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não vejo televisão", disse-me quando lhe perguntei se gostava da MTV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nunca?", insisti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Raramente. Às vezes vejo a CNN. Cheguei a seguir uma ou outra série da HBO. Mas depois de deixar de beber, nunca mais."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei, e consegui, esconder o meu regozijo com uma máscara de compaixão. "Então, tiveste... problemas com álcool?" Queria bater palmas, lançar urras ao ar. Queria sinais de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;neon&lt;/span&gt;, grandes flechas apontando para o Raul, acendendo e apagando, defeito, defeito, defeito. Eu gosto de defeitos e sinto-me mais confortável com pessoas que não os disfarcem. Na verdade, eu próprio sou feito de uma data de defeitos presos uns aos outros por boas intenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não, não tive qualquer problema com a bebida. Mas sabes", inclinou a cabeça para a direita, "quem é que precisa dos hidratos de carbono extra?" Os dentes de Raul eram tão brancos que pareciam de plástico. Mas eu tinha a certeza de que eram verdadeiros e que nunca teve uma única cárie que fosse, porque, sem qualquer dúvida,  escovava os dentes quatro vezes ao dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que reparei que o cesto do pão estava vazio e que havia um rastro de migalhas até ao meu lado da mesa. Quando ele bebeu um trago de água mineral e ligeiramente gaseificada, fechando os olhos, limpei apressadamente as provas do crime de cima da minha camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Passou há dias um programa sobre hidratos de carbono na CNN", disse-me. "Viste?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca vejo a CNN. Já me chega o trabalho para ser bombardeado com informação. Era só o que me faltava, chegar a casa e por-me a ver qualquer canal de televisão que ameaçasse a bolha de indiferença em que vivo nas horas pós-laborais. "Não", disse-lhe. "Perdi esse documentário. Mas estou de acordo, hidratos de carbono são maus. Normalmente evito ingeri-los, só quando como em restaurantes."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raul sorriu. "Pensei que tinhas dito que comias sempre fora. Que não sabias cozinhar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bem", comecei a patinar. "Queria dizer restaurantes com toalhas e guardanapos de linho."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andava numa roda viva respondendo a anúncios pessoais, Raul era o meu décimo encontro do mês. Gosto do conceito dos anúncios pessoais, porque, desse modo, é possível conhecer realmente uma pessoa. O mesmo não acontece quando conhecemos alguém na fila da bilheteira do cinema por exemplo: sentimo-nos apenas atraídos pela aparência e só descobrimos mais tarde, depois de encontros dispendiosos, que o seu interior é tão ou mais atraente que uma endoscopia. Pelo menos, teoricamente. Porque, na prática, acho que é tudo a mesma coisa. Eu, pelo menos, respondi ao anúncio de Raul apenas por causa da fotografia, ignorando palavras de que não gostava (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;espiritual&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;empreendedor&lt;/span&gt; e especialmente &lt;span style="font-style: italic;"&gt;sensorial&lt;/span&gt;). Fiz o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;download&lt;/span&gt; da fotografia dele, ampliei-a no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;photoshop &lt;/span&gt;para escrutiná-la melhor, e depois enviei-lhe uma mensagem breve e atrevida, com uma fotografia minha tirada na praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O arroz está mesmo bom", disse-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Um pouco salgado para mim", respondeu-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sim, é verdade. Um pouco salgado. Mas como o meu corpo anda a pedir-me coisas salgadas... Talvez não beba o suficiente no ginásio e esteja desidratado." Porque é que eu insistia em fazer conversa de chacha? Qual a razão para estar ali a dizer coisas que não me dizem nada? A resposta era óbvia, demasiado óbvia: porque ele era muito atraente e perfeito, e eu não me sentia nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raul bebeu um novo trago de água. "Fala-me lá um pouco de ti", disse-me, sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bem, eu sou o quarto poder." Já usei esta tirada umas largas dezenas de vezes, e de vez em quando acham piada e riem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não se riu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei. "Sou jornalista. Nos tempos livres gosto de ir ao cinema. vejo quase tudo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ases alinharam-se nos olhos do Raul, como numa slot machine do casino. "Adoro cinema", disse-me. Finalmente. Algo em comum. "Qual é o teu filme favorito?", perguntei-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;American Beauty&lt;/span&gt;, disse sem precisar de pensar. "Vi-o uma dez vezes no cinema e depois disso já o revi, em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;dvd&lt;/span&gt;, uma série de vezes. É o filme mais incrível que já vi sobre budismo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não suporto homosexuais armados em espirituais. Chateiam-me mais do que água com sabores. Um homossexual espiritual significa apenas que tem o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;yin&lt;/span&gt; e o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;yan&lt;/span&gt; tatuado no rabo. Com que então és budista", digo-lhe, serenamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Vê as coisas do seguinte modo", disse-me, apoiando o queixo nos dedos entrelaçados, "quero saber o mais que puder e viver tudo o que me fôr permitido." A chama da vela que ardia no centro da mesa tremelicou quando tossi. "E qual foi o último filme de que gostaste realmente?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu-me uma branca repentina e não lembrei de um único filme que tenha visto. Acontece-me frequentemente. Fazem-me uma pergunta simples e o meu cérebro arma-se numa petulante criança mimada que vira-me as costas, e eu depois não sei o que responder. "Gostei do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Deliverance&lt;/span&gt;, a cena com o porco é genial."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do jantar entro novamente em estado de choque. Raul disse-me que gostaria de voltar a sair comigo. "Podíamos ir até Sintra. É realmente bonito e seria agradável estar contgo no meio da natureza."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque fui apanhado completamente desprevenido com aquele convite, uma vez que pensava que ele também não tinha gostado de mim, disse-lhe: "Está bem", mesmo não ligando peva à natureza. Imediatamente depois de ter dito que sim, pensei onde é que eu estava com a cabeça. Eu estava simplesmente a seguir um conselho de um amigo: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;esquece o primeiro encontro, precisas de três ou quatro encontros até começares a conhecer alguém.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse a mim mesmo que estava a fazer avanços enquanto ser humano, dando uma nova oportunidade a Raul, e não sendo tão preconceituoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no domingo seguinte lá fui eu ter com ele a Sintra, para o meio do verde, logo eu que raramente perdia de vista o cimento e o alcatrão. Tomei aquele passeio como uma aventura e, para o caso de uma qualquer emergência, levei comigo quase quinhentos euros em dinheiro. Quando vi o Raul sentado num banco corrido, sorri automaticamente. Vestia uns calções e uma t-shirt larga. Tinha um ar casual e sexy. Não é preciso dizer que fiquei louco de desejo, e tornei-me completamante superficial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"É bom ver-te de novo, Manuel", disse-me, estendendo-me a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apertámos as mãos e, sem avisar, puxou-me para mais perto de si, abraçando-me. "Eh homem! Deves malhar todo o santo dia no ginásio... és todo músculo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei babado com aquele elogio, mais do que devia. Pensei que era capaz de segui-lo para onde quer que ele fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto seguíamos pelos trilhos ao longo da floresta, Raul contou-me um pouco mais sobre si. Pensava que a vida é uma aventura e que, se se quer qualquer coisa, devemos ir à luta até alcançá-la. "Eu queria ter dinheiro suficiente para me reformar aos 35, e foi isso que fiz", disse. "Sou a prova viva de que não se pode falhar quando se tem um plano". Quando passávamos junto aos arbustos, esticava os braços e tocava nas folhas com os dedos, identificando-os com os nomes cientificos. Quis saber se eu estava aos 32 anos onde tinha planeado estar. "Ou aindas estás a caminho?" O Raul tornou-se odioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegámos a uma clareira. No meio das árvores e do verde da relva, estava um lago de luz e um velho tronco como um convite a sentarmo-nos. Raul dirigiu-se a um velho carvalho, colocou as palmas das mãos sobre o tronco e beijou-o. "Esta é a Silvia, a minha árvore favorita".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, a partir de então era oficial: eu desprezava-o. Tirei o maço de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Marlboro Lights&lt;/span&gt; do bolso lateral dos calções e acendi um cigarro. "Prazer em conhecer-te, Silvia", e expeli uma densa e azulada nuvem de fumo. Raul estava horrificado. "Mas... tu... fumas?", perguntou-me com ar de quem estava evidentemente enojado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Estou a tentar parar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bem. Fumas ou não fumas. Ninguém tenta deixar de fumar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tens razão", disse. "Estou a pensar em desistir, mas nunca tentei. Por isso, sim, fumo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Gostaria que não fumasses, pelo menos onde nos encontramos agora". Tirei o cigarro dos lábios, apaguei-o e enterrei-o com a biqueira das botas. "Ok", disse-lhe. Podia ver na sua cara o quanto estava desiludido comigo. "Vamos voltar para trás?", perguntou-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei como, mas a verdade é que acabámos na cama. Era mais que evidente que não tinhamos nada em comum, mas convidou-me para ir lá a casa - Raul vivia numa vivenda na Gandarinha, entre a Guia e a Boca do Inferno - e eu aceitei porque os seus músculos exerciam um estranho poder sobre a minha vontade. No &lt;span style="font-style: italic;"&gt;hall&lt;/span&gt; ele disse-me outra vez o quanto o meu corpo o excitava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envergonho-me por me ter vendido por um tão simples elogio. Senti-me mal toda a minha adolescência por causa de ser gordo. Trabalhei o corpo no ginásio durante anos, e embora o espelho ainda me devolva a imagem de um rapazs gordo, há quem veja outro homem diferente e às vezes quer ir para a cama como ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raul despiu a camisa, e o seu peito musculado, peludo, masculino, prendeu a minha atenção. E em dez minutos estávamos nus e na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que descobri que ele padecia de um problema chamado micro-pénis, o que quer dizer que o seu membro mede menos de dez centímetros, quando completamente erecto. Assemelha-se a um clitoris sobredimensionado, espetado em cima de dois testículos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Chupa-me esse caralhão", ordenou-me. "Vê como é enorme e grosso." Estava tonto, literalmente tonto! Eu já estava surpreendido por ter descoberto o micro-pénis e ainda fiquei mais surpreendido pelo facto de ele aparentemente não ter consciência do problema. Agarrei a pilinha com a mão, e ela desaparceu. Usei o polegar e o indicador para masturbá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Isso", diz. "Assim, fode-me ese caralhão."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei aquilo como se fosse trabalho de voluntariado, masturbei-o apenas por piedade. Aquilo não era diferente do que doar cinco por cento do meu ordenado para AMI, e até pensei que em vez de dar o meu donativo para a AMI até seria melhor ficar com o dinheiro para gastá-lo nos próximos encontros. Já que para além do dinheiro, estava a dar também o meu suor para uma nobre causa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio-se. "Tenho que me lavar", disse-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raul estava distante. "A casa-de-banho é nessa porta à tua direita", disse-me, levantando-se e enfiando os pés nos chinelos. Depois disse-me: "Obrigado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"De nada", respondi, secando as mãos na sua toalha cara. "Mas acho que é melhor ir-me embora."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sabes, gostei imenso de te ter conhecido, Manuel. Mas aquela coisa de fumares, é algo que para mim é demais."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, já em casa, penso se algum dia terei melhoras. Se o Raul não tivesse colocado objecções ao facto de eu ser fumador, será que colocaria objecções à sua mini-pila? Afinal de contas, ele era atraente, inteligente e bem sucedido. Se o tivesse conhecido melhor, talvez eu tivesse vindo a gostar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais engraçado é que se ele chegasse ao pé de mim e me tivesse contado desde logo que tinha um pénis do tamanho de um apara-lápis, se fizesse depois uma piada sobre o assunto (Mas de resto sou mais-que-perfeito), talvez eu tivesse gostado dele. Aí está, para além de não admitir, parece não ter a consciência de que tem um problema entre as pernas. Apesar de Raul não ser perfeito, ele pensava que estava muito perto da perfeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para mim, isso é demais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115927487952264564?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115927487952264564/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115927487952264564&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115927487952264564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115927487952264564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/mr-perfect.html' title='Mr. Perfect'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115918967770458624</id><published>2006-09-25T13:03:00.000+01:00</published><updated>2006-09-25T14:07:57.730+01:00</updated><title type='text'>A hora da sesta</title><content type='html'>Quando as férias grandes se prolongavam por todo o Verão, tudo era possível e tudo estava por acontecer, e o avô e a avó iam descansar entre as duas e as quatro deixando-nos sós um tempo infinito, nós escapulíamo-nos pela rangente escada de madeira até ao quartinho das águas-furtadas e instalavamo-nos junto da janela de onde, do outro lado do pequeno bosque, se podia ver todo o mar, e tocavas-me na cara com a ponta dos dedos dizendo-me que gostavas de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora reunimo-nos aqui, como parentes pesarosos que se despedem no aeroporto, junto do painel preto que existe à entrada, onde alguém escreveu com giz branco, dois zero zero, Manuel Assunção Quiroga, funeral, e olho para a mulher que está sentada a teu lado no banco de pedra, um chapéu sombreando-lhe os olhos, a boca madura como uma uva, o sol polindo duas nesgas de luz ao longo das suas coxas bronzeadas; depois aproximo-me de vocês, tiro os óculos de sol, digo tranquilamente, olá, e tu levantas-te e disses apressadamente, apresento-te a minha mulher, o meu primo. E diviso o brilho da aliança, uns dentes brancos entre as sombras e roço a mão suave de dedos esguios para voltar a dizer olá. Mas já os empregados da funerária, diligentes como anjos, transportam numa padiola o caixão, e um vento gelado soprando dentro de mim, como então, e procuro nos teus olhos a lembrança, mas tu baixa-los para ela, dás-lhe o braço ajudando-a a levantar-se, e os meus olhos de espião detêm-se paralisados no ventre que se arredonda no vestido negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro dia daquelas férias o avô veio lá a casa buscar-me, como todos os anos, no seu velho automóvel preto e fomos buscar-te à estação de caminhos-de-ferro junto do rio. Chegámos às 13:40. Eu e o avô descemos ao cais. Os nervos deram-me vontade de fazer chichi, por isso saltitava ora num pé ora noutro. Às 13:45 em ponto ouviu-se o apito rouco do comboio. Receoso procurei o teu rosto entre as dezenas de caras  que se esmagavam intimidadoras contra o vidro das janelas. Nessa altura as portas abriram-se e tu desceste, o primeiro de todos, com uns calções de bombazina que todos os rapazes usavam, uma camisa verde com emblemas nos bolsos, camisa que só alguns tinham, e um boné quadriculado de detective que te tinham trazido de Inglaterra e que mais nenhum rapaz tinha, e então ficaste ali, junto da mala preta do teu pai, olhando à tua volta, esforçando a vista, os olhos como duas frinchas verdes sob os loiros caracóis despenteados, e tornei  a sentir entre a garganta e a barriga essa dor que me cortava a respiração cada vez que te via e também quando pensava em ti, e gritei, ali está o Necas!, ali está o Necas!, e corri na tua direcção. Então viste-me, sorriste e abraçámo-nos com força, e também chegou o avô e deu-te umas palmadas no ombro dizendo, como cresceste, Manuel; e não te segurou na mala porque já tinhas treze anos e meio e eras mais forte que ele, de forma que tu mesmo a colocaste no porta-bagagem junto da minha vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos depois para casa pela rua íngreme, de onde se pode ver toda a baía, e pelo caminho fizemos toda a algazarra que quisemos no banco de trás: brincámos aos beliscões, demos socos um no outro, gritámos e chamámo-nos de tudo, até o avô parar o carro de repente e se voltar dizendo muito sério mas calmamente, não briguem, crianças, o que as pessoas têm de fazer é amar-se e ter piedade uma das outras, porque no fim todos vamos morrer. E, embora não entendêssemos a que se referia, deixámos de brigar. Depois de chegarmos a casa, a avó abriu-nos a porta, com o seu penteado esticado enrolado numa trança sobre o cocuruto, e beliscando-nos os dois na bochecha disse, agora hora da sesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles retiraram-se para o quarto e nós trepámos até ao nosso quartel-general de espionagem das águas-furtadas, onde brincámos a escrever palavras nas costas um do outro e a adivinhá-las. Ao princípio escrevíamos nomes de flores, narciso, lirio, dália, malmequer, cravo, e nomes de animais, cobra, touro, pantera, orangotango, e de pessoas que conhecíamos, mas depois de um bocado disseste que aquilo era aborrecido e que era difícil adivinhá-las por causa das camisas; então despi a camisa e deitei-me no sofá, a cara contra o cheiro a pó, a perfume e ao fumo do tabaco, e reparei que o teu dedo suave escrevia devagar palavras que antes nunca nos atrevêramos a dizer, primeiro c-u, depois c-a-r-a-l-h-o e finalmente f-o-d-a, e, enquanto eu sussurrava as palavras com voz sufocada entre os almofadões do sofá, notava como me ardia a cara e como o pénis endurecia-se-me contra o algodão das cuecas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde o avô e a avó saíam do quarto com as faces coradas, rejuvenescidos vinte anos, e às cinco em ponto chegava o tio Alfredo para o chá e nós tinhamos que abandonar o nosso quarte-general.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto a olhar para ti procurando os teus olhos que não me olham, para a tua cara imprecisa, para os fiozinhos brancos que vejo no teu cabelo, procurando em mim a dor aguda e selvagem, mas não consigo encontrar em mim senão farrapos de recordações unidos uns aos outros pelas pontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo-te novamente com treze anos e meio, quando, de repente, durante a hora da sesta, roçaste-me a cara com a ponta dos dedos, aproximaste-te de mim pelas costas e escreveste nelas devagarinho, palavra por palavra, gosto-muito-de-ti, e abraçaste-me com força. Deitaste-te no sofá e eu deitei-me em cima de ti, a cara na suave sombra entre o ombro e o pescoço, um cheiro a goma e a engomado emanando da tua camisa, e os teus dedos húmidos acariciando-me demoradamente a nuca, trémulos, esvoaçando entre o meu cabelo. Muito juntos sem nos movermos, mal respirando, só os caracóis galopando como cavalos desenfreados numa correria louca. Acariciei-te a cara lentamente, como se estivesse a esculpi-la de novo, e puxaste-me pela camisa, a tua mão fria pelas minhas costas de cima a baixo, até esse lugar agradável onde se fôssemos gatos nos tería saído o rabo, então pousei a boca na tua; as nossas línguas entrechocaram-se, rodearam-se e empurraram-se uma à outra como dois soldados assustados. Levantei a tua camisa até acima do teu peito, para unir a minha pele à tua pele cálida, e para além do volume duro nos calções, senti um dulçor entre as pernas, e isso obrigou-me a abri-las e a mover-me, esfregando-me, para trás e para a frente sobre o teu joelho e coxa; tu abraçaste-me com força, chupaste-me os lábios como se fossem caramelos, puseste a minha mão sobre a tua erecção, e a tua cara adquiriu uma expressão séria e frágil, ao ponto de ver através dela o que ninguém antes de mim tinha descoberto. Eu respirava muito depressa, como um pequeno animal sem esperanças, e ventre fundido contra ventre, mais e mais dulçor, até chegar a dor, até não poder mais e de repente aqueles espasmos no meu interior, o primeiro mais forte, agudo e longo e depois os outros curtos e rápidos como um bater de asas, e tive de conter-me, não fosse acordá-los, e desejei que nunca mais acabasse, mas por fim tudo acabou e caí sobre ti sem fôlego, com o pulso acelerado como depois de uma corrida, e vi que também tu estavas desvanecido, esforçando-te por respirar, a cara ardendo-te. Saí de cima de ti e deitei-me a teu lado, descobri uma grande mancha nos teus calções, e respirei agitado aquele odor tão vivo que não se parecia com nenhum outro odor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns dias mais tarde a avó disse-nos que o tio Alfredo tinha morrido no hospital e, enxugando as lágrimas, acrescentou, tinha uma doença muito má nos pulmões e a operação não correu bem. Vejo-nos neste cemitério anos antes como hoje em que o avô vai a sepultar. Tu estavas ali de pé, do outro lado da sepultura do tio Alfredo, e sabia que depois do funeral o teu pai te levaria para vossa casa, muito antes do fim das férias do Verão, porque a avó já não estava muito bem. Passados alguns meses, no Inverno, também ela morreria e o avô iria viver para um lar de idosos e continuaria a falar com a avó como se esta ainda continuasse junto dele, e nunca mais voltaríamos a estar juntos no nosso quartinho das águas-furtadas; só às vezes, antes de adormecer, te porias de gatas sobre mim olhando-me com as pupilas amarelas e eu sussurrar-te-ia, vem, e sentiria o teu coração a bater sobre o meu peito, até ao último tremor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enxugo as lágrimas e aproximo-me como todos os outros da cova. Todos eles vão saindo, mas eu fico um pouco mais junto da sepultura do avô, sabendo que tu estás aqui a meu lado. De perto já podes ver que também eu já tenho rugas na testa e bastantes cabelos brancos. pousando-me a mão no ombro, dizes-me, vamos. À nossa frente vão a minha mãe e o teu pai cochichando acerca dos planos da Câmara para derrubar a casa velha e cortar o pequeno bosque para construir apartamentos de luxo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115918967770458624?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115918967770458624/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115918967770458624&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115918967770458624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115918967770458624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/hora-da-sesta.html' title='A hora da sesta'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115893855013799471</id><published>2006-09-22T15:25:00.000+01:00</published><updated>2006-09-22T18:48:27.236+01:00</updated><title type='text'>Sem pressa, sem culpa, sem limites</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele acordou com um galo a cantar, ainda fazia escuro lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galo? Ah,  faculdade, férias,  a aldeia, a quinta, Hélder, sexo, lembrou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava sozinho. O quarto pareceu-lhe enorme. Levantou-se da cama, pisou a roupa espalhada pelo chão. Olhou em redor: mala desfeita; lençóis revirados e a cheirar a sexo; uma espécie de emplastro finissimo colado nos pêlos do fundo das costas; que confusão que para aqui vai, pensou, que confusão vai na minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestiu uns calções, calçou uns ténis sem meias, pôs uma t-shirt qualquer e saiu do quarto sem o arrumar. Era impossível arrumá-lo sem antes ter arrumado a cabeça. Quase que correu até à cozinha, sem fazer qualquer barulho. Não, não queria acordar Hélder, que ainda devia estar a dormir no outro quarto. Na verdade, não queria nem saber se o outro estava ou não. Só não queria encontrar ninguém naquele preciso momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu pela porta da cozinha que dava para o quintal das traseiras, com um copo de água na mão. Procurou por um barracão, que ele sabia haver porque Hélder lhe contara antes. Queria esconder-se, queria pensar no que lhe havia acontecido. Não que não soubesse o que tinha acontecido, sabia muito bem, mas queria entender como, porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrou o barracão: porta fechada a cadeado. Voltou a correr a casa, entrou pela cozinha, agarrou nas chaves, cuidado para não fazer barulho, e voltou para abrir o cadeado. Entrou, fechou a porta e abriu uma janela, deitando-se no chão, com os olhos postos nas telhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou pensar na namorada, bater uma punheta lembrando-se dela, talvez. Mas já nem era capaz de se lembrar dela, nem do seu rabo, nem das suas mamas. Nem que fosse só para uma punheta maquinal, que afugentasse para longe a imagem que tinha de si próprio. Foda-se, estou aqui apenas há um dia, mas parece que já passou tanto tempo, parece que tanta coisa aconteceu já, tão distante que está já essa relação, pensou. Tentou pensar nos amigos, nas festas, nos bares, nas discotecas, mas não foi capaz de se lembrar de nada. Parecia que tudo aquilo fazia parte de um passado muito remoto. Que a sua vida não passava de um monte de mentiras, inventadas para ele mesmo, para manter as coisas aceitáveis para si, mas sobretudo para os outros. Mentiras que eram recontadas, recontadas, infinitamente, até que ele e todos os outros acreditassem como sendo verdade. E que, de resto, nada havia mudado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudado? Não, não queria aceitar que alguma coisa tivesse mudado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não podia ser. Talvez tudo tenha acontecido por causa da cerveja, muita cerveja, ele nem estava habituado a beber tanto. Ou podia ter sido por causa da mudança para a cidade grande, por se ter sentido sozinho pela primeira vez na vida, sem os amigos, por ter que enfrentar a faculdade longe do calor do ninho, sem os pais, ou por ter encontrado aquele filho da mãe do Hélder, aquele paneleiro, pronto para foder com o primeiro que lhe aparecesse à frente, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu o galo cantar. Foda-se, cala-me esse bico, pensou, não vá acordar o Hélder, não vá acordar o mundo inteiro, merda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não queria que ninguém acordasse naquele dia. Não queria ver ninguém! Sentia-se perdido, ali, deitado no chão, na quinta dos tios do Hélder que estavam emigrados na Suiça. E o raio do galo cantava e cantava, como se quisesse acordar todos e expô-lo a toda a gente naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vãos das telhas começavam a deixar passar os primeiros raios de sol. Não, não amanheça, eu ainda não estou preparado! Ainda não sei como olhar para mim mesmo! Ainda sinto as vibrações da madrugada, ainda estou a sentir os braços entrelaçando-se, os corpos enovelando-se, as línguas enroscando-se, os suores misturando-se. Não, não amanheça ainda! Ainda não sei como olhar para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confuso, lembrou-se da infância e da adolescência naquela casa de E., uma rua sem saída, primeiro andar, cinco quartos, sala, cozinha, duas casas-de-banho, quintal, cão, vizinhos, mercearia, padaria, igreja e escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se das brincadeiras com os rapazes e raparigas da sua rua, lembrou-se de duas, não, de três professoras primárias, das brincadeiras aos indíos e cowboys com o seu melhor amigo, o Alberto, de umas sem-vergonhices com ele, um mostrando a pila ao outro, depois roçando, depois um encoxando o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se da piscina municipal, quando ficava a olhar para os calções dos mais velhos, tentando adivinhar o tamanho do pénis de cada um, principalmente o de Artur, lembrava-se até do nome dele, um rapaz grande na sua visão de rapazito quase púbere: pernas e braços fortes, torneados, tórax bronzeado, bem definido, um delta de pêlos afunilando para dentro dos calções pretos, justinhos, marcando muito o contorno do seu membro e testículos, lá, do outro lado, na beira da piscina enorme, intransponível. Ele também, enorme, inatingível. Lembrava-se claramente. Lembrava-se que um dia até sonhou com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se do terreno baldio que havia na rua paralela à de sua casa, do canavial que ele e o Dionísio descobriram um dia nas férias da páscoa. Naquela época parecia enorme e muito denso. Lembrou-se de que exploraram o canavial durante vários dias, sem contar a ninguém, e tomaram posse dele como se fosse propriedade só deles. Depois passaram a visitá-lo às escondidas, só os dois, inventando jogos e brincadeiras que só eles conheciam, um conquistando a confiança do outro. Quando se sentiram seguros quanto aos segredos entre eles, começaram a explorar o corpo um do outro, passaram a tocar-se, a acariciar-se, a beijar-se secretamente, até que, depois de muito se esfregarem, descobriram o que era a ejaculação. Não, já não eram crianças: treze, catorze anos, talvez, mas, com toda a certeza, já tendo entrado na puberdade. Não, não sabiam ainda do que se tratava, não tinham responsabilidade sobre os seus actos. Mas já sabiam o que era ter prazer com o sexo. E, excitados, inventavam sempre dsculpas para regressarem ao canavial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de que, já um pouco maior, preferiu muitas vezes viajar com os amigos, deixando a namorada para trás, porque acabava sempre por dormir numa cama ou num saco cama com um colega de turma, tomarem banhos juntos, havia sempre um contacto fisico qualquer. E que, só de imaginar o que podia acontecer nessas viagens, ele ficava logo excitado, arranjando facilmente uma boa desculpa para não levar a namorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se das vezes que foi a concertos de bandas de rock, e agora percebia que ia só para ver os roqueiros com calças muito justas que delineavam os seus rabos e sexos, peitos descobertos, mexendo o corpo de tal maneira que ele ficava com tesão só de ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de como se excitava ao ver alguns actores dos filmes que trazia do videoclube para ver em casa, sozinho, sem ninguém para reprimir. Lembrou-se de que fixava a atenção nos homens durante as cenas de sexo, que não descolava os olhos dos corpos deles. E que rebobinava e rebobinava a cassete para não perder ou para rever os detalhes. Agora sabia porque sonhara tantas vezes com aqueles corpos e acordara excitado, com o pau comprimido entre a sua barriga e o colchão. E como, a toda a velocidade, punha o pensamento na namorada para poder inocentar-se daquela tesão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de como justificava, para si mesmo, cada uma desas atitudes, de como tinha sempre uma explicação que para ele bastava, lembrou-se de como negava o que agora sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se, lembrou-se. Lembrou-se disto e daquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensou, pensou. Pensou nisto e naquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se, abriu a porta do barracão, encontrou o dia já claro, ouviu o galo cantar mais uma vez. Já não se importava que pudesse acordar toda a gente. Caminhou até à porta da cozinha, entrou, dirigiu-se até ao quarto de Hélder, abriu a porta e encontrou-o acordado, ainda nu, deitado na cama, meio encostado na cabeceira, olhando-o, sorrindo-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para ele, pensou que nada seria o mesmo na sua vida daquele momento em diante, pensou em tudo o que teria que mudar, pensou nas pessoas e pensou nas dificuldades que teria que enfrentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sorriu tranquilo. Sem pressas, sem culpas, sem limites.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115893855013799471?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115893855013799471/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115893855013799471&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115893855013799471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115893855013799471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/sem-pressa-sem-culpa-sem-limites.html' title='Sem pressa, sem culpa, sem limites'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115883212963690280</id><published>2006-09-21T09:35:00.000+01:00</published><updated>2006-09-21T11:21:46.146+01:00</updated><title type='text'>Colecção de acidentes</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tinham-se conhecido apenas dois anos antes, numa reunião dos Alcoólicos Anónimos. Miguel era novo na vila e acabara de concluir um trabalho rápido e estúpido de pintura de sinalização horizontal em algumas estradas do extremo sul do concelho. De súbito, tivera necessidade de um advogado e por isso telefonara a António no dia seguinte. «Estava a pensar se podíamos fazer negócio», dissera Miguel. «Entre velhos bêbados.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Talvez», respondera António. Podia ser cego e um alcoólico em vias de recuperação, mas, com a ajuda de Isabel, a secretária, tinha conseguido montar um escritório decente e  não prestava os seus  serviços de graça. Uma boa troca, contudo, agradava-lhe. Tornava-lhe a vida mais fácil, a ele que era cego. Afinal de contas, era um indíviduo prático. Debaixo de todas as suas excentricidades, tinha um laivo de pragmatismo tão agudo e profundo que os outros o confundiam com sanidade mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Meti-me num sarilho», explicara Miguel, contando a António as dificuldades de ser um pintor por conta própria, novo na vila e bom para ser chutado, que o raio de algumas donas de casa eram tão complicadas que nunca ficavam satisfeitas com um trabalho realmente profissional e que, bem, tinha um processo em cima. «Acusam-me de ter pintado mal uma casa, Sr. Amorim. Mas a única maneira que tenho de lhe pagar é pintando-lhe a casa. Tem alguma casa a precisar de pintura?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Uma casa mal pintada, quer para a acusação, quer para a defesa?» António lançou uma gargalhada sonora. Adorava uma boa gargalhada: atraía o Hudson para ao pé dele. «Isso é a mesma coisa que dizer que é procurado por falsificação de moeda, mas que pode pagar-me em dinheiro.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Desculpe», disse Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não tem importância», disse António. Ficou com o caso de Miguel, safou-o o melhor que pôde («A arte mais importante do mundo», dissera António ao juiz quando estavam a negociar o acordo, «é conhecida pelas suas imperfeições.») e depois fez com que Miguel lhe pintasse a casa de um azul flor de milho, claro e compensatório. Ou seria, como sugeriu um vizinho, delfínio em certas zonas estriadas? À hora do almoço, António saiu do escritório, que ficava ao cimo da rua, foi até casa e parou no acesso à garagem, o Hudson sentando-se-lhe aos seus pés. Miguel encontrava-se no escadote, por cima deles, a trautear uma qualquer canção lúgubre e de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Como vamos por aí, Miguel?» perguntou António. Tinha o cabelo escuro, comprido e eriçado como uma corda e mexia-lhe muitas vezes enquanto falava. «Os vizinhos dizem-me que tenho os arbustos todos azuis.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não foi possível evitar uns salpicos», disse Miguel, infeliz. Ao contrário dos outros pintores, nunca usava oleados. Nem sequer os tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, isso não me fere a vista», disse António, batendo expressivamente nos óculos de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas depois, enquanto pintava a janela lateral do sotão, Miguel, uma vez e outra, ouviu António dentro de casa, ao telefone com um amigo a resfolegar numa gargalhada sonora e relinchante: «Ena, sabes que mais? Tenho arbustos azuis!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou: «Mandei pintar as moitas de azul. O novo rico (atenção) estará sempre entre vós.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a casa já estava quase pronta e as folhas dos carvalhos começavam a acumular-se no chão em pilhas douradas e rubi, da cor das pêras, e os fins de tarde desciam rapidamente, desaparecendo naquele longo diluente que era o começo de uma noite de inverno, Miguel começou a ficar até mais tarde e a empatar: para tomar um chá ou um café, para jantar e outra vez para tomar um chá ou um café. Gostava de observar o desembaraço de António, que não queria ajuda, na cozinha, enquanto este fazia pratos simples: massas, ervilhas, saladas, pão com manteiga. Miguel gostava de falar com ele sobre as reuniões dos Alcoólicos Anónimos, trocando histórias sobre aquelas bebedeiras fantásticas que moravam nas memórias de ambos como se fossem canções maravilhosas e sobre aquelas outras que se tinham limitado a dar-lhs cabo da vida. Observava a face de António à medida que o cansaço ou o carinho se derramavam, atravessando-a em pequenas ondulações. Era cego de nascença e nunca adquirira as manhas e as dissimulações dos visuais; o rosto dele permanecia desprendido, destreinado, uma tela em branco, transparente como os gases de um bebé, claro até ao fundo de si mesmo. Numa cara tão desarmada e desarmante, uma pessoa via o seu próprio ser inocente e, por vezes, encolhia-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Miguel descobriu que não era capaz de se ir embora. Não inteiramente. De facto, não. Ajudava o António a escovar o cabelo comprido para trás, prendendo-o com uma tira de couro. Trazia-lhe presentes que rapinava quando ia à cidade. Um livro de geografia em Braille. Uma camisola com uma nódoa de café numa manga - que roubara de uma loja de coisas em segunda mão -, seria isso demasiado malévolo? Bases de cortiça para as intermináveis canecas de António.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tenho uma dívida de gratidão para contigo, meu caro», dissera António de todas as vezes, falando, tal como acontecia ocasionalmente, como se fosse o maldito dum apaixonado do século XIX, ao mesmo tempo que tocava na manga de Miguel. «Tu és o homem mais bondoso que alguma vez tive cá em casa.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E talvez porque as coisas que António melhor conhecia eram o toque e as palavras, talvez porque Miguel tivera uma vida de cão em que tudo lhe estraçalhara os sentimentos, ou talvez porque a terra se tivesse inclinado para a sombra e para o frio, e o maldito futuro parecesse estar todo mergulhado naquela tinta de má qualidade, uma noite, na sala de estar, depois de um beijo que se limitou a surpreender Miguel e, mesmo assim, apenas um pouco, Miguel e António tornaram-se amantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo havia alturas em que Miguel ficava completamente desconcertado. Como se tinha ele metido nisto? Que murro suave nos dentes o tinha feito ir parar o carreto a este novo sitio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A incerteza acaba por dar em timidez, e a timidez, dizia sempre António, é o que dá coesão ao mundo. Ou, melhor, era o que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;costumava&lt;/span&gt; dar coesão ao mundo, era o que costumava impedi-lo de enlouquecer com o caos. Agora (agora!) era outra história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra história? «Eu não gosto de histórias», disse Miguel. «Eu gosto de comida. Gosto das chaves do carro.» Fez uma pausa. «Gosto de biscoitos salgados.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«'tá bemmm», disse António, delineando o contorno do seu próprio ombro e, em seguida, do de Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tu fartas-te de fazer isto, não é?» perguntou Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Faço o quê? Ajudo o faz-tudo a subir de escalão?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Metes na cama um gajo "normal" e matulão que tu pensas que é um bocado burro.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Eu nunca faço isso. Nunca fiz», inclinou a cabeça para um lado, «antes». Com as pontas chatas dos dedos amendoados, tocou no braço de Miguel, como se fosse um teclado. «Nunca antes. Tu és a minha grande experiência sexual.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas, estás a ver, tu és a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;minha&lt;/span&gt; grande experiência sexual», insistiu Miguel. Na vida anterior a António nunca teria imaginado estar na cama com um lingrinhas nu de óculos escuros. Nem com outro qualquer. «Então como é que isto pode ser?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Querido, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;sendo&lt;/span&gt;.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas alguém tem de tomar conta disto. Como poderemos sobreviver os dois a uma grande experiência sexual? Alguém tem de estar ao leme do barco.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Oh, que se lixe o barco. Vai correr tudo lindamente. Estamos juntos nisto. É sorte. É a vontade de Deus. É sincronicidade! Um achado! O País das Maravilhas! O fado! Camelot! Annie, querida, Saca da Merda do Pistolão!» António estava aos guinchos. E, esforçando-se para retomar o fôlego, continuou: «Pensa assim: estás em terra de cegos, mas o rei é o que não vê. Isto é capaz de resultar. Não é impossível.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã o telefone tocava demais, o que às vezes aborrecia Miguel. Onde estavam os biscoitos salgados e as chaves do carro quando, de facto, era preciso? Constatava que António sabia a distância exacta entre o braço e o auscultador, que levantava com ligeireza de um só gesto. «Estás &lt;span style="font-style: italic;"&gt;sans&lt;/span&gt; ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;avec&lt;/span&gt;?» perguntavam os amigos de António. Falavam alto e em forma teatral (como se estivessem a dirigir-se a uma pessoa surda) e Miguel ouvia sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Avec&lt;/span&gt;», respondia António.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Uhhhh», diziam num arrulho. «E como está o hoje o Sr. Avec?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Devias trazer a tralha para cá», disse António uma noite, por fim, a Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É isso que tu queres?» Miguel deu por ele a adiar de uma forma que lhe era desconhecida. Nunca antes dormira com um homem, se calhar era isso, embora, há muitos anos, tivesse havido aquelas noites em que a ex-mulher punha tanta maquilhagem e cabedal, que o género dela podia ser o que desse mais jeito: Miguel achara isso curiosamente sedutor, auto-suficiente, era algo que não precisava dele e, por isso, quisera chegar perto, chegar lá, aprender o que era, fazer com que necessitasse dele, levá-lo, fazê-lo morrer. Tinham sido noites insólitas e ousadas, em que entre ambos surgira uma crueza que mais parecia vinda de uma briga entranhada e de antanho do que de um casamento. Mas, por fim, tudo lhe permanecera ilegível, embora sentisse que a leitura era algo desconforme à natureza e à qual não se devia submeter as pessoas. Regra geral, as pessoas não eram mapas de estradas. As pessoas não eram hieróglifos nem livros. Não eram histórias. Uma pessoa era uma colecção de acidentes. Uma pessoa era uma pilha infinita de rochas com coisas a crescer lá debaixo. regra geral, quando alguém ansiava por amor, pegava numa mulher, possuí-a com cuidado e sem grandes esperanças até, por fim, se abandonar, dormir, acordar e, mais uma vez, ela lhe escapar. Depois recomeçava-se. Ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, em António nada parecia evasivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Se é isso que eu quero? Claro que é isso que eu quero. Não sou um panfleto com pernas a bradar pelo desejo?», perguntou António. »Em Braille, claro, mas mesmo assim sou. Constata-o. Muda-te. Tomam-me.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Então, 'tá bem!", disse Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;PS:&lt;/span&gt; manuel, quanto à foto da Nan Goldin. Para mim, a beleza não está no acto captado, mas antes no enquadramento, na cor e na textura, na crueza e na posição dos corpos. Atenta para o rosto daquele que tem os dedos na boca e no abandono, eu sou capaz de ver ali qualquer coisa de religioso, de místico. É essa a força que encontro nessa foto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115883212963690280?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115883212963690280/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115883212963690280&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115883212963690280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115883212963690280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/coleco-de-acidentes.html' title='Colecção de acidentes'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115875551360939808</id><published>2006-09-20T13:25:00.000+01:00</published><updated>2006-09-20T13:31:53.623+01:00</updated><title type='text'>A vida secreta das imagens* I</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/1600/nan%20goldin.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/320/nan%20goldin.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Nan Goldin, Clemens and Jens making love - hand in mouth, 1999,&lt;br /&gt;cibachrome print, 72x104cm&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Esta é uma das muitas fotografias que fazem a minha imaginação começar a trabalhar a toda a velocidade, mas, na verdade, não sou capaz de lhe dar uma vida que faça justiça à sua força. Portanto, fica só a fotografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;*Título pilhado a Al Berto. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Vida Secreta das Imagens&lt;/span&gt; é uma edição Contexto&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115875551360939808?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115875551360939808/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115875551360939808&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115875551360939808'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115875551360939808'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/vida-secreta-das-imagens-i.html' title='A vida secreta das imagens* I'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115875123052419943</id><published>2006-09-20T11:56:00.000+01:00</published><updated>2006-09-20T12:26:11.450+01:00</updated><title type='text'>Infidelidades</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Como estás?&lt;br /&gt;- Bem, ocupado e zangado. Para variar...&lt;br /&gt;- Estás com um ar exausto.&lt;br /&gt;- Ora, não é surpresa, pois não? Até tenho medo de despir o casaco. Estou todo a escorrer.&lt;br /&gt;- Porque é que estás zangado?&lt;br /&gt;- Ontem tive uma cena terrível com a minha mulher porque era Dia dos Namorados e nesse dia tem que se ter uma cena. Alguém lhe tinha dito que ela não era a mulher que me convinha porque, de facto, eu gosto de mulheres com iniciativa e eu, claro, fiquei indignado... mas às vezes pergunto a mim mesmo...&lt;br /&gt;- Bem, talvez por ser o Dia dos Namorados, acordei a meio da tarde e tive a sensação terrível de ter a tua mão sobre a minha pila. Agora que penso nisso, podia ser a minha mão. Mas não era, era a tua.&lt;br /&gt;- Não era de ninguém. Era um sonho.&lt;br /&gt;- Pois... chamava-se: «Sê meu namorado.» Como é que me prendi tanto a ti?&lt;br /&gt;- Acho que é porque passas o dia inteiro fechado neste quarto. Aqui sentado não tens que ter mais experiências novas.&lt;br /&gt;- Tenho-te a ti.&lt;br /&gt;- Sou como outro qualquer.&lt;br /&gt;- Ai isso é que não és. És lindo.&lt;br /&gt;- Sou? Achas que sim? De facto, sinto-me um pouco em mau estado. Sinto-me bastante mais velho.&lt;br /&gt;- Há quanto tempo já?&lt;br /&gt;- Nós? Há cerca de um ano e meio. Continuo a fazer o mesmo de sempre, só que agora tenho-te também a ti. De facto nada sei a teu respeito, sabes? Claro, pelo que me tens contado, sei um pouco. Mas não muito. É difícil conhecer alguém num quarto.&lt;br /&gt;- Bem, é isso que nos resta.&lt;br /&gt;- Suponho que sim. A vida é assim.&lt;br /&gt;- E não há outra.&lt;br /&gt;- Porque é que não me dás uma bebida?&lt;br /&gt;- Estás à beira das lágrimas, não estás?&lt;br /&gt;- Estarei? Tenho uma ânsia tão urgente de privacidade. Já nem me lembro há quanto tempo desejo dormir sozinho. Bem, isso é um exagero. Mas no fim do dia, quando estou verdadeiramente cansado e surge outra batalha emocional... E não só isso, mas a distracção de alguém a dormir ao meu lado. Temos uma cama muito grande, mas não o suficiente. É tão triste, não é? Quer dizer, ela tem tantas qualidades maravilhosas... Por favor, dá-me uma bebida? Hoje não estou lá muito estável. Acho absolutamente intolerável que ela me diga: «Desisti de tanta coisa por tua causa e não valeu a pena.» É &lt;span style="font-style: italic;"&gt;tão&lt;/span&gt; doloroso. E ela disse isso duas vezes nestas últimas semanas. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Porque&lt;/span&gt; é que as coisas não melhoram? Damo-nos tão &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bem&lt;/span&gt;! E, na verdade, eu gosto dela. Sentiria imenso a sua falta se ela não existisse. Há tanta coisa que eu gosto nela... Seja como for, eu não devia continuar isto contigo.&lt;br /&gt;- Porquê?&lt;br /&gt;- Ora, não sei o que quero.&lt;br /&gt;- O que tu queres é não estar mais nesta situação.&lt;br /&gt;- Será isso que eu quero? Será?&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;*&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;**&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;- O que vai acontecer quando ela te perguntar como é que ficaste com essa nódoa negra na coxa?&lt;br /&gt;- Já o fez?&lt;br /&gt;- Sim? Então?&lt;br /&gt;- Disse-lhe a verdade. Digo sempre. Assim nunca se é apanhado a mentir.&lt;br /&gt;- O que lhe disseste?&lt;br /&gt;- Disse: «Ganhei esta nódoa negra num amplexo apaixonado de um professor desempregado num apartamento sem elevador, na Graça.»&lt;br /&gt;- E...?&lt;br /&gt;- Parece ridículo e todos riem.&lt;br /&gt;- E tu manténs a ilusão de ser um homem sério.&lt;br /&gt;- Absolutamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;PS:&lt;/span&gt; maria, o sininho também não tem nada a ver com o Buarque. Foi antes um momento &lt;span style="font-style: italic;"&gt;non sense&lt;/span&gt; provocado, talvez, pela recordação dos tempos em que fui freak. :)&lt;br /&gt;Leitor genuinamente Anónimo, troque lá a água das pedras por um gin tonic ou por um vodka com imenso gelo picado :)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115875123052419943?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115875123052419943/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115875123052419943&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115875123052419943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115875123052419943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/infidelidades.html' title='Infidelidades'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115866985890316833</id><published>2006-09-19T13:25:00.000+01:00</published><updated>2006-09-19T13:44:19.023+01:00</updated><title type='text'>Num minuto vi-te envelhecer sete anos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fui hoje comprar carne de porco. Num minuto vi-te envelhecer sete anos, vindo do estrangeiro, a comprar compotas e um jornal desportivo. Rimos, dissemos nostalgias como se fossem novas desse dia e, no meio de palavras indecisas, caiu-te ao chão um plástico com ovos. O sobressalto da vida já não saía de novo para os lábios que dantes corriam em imprecações. Tinhas casado, não tinhamos feito nunca a troca do amor, estávamos agora a escolher coisas para o jantar. As tuas mãos tinham tocado aços, os mesmos que dantes impediam que levasse as minhas até ti. Já tinhas filhos, "havia de os ver", disseste tu, e combinámos para daí a dias. "Havia de esquecer-me", ria-me eu, enquanto apanhavas os ovos esmagados. A troco de uma moeda de um euro, rapazes empurravam os carrinhos das compras até os automóveis no passeio em frente. O vento levantava jornais podres, papéis de embrulho com marcas de produtos, restos ressequidos da cidade tardia. Pouco a pouco haveria de chover, de vir mais vento, mais gente para dentro de pequenas casas; e à noite adormecem, e de manhã limpam o pó, depois lavar a cara, depois a louça suja do jantar da véspera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:85%;" &gt;Nota:&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;Uma espreitadela rápida aos arquivos deste blog fez com que tomasse consciência de que há um grande número de textos onde a experiência homossexual é contada do ponto de vista do homem casado. Questionei-me sobre a razão. Não sou casado nem pretendo vir a ser. Desde muito jovem que a noção família é, para mim, constituída por dois homens. Será, de alguma forma, um ajuste de conta pelo facto de ao longo da minha vida terem sido os homens casados aqueles que mais se sentem atraídos por mim?! Não pode ser só isso, pelo menos eu não quero crer que seja isso.  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115866985890316833?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115866985890316833/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115866985890316833&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115866985890316833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115866985890316833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/num-minuto-vi-te-envelhecer-sete-anos.html' title='Num minuto vi-te envelhecer sete anos'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115858862039825876</id><published>2006-09-18T12:54:00.000+01:00</published><updated>2006-09-18T18:24:33.826+01:00</updated><title type='text'>Nada existe que não toque noutra coisa</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quinze ou dezasseis anos mais novo do que sou agora, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;estava perdido no meio da floresta&lt;/span&gt;,&lt;span style="font-style: italic;"&gt; completamente extraviado do caminho certo&lt;/span&gt;: a minha vida consistia em vaguear, para aqui, para ali, num estado permanente de semi-embriaguez por repugnância pela vida e pelo desejo de não existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite de Verão, num café na pequena cidade de ***, onde por acaso fui parar, encontrei o Joaquim ou ele encontrou-me a mim. Tinha uma cara simpática, carinhosa e inteligente, - vestia roupas em tons de pastel, leves como gaze, que sussuravam a cada movimento dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"E se fossemos agora para a cama?" Nem uma hora tinha passado quando disse isto, ou foi o Joaquim que o disse, - é a linguagem indolente daqueles anos, depois da revolução: a linguagem do tédio mortal, da amargura e da desilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei com ele dois ou três dias e depois pus-me outra vez a caminho, no meu carro, sozinho, à procura, esquecendo o Joaquim e pouco a pouco esquecendo tudo acerca dele, até mesmo o seu nome, - mas de longe a longe ainda aquela pequena cidade regressava à minha memória: que estava enfeitada com bandeiras e estandartes, verdura, flores, tapetes e altares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O período de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;vaguea&lt;/span&gt;r e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ir por acaso&lt;/span&gt; agora terminou, encontrei o meu abrigo e recentemente a minha mulher ainda deu à luz uma filhinha, mais ou menos na altura em que eu, não presente no parto por aversão, olhava para o espelho e, invadido de angústia, não reconhecia a minha cara. Vi que o couro cabeludo transparecia na cabeleira que tinha tido outrora, e que no cabelo que me restava tinham aparecido traços brancos. Mais um bocadinho e vejo no espelho o retrato do meu pai, tal qual como ele olhou durante dezassete anos para a minha mãe, do seu lugar em cima da televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as peças de cenário e todos os bastidores entre os quais decorre a minha vida estão onde e como devem estar, - a minha vida chegou quase ao final do segundo acto, muito perto do intervalo. Vigio meticulosamente para que essas peças de cenário e bastidores fiquem onde e como estão: se um cair, caem todos, esmagando-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano passado, aproximadamente um mês antes da morte da minha mãe, por altura do Natal, voltei a estar na pequena cidade de *** e, após todos aqueles anos, voltei a encontrar o Joaquim ou ele voltou a encontrar-me a mim. Eu estava numa festa: na sala onde me encontrava, cheia de pessoas alegres e risonhas a beberem, encontrava-se ele também, de repente - no momento em que o vi, ele viu-me a mim. reconheci-o com todo o meu corpo: algures na minha cabeça ligou-se um projector e em dois segundos passou por mim o filme que julgava já ter esquecido completamente. Por entre a agitação de corpos vestidos de modo festivo, o Joaquim veio ter comigo, como que por entre uma cidade enfeitada, cheia de bandeiras a flutuar (o Joaquim rindo-se; o Joaquim olhando pela janela do seu apartamento, ele vive por cima de uma relojoaria; o Joaquim nu e a forma como o acaricio; o Joaquim participando numa procissão; tudo a cores, - um pequeno acontecimento insignificante na minha vida, mas quinze ou dezaseis anos mais tarde provocam um ribombo por detrás dos bastidores e via os cenários a vacilar.) Enquanto a minha cara ainda se ria, senti crescer dentro de mim uma grande tristeza , alimentada por remorsos: pela minha indolência, por aqueles anos em si, que tinham sido tão cheios de vazio, e por mim próprio, por ser como sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos ambos mais velhos, dissemos um ao outro. Mesmo assim ele continua anos mais novo do que eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sussurrar da sua roupa e o tom da sua voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto tornaste-te uma verdadeira celebridade, disse-me ele. Sim, disse eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é feito do teu sininho?, perguntou-me com aquele riso dele. Foi-se, disse eu, hoje em dia passo pela vida em silêncio. E tu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu, como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda és professor?. Sim, ele era ainda professor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De resto não mudaste nada, dissemos um do outro, embora fosse claro que isso não era verdade. Quanto a mim, não tendo mudado mudei completamente, vivo ainda no mesmo corpo, que ao mesmo tempo já &lt;span style="font-style: italic;"&gt;não&lt;/span&gt; é o mesmo corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sininho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias em que o Joaquim e eu nos encontrámos pela primeira vez, eu usava, ao fundo da perna direita das calças, do lado de fora do tornozelo, um sininho de prata, - sem mais nem menos, passo-tlim-passo, Edu ao engate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora já não sou assim. Agora aquelas calças já não me ficariam bem. sob vários aspectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De resto não falámos muito, mas era óbvio que pensavamos na mesma coisa e que bastaria dizer um ao outro o mesmo que há anos atrás para pegarmos na mão um do outro e deixarmos a festa e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estou farto de dramas que no passado se desenrolaram nos meus cenários e bastidores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O melhor que as pessoas podem desejar umas às outras é: que não venham a amar-se." (Eu, numa entrevista.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nada existe que não toque noutra coisa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115858862039825876?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115858862039825876/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115858862039825876&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115858862039825876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115858862039825876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/nada-existe-que-no-toque-noutra-coisa.html' title='Nada existe que não toque noutra coisa'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115850185104304627</id><published>2006-09-17T13:52:00.000+01:00</published><updated>2006-09-17T15:04:11.166+01:00</updated><title type='text'>Aula de pintura e/ou o dia seguinte</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O quadro&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No canto esquerdo do quarto. Óleo sobre tela, 112cm x 153 cm. A mulher olha pela janela e observa um ponto que não vemos. Está desamparada; a sensação de abandono é óbvia. Tem nas mãos uma toalha - escudo para o mundo exterior? - que agarra distraidamente, tornando-a ainda mais vulnerável. O quarto está relativamente escuro, apesar da manhã que se abre azul e sem nuvens. A cama ainda desfeita e as paredes de cores frias contribuem para dar ao quadro um ar nostálgico. Tudo sugere silêncio. E é o quadro preferido do professor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O professor&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entrou na sala timidamente, embora com passos firmes, e deixou livros e telas sobre a madeira escura da mesa. Apresentou-se, explicou a proposta de &lt;em&gt;workshop&lt;/em&gt; para que havia sido convidado a coordenar, pediu para que cada aluno falasse um pouco de si e deu início à primeira aula.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Falava do pintor como quem toca com cuidado no campo do sagrado, do divino. Explicava perspectiva, abstracção, luz e carácter psicológico. Dizia que "as concepções supostamente realistas não são simples representações de uma realidade descritível, mas reconstituições (e aqui a entoação ganhava força) que transcendem a mera experiência". Andava de um lado para o outro envolto em elocubrações sofisticadas e não parecia notar nada em seu redor. Para angústia do aluno.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O aluno&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era um dos vinte jovens que se inscreveram no &lt;em&gt;workshop&lt;/em&gt;, e encontrava-se na última fila. A camisola encarnada dava maior intensidade ao cabelo extremamente preto e liso. Os olhos também negros eram emoldurados pela armação grossa dos óculos previsivelmente pretas. A camisa branca e os jeans conferiam a leveza que os seus 26 anos exigiam.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Foi o último a apresentar-se e disse apenas o nome, a idade, onde estudara e o motivo para estar ali - aprender. Não disse que era, ele próprio, professor - português e francês. Também não falou dos quadros que havia exposto numa galeria de Lisboa. Nem do concurso nacional para jovens pintores que havia ganho. E esclareceu tão pouco, em parte porque a timidez não o deixaria ir mais longe, em parte porque não achava necessário.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E encantou-se com a presença pertubadora do professor. Como se jamais se tivesse encantado. E olhava-o como quem procura algo vital. Com olhos que exigem atenção. Já!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O imprevisto I&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O professor desceu os olhos sobre o aluno e interrompeu a palestra. Como se agora visse uma novidade no modo com que o jovem o fitava. Talvez Narciso admirando-se a si próprio pela admiração patente do outro, vendo-se a si mesmo no espelho dos olhos alheios. Ou não.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas como saber?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A luz&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Talvez fosse melhor, afinal de contas, falar dos quadros que havia exposto - quando a aula chegasse ao fim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A forma&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todos aplaudiram a notável apresentação. A maioria da turma saiu, uns ficaram para trocar ideias. O aluno esperou que o último se fosse e foi ter com o professor. Chegou timidamente e não sabia como começar a conversa. Foi o professor que perguntou se tinha gostado. "Claro. Muito". E falou dos seus quadros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Adoraria vê-los - disse o professor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não é nada demais, é só...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O imprevisto II&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Tenho a seguir uma reunião na Cãmara Municipal, mas depois estarei livre... poderíamos encontrar-nos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aquele brilho já ali estava nos olhos. Aquele fulgor era só impressão ou realidade? O aluno contraiu os músculos das pernas - mero hábito -, e já sentia as palmas das mãos suadas&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Óptimo, por mim tudo bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Conheces algum lugar onde poderíamos ir?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Há o C., mas fica sempre cheio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não, decididamente não quero um lugar cheio. Nada mais calmo? - Novo fulgor nos olhos do professor, mais calor no corpo do aluno.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A T. está quase sempre vazia. Tem música jazz, blues... nada muito barulhento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Parece perfeito. Como vou lá ter?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E o aluno deu todas as direcções. "Às nove da noite", marcaram. No final, um aperto demorado de mãos. E a troca de olhares insinuantes. Então: "ciao".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A perspectiva&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era cedo para o aluno se pôr a imaginar, mas parecia inevitável. Fora sempre assim, não seria diferente agora. E havia isto: o professor morava longe, a três horas de distância. O homem era demasiado perfeito para que o deixasse sozinho nos labirintos sem fim das noites de Lisboa. Não, ficaria louco só de imaginar as possibilidades que se lhe ofereceriam.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aluno procurava uma relação - odiava a palavra, mas na falta de outra... - calma. Partilhar a mesma casa, sair para jantar, cinema, teatro, exposições, viajar. Essas coisas. Tranquilidade. Não às incertezas. Sentia-se um senhor, velho. Duzentos anos de histórias cheias de muita tensão deixaram-no cansado. Estava pronto para algo especial. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agora a insegurança. Sentia-se vulnerável, nostálgico e entregue ao abandono. Era todo silêncio. E deixou-se ficar à espera da noite.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O acontecimento&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aluno chegou às nove e cinco. Não viu o professor e sentou-se numa mesa distante do balcão, perto da janela que dava para um pequeno pátio. Ansioso. Tirou o maço de tabaco do casaco de cabedal, castanho e coçado, riscou o fósforo e, com a outra mão em concha, acendeu o cigarro. Apagou a beata, e nada do professor. Uma tampa deste calibre?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Já estava desanimado, quando o homem entrou pela porta, triunfante. Vestia a mesma roupa, mas parecia acabado de tirá-las da gaveta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E o aluno mostrou três das suas telas, e os dois conversaram sobre pintores, tintas, preços, galerias, museus, escolas, filmes, peças, televisão, guerras e depois. Depois: da vida de cada um. Com detalhes. Era fácil; parecia fácil. Como se já se conhecessem. Como se fosse sempre assim. Revelaram as suas histórias. Paixões, faltas, excessos, carências, defeitos, namoros, os prazeres, rompimentos. Inacreditável como era simples. Fácil.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas havia no caminho a pedra da distância. Então.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A surpresa&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Fui convidado para dar um novo &lt;em&gt;workshop&lt;/em&gt; no próximo semestre, e na Câmara Municipal andam à procura de um novo director para o Centro de Artes. Sondaram-me hoje sobre a minha disponibilidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aluno contraiu os músculos das pernas. Calor: despiu o casaco e ficou só de pólo azul-marinho. E, como se não dissesse nada, o professor continuou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Mas não sei se será o ideal para a minha carreira. Acontece tanta coisa em Lisboa. Além disso, querem uma resposta amanhã.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E mudaram de assunto porque não era preciso continuar. Porque promessas que não se podem cumprir são sempre pior que a ausência de promessas. E porque o calor que ambos sentiam já não era da timidez.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Foi o professor quem perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não conheces um lugar mais calmo onde poderíamos ir? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E, depois de sentir o susto da coxa do professor encostar na sua debaixo da mesa, o aluno respondeu:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sei. A minha casa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A textura&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Cowboy Junkies&lt;/em&gt; na aparelhagem. &lt;em&gt;Trinity Sessions&lt;/em&gt;. O professor deixou o copo na mesinha do centro e, sem cerimónias, trouxe com as mãos o rosto do aluno para mais perto do seu. O beijo foi lento, demorado, sem pressa. A língua molhada do professor explorava os lábios cheios e vermelhos do rapaz. Mãos procuravam reentrâncias, curvas, pele, e assim as camisas foram despidas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os peitorais peludos do professor eram um convite aberto às carícias. E as calças se foram. E as cuecas. Brancas, as duas. E meias. Nus, assim, procurando-se um ao outro com sofreguidão. Regados a vinho - tinto. Sentindo o sexo do outro, as nádegas do outro. Sentindo o calor do outro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Espera. Vou buscar os preservativos - disse o rapaz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Primeiro foi o aluno. Sentindo dor no começo, alguns gemidos. E prazer. Depois, uma espécie de alegria por se encontrar assim tão livre. O professor parecia extremo conhecedor do assunto. Versado. Entregava-se obtendo e oferecendo prazer ao mesmo tempo. O gozo foi mútuo. E quase em sincronia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais vinho e conversas ao pé da orelha. Mais música. Desta vez, &lt;em&gt;Hope Sandoval&lt;/em&gt;. E foi a vez do professor. Mais silencioso. Sentindo apenas, pedindo mais. O aluno sentia o calor de estar dentro do homem. Era quente. Indiscutivelmente quente. Os movimentos foram ganhando ritmo e vieram-se juntos. Como numa dança bem ensaiada. E tiraram cigarros do maço e fumaram, bebendo o que restara da garrafa sobre a mesinha. No final ainda: empadão, um prato e dois garfos. E cansaço. Quatro da manhã. Apagaram&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;O dia seguinte&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;As cores&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Frias. O quarto entregue aos descuidos da noite anterior. A cama desfeita contra a parede sugeria prazeres passados, mas evidenciava o ar desamparado da manhã. O aluno estava sozinho, e releu o bilhete mais uma vez: «És um querido. Foi muito bom. Ligo-te da pensão. Beijos. O meu tlm 912873767.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Então levantou-se e começou a arrumar a casa. Tomou banho e agarrou nos testes que já devia ter corrigido. Sem paciência, mas fazer o quê? E entregou-se ao trabalho. Já estava a sentir uma pontade de dor de cabeça quando o telefone tocou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O imprevisto III&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Sou eu. Saí agora de uma reunião na Câmara Municipal. É, parece que sim, resolvi ficar. Por enquanto, na pensão. Será que nos podemos ver esta noite?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115850185104304627?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115850185104304627/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115850185104304627&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115850185104304627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115850185104304627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/aula-de-pintura-eou-o-dia-seguinte.html' title='Aula de pintura e/ou o dia seguinte'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115823202044714964</id><published>2006-09-14T11:44:00.000+01:00</published><updated>2006-09-14T12:07:00.556+01:00</updated><title type='text'>Jovem amado por Kavafis</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;... uma imagem que fôra a memória daquele principe morto&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;- Walter Pater - &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sentava-se aí - e apontou, sem olhar, um canto com uma máquina de tabaco -. Não. Então era diferente, havia uma mesa com um candeeiro; e não existia essa janela. Não era bonito. Mas tinha um não sei quê, e comigo sempre foi tão generoso... - O velho levantou os olhos (como água suja), - Não se importa - disse - que peça outro café? - Sim - disse depois de uma pausa -, não era bonito. Às vezes íamos, aí, perto, a uma casa que alugava quartos. Ainda me lembro dos seus beijos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhava aquele corpo devastado pelos anos. O coto de uma alma que tinha unido a sorte da sua carne ao obscuro prazer de Alexandria. O olhar já morto, os lábios - lábios aquela greta arroxeada? - secos, as mãos como garras e a pele com o brilho dessas lapelas dos fatos muito gastos, mil vezes passados a ferro. Tentei imaginar como seria esse corpo quando atraiu  Kavafis. Como foi, jovem, aquele rosto. Que graça irradiou  um dia. A seda adolescente, a embriaguez do cheiro jovem, os anéis de cabelo negro sobre a testa. Como foram aqueles lábios quando o amor os humedecia, com que fogo queimavam aqueles olhos, já apagados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teria vivido naquele homem a imagem que viu Kavafis quando sonhou com Mebes? A sedução do jovem empregado numa loja? Aquele despojo de cinemas, urinois de estação, de ruelas portuárias era o rosto divino de Tamides ou o jovem de Antioquia tão amado por Balas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei pedir-lhe uma fotografia que me deixasse averiguar a sua juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a porta do lugar se abriu, e entrou um rapaz de notável formusura, os olhos daquele velho brilharam de desejo. E então dei-me conta de que sim, bem pôde ser ele o modelo de Miris ou o jovem do espelho, pois que se tudo já tinha morrido naquele corpo - memória, orgulho, dignidade - as brasas do amor continuavam a arder e o mais ligeiro sopro tornava-as incandescentes, e aqueles olhos, ainda que por um instante, de novo eram belíssimos, e esses lábios outra vez estavam húmidos de amor, e aquelas mãos outra vez se dispunham a servir o Desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendi. Paguei e fui-me.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115823202044714964?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115823202044714964/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115823202044714964&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115823202044714964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115823202044714964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/jovem-amado-por-kavafis.html' title='Jovem amado por Kavafis'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115814028746746096</id><published>2006-09-13T10:20:00.000+01:00</published><updated>2006-09-13T10:38:07.553+01:00</updated><title type='text'>Fragmento épico</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A meio da tarde voltam da partida de futebol. Nunca estarão tão perto como agora que têm dezassete e quinze anos. Análogos em tudo: nos olhos, nas maçãs do rosto e no diverso fulgor do seu cabelo. As feições de príncipes de diferentes idades são imagens várias da mesma beleza, de especial linhagem que faz com que prevaleçam algumas criaturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ainda és mais atraente que o teu pai" - ouviu orgulhoso e confuso o garboso cadete. Se fossem americanos, estes dois jogariam o encontro de rugby de filhos contra pais, mas foram concebidos na união de três noites e nasceram no alto de uma clara montanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pôem a mão sobre a mão do outro avançam sem o saber zodiacais e puros: é cada um a soma de muitos esplendores. Vão a rir-se. Quem sabe de que falam, até mesmo por que perdem o seu tempo pronunciando palavras os rapazes que têm maravilhosos lábios, se as suas bocas iguais os destinam ao beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite na varanda, silenciosos e próximos, fumam um só fogo com escura troca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguem dormir, intranquilos como o resto dos animais e deuses do Verão. Aberta a janela. O benjamim desce do infantil beliche e a brincar desperta a força do abraço. Experimentam-se, mordem-se, conhecem os calibres gémeos, entrelaçam-se imortal e mortal, dórios na sua nudez de pugilista e guerreiro.  O combate desata simetria de torsos recentíssimos, tensa emissão simultânea de duas constelações tangenciais, em rajadas que breves iluminam as fogueiras axiais, zenitais. Misturam-se ouro e negro tangíveis nos contrários focos dos seus corpos. Misturam-se docemente na altura, nas proporcionadas cabeças, que descansam unidas enquanto chega o sono dos heróis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115814028746746096?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115814028746746096/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115814028746746096&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115814028746746096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115814028746746096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/fragmento-pico.html' title='Fragmento épico'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115798885152578264</id><published>2006-09-11T14:48:00.000+01:00</published><updated>2006-09-12T11:34:12.280+01:00</updated><title type='text'>O lapso amargo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era cedo demais para regressar a casa. Dei comigo subindo a Rua da Escola Politécnica, a caminho do Bairro Alto. Chegado ao G. percebi que cometera um erro: nada havia que me atraísse no aglomerado de homens bem vestidos. Eram demasiado limpos, demasiado bem arranjados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei no copo, encaminhei-me para a rua e encostei-me na soleira da porta. Defronte de mim, encontravam-se mais homens. Mas não havia meio de aparecer alguém que me agradasse. Do outro lado da rua, um sujeito jovem debruçou-se da janela dum primeiro andar, apanhando ar. Esticou-se então e, num único movimento, tirou a camisola de manga curta, branca, puxando-a pela cabeça, atirando-a atrás de si, algures, para os recantos escuros da sala. Um raio de luz, cortando até ao edificío, iluminava-lhe o tronco, branco-prateado no preto da janela. Estendeu-se e puxou a persiana até meio, deixando o corpo à vista mas escondendo o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebi a cerveja, olhei para o burburinho dos homens que subiam e desciam as ruas do Bairro Alto, voltei a olhar para o rapaz, pensando se me veria observá-lo. Agora estava sentado numa cadeira, de braço pousado no apoio, balançando-se para trás e para diante, marcando um ritmo que eu não conseguia ouvir. Contemplei as sombras rastejando na sua direcção. Quando a luz desaparceu, e deixei de o ver, atravessei a rua e carreguei no botão do primeiro andar. O intercomunicador zumbiu. Entrei e subi as escadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do apartamento estava aberta. Empurrei-a toda para trás e deitei uma espreitadela pelo corredor estreito e escuro. parecia um sitio abandonado. O papel descolava-se das paredes em línguas denteadas, expondo a camada de tinta verde, no estuque subjacente. O chão era de tábuas nuas, sem tratamento. Caminhei direito à luz do fundo do corredor, disposto a fugir, pronto para o que desse e viesse, disposto a fugir se tivesse de ser. Hesitei, escutei por um instante, depois, não ouvindo nada, entrei numa comprida sala de estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz vinha de duas altas janelas panorâmicas que deixavam entrar o brilho dos candeeiros da rua: a única mobilia era uma mesa de madeira e duas cadeiras de costas direitas. O rapaz continuava sentado junto à janela. Virou-se para mim, de cabelo loiro-branco desgrenhado, cara sonhadora, pálpebras caídas, como num transe opiáceo. Julguei-o com vinte anos, mais esguio do que eu, com um bom tónus muscular, mas percebi que podia vencê-lo numa luta corpo-a-corpo. Fez-me um sorriso lânguido, levantou-se devagar e veio ao meu encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estava bastante próximo para os nossos hálitos se fundirem, parou, passivo, aguardando. Eu sentia-lhe o calor, apercebi-me do bater rápido do seu coração. O sangue correu-me mais depresa nas veias, a respiração encurtou-se-me, os testículos encolheram-se-me. Fiquei quieto, desempenhando o papel de dono, forçando-o a dar o primeiro passo. Ele pôs a cabeça de lado, os olhos azuis vidrados fitaram-me, depois meteu-me uma mão ociosa e quente dentro do casaco, os dedos macios a correrem-me levemente pelo tronco, subindo, descendo, desabotoando-me a camisa branca, lambendo-me o pêlo escuro do peito, saboreando-me o suor salgado do corpo, brincando-me com os mamilos, dura e fortemente. Pus-lhe uma mão meiga no ombro, depois agarrei-o pelo cabelo da nuca e inclinei-lhe a cabeça para trás. O corpo do rapaz enrijeceu e o pânico com a mudança do tempo. O seu medo instilou-me uma sensação de poder. Ele tremeu nas minhas mãos e a minha arma endureceu. Forcei-lhe ainda mais a cabeça para trás, até ele me olhar bem nos olhos, depois encostei a boca à sua e beijei-o. Senti-lhe a pele de jovem, macia, contra o meu pêlo, e as nossas línguas tocaram-se. Afrouxei a pressão e passei a mão pelo peito glabro, sentindo-o distendido, contornando-lhe a ligeira saliência dos peitorais, olhando-lhe os mamilos duros como seixos, correndo-lhe o indicador até ao umbigo, abrindo-lhe o botão da braguilha, apalpando-lhe o membro tão duro como o meu, lutando contra as minhas pernas. Esfreguei-o através da sarja e ele murmurou: "Quero que me fodas!" Em inglês, com sotaque americano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Larguei-o e indiquei-lhe o caminho. Mais uma vez o quarto estava quase vazio, vazio mesmo, excepto quanto a um colchão no meio do soalho, ligeiramente solevado, numa estrutura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostas de foder rapazes novos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corria com as mãos pelas virilhas, mostrando-me a saliência que estava por baixo, excitando-se a si msmo. Eu não queria que ele falasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece que sim. - Mostrei-me machista. - Despe-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu o fecho de correr e tirou os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;jeans&lt;/span&gt;: roupa interior branca revelou-se em tenda na minha direcção. Ele despiu-a e o membro elevou-se quase até ao ventre, uma exclamação perante o umbigo. Comecei a despir-me, dobrando a roupa em simultâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz olhou-me da cama, brincando ligeiramente com o pénis erecto, acirrando-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tens pressa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há coisas melhores quando são lentas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem do mundo. Sentia o membro como se fosse explodir ao primeiro toque do jovem. Deitei-me na cama ao pé dele, passei-lhe as mãos pelo peito, outra vez, depois tomei-lhe o membro de espesura média, duro, sentindo-lhe a força, movendo-lhe o prepúcio acima e abaixo até ele gemer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pára! Vou-me vir depressa demais, se continuas com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu estou decidido a continuar com isto!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aí não há problema, homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Riu-se, virou-se de bruços, a cabeça ao nível das minhas virilhas e envolveu-me o pénis com a boca. Eu deixei-o chupar-me, os lábios a subir e a descer pela haste, com um especial cuidado na extremidade. Depois moveu-se para me abocanhar cada um dos testículos, suavemente, deixando a língua sondar-me até a sensação se tornar tão intensa que fugi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz esbugalhou os olhos para mim, de pupilas dilatadas, os lábios lustrosos com uma camada de pré-ejaculação. A voz dele era doce, irressistível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá lá, fode-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não precisava que me pedisse pela terceira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens algum lubrificante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meteu a mão debaixo da almofada e tirou uma bisnasga de bico comprido, mais dois preservativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gosto de os ter à mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz rasgou à dentada a embalagem prateada, com a sua ânsia de provocar-me outra torção nos testículos, depois meteu o preservativo na boca, inclinou-se, segurou-me no membro com as mãos e desenrolando-lhe o preservativo por cima, dando-lhe alguns toques enérgicos com a língua, para o ajustar. Virou-se de barriga para baixo, esforçando-se para ficar comodamente, e meteu umas duas almofadas por baixo de si, elevando-se um pouco, colocando as nádegas em posição. Umas nádegas tersas, mais quadradas que redondas, glabras, se se descontasse alguns fios louros brotando da fenda central. Comecei a untá-lo, passando o bico da bisnaga virado para cima na direcção do ânus, depois inserindo suavemente, esfregando docemente em redor do anel sensível do esfíncter, ouvindo-o gemer «... não tens ideia de como precisava disto», afastando-lhe mais as pernas com o joelho e preparando-me para actuar. Massajei-lhe o esfíncter levemente, por um bocado, inserindo-lhe um dedo no ânus, para o abrir. Ele reagiu, aproximando-se de mim, depois sussurrando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pus uma gota da bisnaga na ponta da arma, e, depois, movi-me com vigor, fazendo pressão contra ele, forçando o caminho, sem ligar ao seu gemido de desconforto. Agarrei-o pelo peito, puxando-o para mim, mexendo-me lentamente para criar um ritmo doce, insistindo contra o músculo resistente, obrigando-me a avançar, mais fundo, ouvindo-o dizer: «É isso... Sim... assim... sim...», depois meti-lhe o meu dedo na boca, deixando-me morder com uma certa força, para o ajudar a reagir ao prazer/dor que lhe concedia e porque não queria ouvir nenhumas palavras agora, só ver imagens a relampejar no cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordações de encontros desembocam em gatilhos de amor. Imaginei-me num filme que tinha visto... violando aquele rapaz... forçando-o... obrigando-o a gostar dum grande membro dentro de si... eu estava num túnel por baixo da cidade... o cheiro a imundicie nos pulmões... a restolhada das ratazanas... fodendo um estranho contra o tijolo a descoberto duma parede... o arrastar de pés a aproximar-se... o meu clímax stava a aproximar-se, os testículos a baterem-lhe nas nádegas, a esporra a subir. As imagens continuaram a passar. Agora estava a vir-me... a chegar perto... vir-me dentro dele, agarrando-me às nádegas dele, para me amparar, abalado com a força do orgasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estás a esmagar-me! Por momentos não consegui perceber quem dizia aquilo. As palavras eram uma amálgama de ruídos a irromperem-me nos pensamentos. - Eh, camarada!, podes-me largar agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei-me rolar e puxei pelo preservativo. Saiu de estalo, e o membro tombou-me cansado, já flácido. Tu e eu, pá, pensei. Havia uma nódoa de esporra atravessada no ventre do rapaz, quando ele se viera comigo a possuí-lo. Graças a Deus. A depressão aproximava-se sorrateira, «o sonho posterior do que fuma ópio - o lapso amargo na vida quotidiana -, a queda hedionda do véu», e eu não tenho estômago para agradecimentos ternos. Limpei-me aos lençóis, levantei-me e comecei a vestir-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi bom. Gosto do teu casaco, sabs?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia sentir o seu alivio por eu partir, e, pela primeira vez, sorri-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sempre à disposição, filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do apartamento e iniciei o longo caminho para casa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115798885152578264?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115798885152578264/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115798885152578264&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115798885152578264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115798885152578264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/o-lapso-amargo.html' title='O lapso amargo'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115797387918843693</id><published>2006-09-11T12:02:00.000+01:00</published><updated>2006-09-11T12:24:39.246+01:00</updated><title type='text'>Nox - quatro variações</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes me viam passear junto do rio e olhar a cidade com tristeza. Apenas essas águas, apenas um ar esverdeado nos dias limpos  substituía o tremor de uns olhos ao cobrirem-se entre as mãos. Regressava de eléctrico ao escurecer alheado por montras que esvaziam iluminadas. Descemos em silêncio os cinco eternos patamares, voltaste-te ao chegar à entrada, nunca mais esquecerei essas palavras: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Olha, rapaz, eu não acredito no amor, mas apens nos corpos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Isto não é uma experiência&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conduzia um três portas azul com doze anos que herdou do pai e que já cocheava. Com ele atravessava a ponte depois da meia-noite, como um rastilho a arder sobre o rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegava assim a este lado da cidade acesa, encostava-se à esquina de um bar apinhado e deixava nos seus olhos vaguear a sua transparência, como vagueiam adormecidas as sombras de um aquário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sacão da carne era doce e violento, apenas a ela respondia de maneira feliz e tornava a vida animal e suculenta. O resto era roer as sobras de um banquete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamava-se David, segundo me disse, andava apenas atrás do que era possível, e ajudava a mãe numa casa de costura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma rua vazia a altas horas de uma noite de Junho. Atrás das sombras do plátano que cobre o candeeiro escondem o seu abraço enquanto eu entro no prédio. Sobre o plátano a minha varanda, o parapeito dá sobre os seus corpos. Volta a solidão nocturna a embalar as cabeças e os braços. Vivemos os três ao mesmo tempo essa caricía. Eles, um com o outro, eu comigo só, em imitação aristotélica. Partiram juntos, eu fiquei com as minhas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O recibo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Encontrei o seu nome e o seu número de telemóvel num guardanapo de papel dobrado no bolso. Comoveu-me aquele nome, como um calor de prata, devolveu-me uma noite resolvida sem abaixamento, e a visão fugaz, resplandescente, da sua pele de canela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha-o conhecido num bar de luzes aquosas e música de fogo. Fomos para sua casa falando suavemente entre as folhas secas, atravessando o rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficámos de telefonar um para o outro. E tive um instante de dúvida: apostar essa noite ou conservá-la, dilatar a sua memória ou perdê-la de repente. Um pouco mais e não tive dúvidas: queimei no cinzeiro, como quem teme um sonho, como quem pega e larga as chaves do esquecimento, desdobrado e letal, o meu recibo da aposta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115797387918843693?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115797387918843693/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115797387918843693&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115797387918843693'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115797387918843693'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/nox-quatro-variaes.html' title='Nox - quatro variações'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115781388358129230</id><published>2006-09-09T15:44:00.000+01:00</published><updated>2006-09-09T15:58:05.510+01:00</updated><title type='text'>Erotismo rural</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nasci e fui criado no campo; portanto, em estreito contacto com a natureza e, como não havia forma de ignorar, com o mundo erótico, pois o reino animal é indesmentivelmente dominado pelos desejos sexuais. Como que por contágio do mundo animal, nos meios do campo existe  uma força erótica que supera quase sempre todos os preconceitos, repressões e castigos. A força da natureza domina  e chega mesmo a vergar os detentores de uma vontade, à partida, férrea. A minha experiência diz-me que poucos são os homens que não tiveram relações com outros homens. Todo e qualquer sentimento machista que tenha sido inculcado desde o berço é subjugado pelo desejo do corpo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tomemos como exemplo o meu tio Orlando, o meu tio mais velho, homem casado, rigído e muito sério. Andaria eu pelos meus oito ou nove anos e ia sentado à sua frente na motorizada, porque não tinha altura suficiente para chegar aos apoios dos pés; mal iniciávamos a marcha por caminhos irregulares, cheios de sulcos e pedregulhos, o sexo do meu tio começava a crescer. Acredito que pelo menos uma parte do meu tio não queria que aquilo acontecesse, mas não o podia evitar; acomodava-me da melhor maneira, levantava-me e punha as nádegas em cima do sexo dele; e, com a trepidação da motorizada, numa viagem que demorava uma hora ou um pouco mais, eu saltitava em cima daquele enorme sexo. Acho que, no fim, Orlando ejaculava. Quando regressávamos pela tarde tornava a repetir-se o mesmo ritual. É óbvio que tudo isto acontecia como se nenhum dos dois dessem por isso, ele assobiava ou resfolegava enquanto a motorizada seguia a sua marcha. Ao chegar a casa, Clara, a mulher, recebia-o de braços abertos e dava-lhe um beijo. Nesse momento éramos todos muito felizes.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115781388358129230?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115781388358129230/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115781388358129230&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115781388358129230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115781388358129230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/erotismo-rural.html' title='Erotismo rural'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115771401254162597</id><published>2006-09-08T11:46:00.000+01:00</published><updated>2006-09-08T12:13:32.630+01:00</updated><title type='text'>O mar</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tinha ano e meio quando vi o mar pela primeira vez. Aproveitando um segundo de desatenção dos meus pais, comecei a gatinhar, por entre toalhas, guarda-sois e corpos gigantes de adultos adormecidos, na direcção da água. Parava de tempos a tempos, cansado, e levava punhados de areia à boca - tinha a mesma textura do açucar, embora o sabor fosse impossível de igualar. A minha primeira recordação é o sabor da areia da praia e o som do refluir das ondas na zona da rebentação, de onde, no último minuto, o meu pai me içou nos seus braços e colocou-me ao ombro, fazendo com que o meu susto inicial desse lugar às gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, o mar transformou-se para mim no lugar de sortilégios magnificos. Aquelas águas que recuavam expondo uma extensa planicíe costeira, revelando rochas cheias de vida, formando escuros charcos, aquelas águas que voltavam sempre de um lugar distante, perto da parede de vidro da linha do horizonte; aquelas águas em que podia contar incondicionalmente. Quando chegava Setembro e as marés-vivas, o mar, uma espécie de cavalo amansado durante todo o Verão, enfurecia-se e arrastava tudo consigo, porém mantinha um ritmo doce, encantatório, narcótico. Mais tarde, os meus pais permitiram que me aproximasse e nadasse nas águas desse mar. Era em Troia, embora nunca tenha visto Ulisses e Patrocolo nos seus areais. Foi esse mar e essa praia que me ofereceram uma imagem que nunca poderei esquecer. Foi no tempo das férias grandes, era o dia de Nossa Senhora de Troia - data em que os pescadores de Setúbal engalanam os barcos e apontam-nos para a caldeira, permanecendo lá durante três dias, pedindo os favores divinos -, o areal era pequeno para tanta gente, e os meus pais procuraram locais mais afastados. Eu ia a andar pela beira-mar acompanhado da minha mãe quando descobri cinco homens a tomar banho nus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ver aqueles corpos, aqueles membros, foi para mim uma revelação: indiscutivelmente gostava de homens; gostava de os ver sair da água, correr pelo areal, tomar balanço e atirar-se de mergulho ao mar; gostava de ver aqueles corpos gotejantes, encharcados, de sexos reluzentes. Com os meus oito anos, eu contemplava-os encantado e permanecia extático diante do mistério glorioso da beleza. Naquela noite descobri o «mistério» da masturbação; é claro que com oito anos não podia ejacular, mas, pensando naqueles rapazes nus, comecei a esfregar o sexo até ao espasmo. O gozo e a surpresa foram tão intensos que pensei que ia morrer: desconhecia a masturbação e pensava que aquilo não era normal. Mas, embora julgasse que de um momento para o outro podia morrer, continuei a praticá-la até ao desfalecimento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115771401254162597?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115771401254162597/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115771401254162597&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115771401254162597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115771401254162597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/o-mar.html' title='O mar'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115754569309392391</id><published>2006-09-06T12:33:00.000+01:00</published><updated>2006-09-06T13:28:15.903+01:00</updated><title type='text'>Intimidade ilusória</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O rapaz atravessa o rio uma vez por semana, para vir ter com o homem. A curta viagem tem um único motivo: sexo. Conheceram-se através da internet, seis meses antes; encontraram-se depois num centro comercial, e chegaram a acordo sobre as condições particulares dos encontros posteriores. As conversas ficam apenas pela superficíe, e há silêncios em que tudo o que podem fazer é olhar um para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mesma hora, na semana seguinte, mas em dias diferentes, lá está o rapaz à porta. Despem-se imediatamente. O rapaz parte, sem ter dormido, mas o homem sentiu que ele dormitou antes de despertar determinadamente. Veste-se depressa e sem olhar para trás. O homem não tem a certeza de onde ele vive ou donde vem; o que o rapaz lhe contou, no primeiro encontro, pode não corresponder à verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Actualmente ele já nem entra em casa, sobe directamente para o sótão que o homem tornou confortável, espalhando almofadas e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;edredons&lt;/span&gt; pelo chão. Não bebem nem ouvem música e mal se conseguem ver um ao outro. É um espectáculo de mímica neste sótão onde tudo menos a clareza, ao que parece, é permitido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na loja de animais, as dívidas do homem aumentam. Está a perder o controlo, mas não se importa. Durante metade da sua vida, particularmente na escola, foi bem sucedido, ou, no mínimo, estava a caminho do sucesso. A epilepsia e depois o acidente de moto empurraram-se para fora desse trilho, sem qualquer aviso prévio. Porém, a sua vida acabou por se recompor: a morte de duas tias velhas deu-lhe rendimentos mais que suficientes para viver sem grandes preocupações, ou, pelo menos, assim pensara. Tem um apartamento pequeno, dois cães e um sentimento cansado. Do que realmente sente falta é do estável progresso quotidiano, de ver o seu bem-estar, senão a sua felicidade, a aumentar progressivamente, e de ver cada dia conduzir a um futuro reconhecível. Nunca tinha antecipado a extensão desta desolação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai de casa apenas para passear os cães. Às sextas-feiras janta com o seu único amigo. Depois vão para um bar no Princípe Real onde ele gosta de ver os homens, a maioria na casa dos trinta, e cujas vidas são um mistério para ele, parecem estar por ali, noite após noite, sem qualquer mágoa visível, a olhar uns para os outros. Ele inveja isto, e pergunta-se se não têm ansiedades nas suas vidas, se se regem por uma resignação estóica, ou se estão a perder-se num profundo vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia deste rapaz demora uma hora no banho. Chegará em breve. O homem está deitado, a pensar na sorte que tem em ter este arranjinho totalmente de graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há oito anos começou a viver com um homem, com quem partilha não só a cama mas também os negócios, e hoje não entende porque ainda continua com ele. As discussões sucedem-se, arremessam um ao outro insultos e objectos pesados. Mas sempre que decide colocar um ponto final naquilo, a única coisa que consegue fazer é recuar, sem perceber porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora tem esta ligação inexplicável. Primeiro atiram-se um ao outro com uma temeridade medieval e depois ficam silenciosamente deitados no escuro, até que o desejo, tudo o que possuem, se reacenda. Diz a si próprio que tem que aproveitar esta oportunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de o rapaz se ter ido embora masturba-se, contemplando aquilo que fizeram, imprimindo-o na sua mente para referência rápida: o rapaz de barriga para baixo, ele no barco das suas costas, o seu rosto para sempre enterrado nos cabelos pretos dele. Pensa nos pelinhos pretos farfalhudos à volta do ânus, achatados com o suor, como o vinco de uma almofada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando mais tarde anda de um lado para o outro em casa, tem um sentimento de satisfazão e ao mesmo tempo de não realização, detestando-se a si próprio por não saber porque é que está a fazer aquilo - barrado pelo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;puzzle&lt;/span&gt; da sua própria mente e pela impossibilidade de perceber porque se age de forma tão estranha, e porque acabamos por ficar sentidos com uma pessoa por não nos darem aquilo que fomos incapazes de pedir. Certamente este facto novo é uma teia de ilusões. E ele, será que é louco? Mas ele quer mais loucura, e não apenas uma vez por semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte, o rapaz apercebe-se de qualquer coisa. No espaço onde se costumam deitar, o rapaz convida-o a deitar-se em posições diferentes; incita-o a tocar partes diferentes do seu corpo. Mostra-lhe que se podem examinar um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana após semana, algo intrigante vai acontecendo neste sótão. Ele não consegue discernir o que possa ser. Nunca tem a certeza de que ele voltará; não confia em que ele, o outro homem, o não decepecionem. O rapaz surpreende-o todas as semanas, até que o homem começa a interrogar-se sobre o que é que poderá deter o rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma quarta-feira, ele não aparece. Fica à janela, em roupão e chinelos, durante três horas, sentindo-se, na primeira hora, como Casanova, na segunda, como uma criança à espera da mãe, e durante a terceira, como um velho. Estará doente, ou com a mulher, ou com o namorado? Deita-se no chão onde o rapaz se costuma deitar, numa febre de desejo e saudade, até que, bem mais tarde, sente uma presença no sótão, uma coluna de ar suspensa, então senta-se e chama por este fantasma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está preocupado que tenha acontecido alguma coisa a este rapaz e nem sequer tem forma de se certificar. Que ferida ou desespero o terá compelido a querer apenas isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte ele vem, em pé na soleira da porta, enrolado no casaco, a sorrir, entrado na casa dos vinte e muitos, cerca de quinze anos mais novo que ele. É capaz de ter mulher ou um companheiro; é capaz de estar desempregado; é possível que se tenha desiludido com o amor; ou pode estar para casar na semana que vem. Mas é carinhoso. Como ele tem saudades daquilo que fazem juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte vai ao sótão e sente o cheiro do rapaz nos lençóis. O dia sem ele não tem importância, seja ele quem for. De repente só pensa nele, ponderando o misto peculiar de ignorância e intimidade que havia entre eles. Se é o sexo que faz com que as pessoas se encontrem e se conheçam, o que é que o homem sabe do rapaz? No caso dele podia apenas pintar figuras imaginárias, como nos primeiros dias do amor, quando todos os sonhos e desejos podem ser lançados à discussão, até que a realidade os abale e reordene. Não saber é certamente belo, como se tudo o que aprendemos adviesse dos prazeres da imaginação pura. A fantasia dava-lhe mais satisfação que a realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o rapaz está a começar a fazê-lo pensar, e quando uma noite o toca e sente que nunca amou tanto uma coisa - se o amor é a perda de nós mesmos no outro então, sim, ele ama-o -, começa então a querer a confirmação de qualquer tipo de resposta. E depois de tantos anos de vida, de uma educação cara, dos idiomas que imaginava úteis, os livros e os jornais que estudou, será capaz de amar um estranho silencioso num quarto escuro? Mas põe de parte a ideia de falar, pois não suportaria outra desilusão. Nada pode atrapalhar aquelas noites perfeitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se quer sexo, consegue-se; mas normalmente vem com uma oferta grátis - alguém como nós, uma pessoa. O caso deles é um avanço em relação a isto, o que a maioria das pessoas querem, o melhor sem o pior, e sem cobranças.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115754569309392391?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115754569309392391/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115754569309392391&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115754569309392391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115754569309392391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/intimidade-ilusria.html' title='Intimidade ilusória'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115745900176615902</id><published>2006-09-05T13:02:00.000+01:00</published><updated>2006-09-05T13:23:26.920+01:00</updated><title type='text'>Piscina</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que fazer durante uma tarde de Agosto, quando a casa inteira dormita e todos os amigos estão longe, em praias sobrelotadas ou em qualquer mónotona aldeia perdida do interior? Faz muito calor e a ventoinha quase que não se nota na penumbra... É para aí - Estás deitado, despido, tens 21 anos e voltaste há pouco da piscina -, é para aí que te leva a imaginação. Descobriste a possibilidade dessa fuga - que por sí só é um outro calor -, uma adolescente tarde de escola, ouvindo um professor entediante, quando a mão enfiada no bolso tocou um objecto familiar que crescia e crescia, e como que gritava pelos corpos de atletas e de colegas, numa estranha orgia de amor e sexo, inevitavelmente calado até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Era a fuga proporcionada pela imaginação que procuravas, e a penumbra e o calor da tarde do final de Agosto trouxeram-na até ti, insinuante, e melhor do que nunca... Que lençois tão frescos e que estômago tão duro! Como se chamaria o rapaz que esteve tanto tempo em cima da prancha mais alta, sem saber se mergulhava ou não? Não era parecido com Brad Pitt? Não sejas exagerado! Sim, os olhos eram bonitos. E o torso, o torso era uma maravilha, quem sabe se depilado. E o rabo, que os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;speedos&lt;/span&gt; revelavam mais do que ocultavam. Um espanto de homem. E a piscina - repentinamente - ficou vazia, e tu, tu sobes a escada até à prancha onde permanece o titubeante Brad Pitt ou o rapaz de corpo bem delineado parecido com o actor. Quando chegas lá a cima, ele despe os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;speedos&lt;/span&gt; de repente. Será que te esperava? Ou intuira apenas a tua presença? Provavelmente, prefere o teu jogo: estar e olhar em tempos diferentes. Ritmos secos nas escadas. Uma luta quando o surpreendes e ele te surpreende, e como não te surpreender? E torcem e esmagam a carne e gritam nesa ardente e solitária luta magnífica, para depois - nus - caírem à água, refrescados e limpos. Limpos. Mas, de qualquer forma, não ias tomar um duche depois da sesta?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115745900176615902?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115745900176615902/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115745900176615902&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115745900176615902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115745900176615902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/09/piscina.html' title='Piscina'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115703360905467050</id><published>2006-08-31T14:45:00.000+01:00</published><updated>2006-08-31T15:13:29.146+01:00</updated><title type='text'>Ursos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Três de Agosto. M., uma aldeia de Miranda do Douro. Meia centena de estudantes universitários reunem-se diante de um edifício rectangular, debaixo de um sol inclemente. Mas quem foi o cara de cu que me mandou enfiar num &lt;span style="font-style: italic;"&gt;workshop&lt;/span&gt; de Mirandês durante esta altura do ano, que faço eu aqui, numa aldeia perdida, apenas com três &lt;span style="font-style: italic;"&gt;t-shirts&lt;/span&gt; e o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Internato&lt;/span&gt; de Gaspar Simões na mochila? Olhei para os meus companheiros, a maioria raparigas; os rapazes, esses, muito novos para o meu gosto. Além do mais, uma corja de homofóbicos, quase que apostaria. E vou ter que aguentar com eles e com este calor durante duas semanas e meia. Maravilha! Fui até à taberna da aldeia para esquecer. No balcão estava apoiado um homem barbudo, gordo, com ar de mecânico ou pedreiro, com o pêlo do peito assomando pela camisa aberta até ao quarto botão, agarrado a uma cerveja e conversando com o taberneiro com um vozeirão que acabou por ser o meu golpe de misericórdia. Eu estava completamente seduzido.  A aldeia pareceu-me subitamente o Algarve, e aquele homem, as sus águas cálidas, de onde não apetece sair. Aproximei-me do balcão e pedi uma cerveja. Olhei para ele discretamente. Nem fez caso. Segunda cerveja. Nada. Terceira cerveja. Olhadelas descaradas na sua direcção, sorrisos parvos, sem qualquer resultado. O homenzarrão saiu da taberna e desapareceu da minha vista. Pedi outra cerveja e sentei-me a uma mesa. Tinha que esquecer que a aldeia tinha um monumento de carne e pêlo a passear-se pelas suas ruas. Regressei já de noite à hospedaria, nem sequer tinha visto o meu quarto. Quartos duplos, de certeza que me vai sair na rifa um ressonador como companheiro. Com efeito, já se ouvia nas escadas uns roncos descomunais. Abri a porta do quarto com cuidado, para não acordar o roncador. Pela janela entrava um pouco de luz, apenas a suficiente para ver em que cama ele dormia. Aproximei-me da minha cama e acendi o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Olhei para a cama ao lado e vi um corpo deitado de costas, o amplo torso nu, o lençol dobrado abaixo de uma barriga peluda e suada, a boca rugindo aberta no meio da barba negra, a mesma mãozorra que horas antes agarrava uma cerveja na taberna. Era ele! Pensei que estava a ser castigado pelos meus pecados. Que tinha bebido demais. Que era uma brincadeira de muito mau gosto. E eu vou-me já daqui. Que não aguento com este portento de homem ao meu lado durante duas semanas e meia. Sentei-me na cama a olhá-lo, admirando a sua beleza farta. Finalmente, agarrei numa toalha e fui até à casa-de-banho. Mudo de quarto ainda antes do pequeno-almoço. Meti-me sob o primeiro chuveiro, eram todos iguais, tabiques laterais, sem cortinas nem portas. Abri a água fria e fechei os olhos, esperando que o jorro levasse pelo ralo a bebedeira, o suor, o calor, o meu companheiro de quarto, a aldeia, o Verão. Passado pouco tempo, senti uma mão sobre o meu ombro, uma mão pesada e àspera que me puxou e apertou contra um corpo grande, quente e macio. Voltei-me e vi os seus olhos, devorando-me, o sorriso, os lábios cada vez mais próximos, o beijo demorado, a língua gorda e húmida que me fazia cócegas no céu da boca, brincando com a minha língua, enquanto procurava o fundo do poço.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115703360905467050?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115703360905467050/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115703360905467050&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115703360905467050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115703360905467050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/08/ursos.html' title='Ursos'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115702582543705932</id><published>2006-08-31T12:28:00.000+01:00</published><updated>2006-08-31T13:03:47.416+01:00</updated><title type='text'>o árduo caminho do perdão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Acabei tudo com ele", disse o Vicente no quarto. "Já agora, há semanas que não o vejo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda vestido e sentado no tamborete, Vicente olhava para a aliança, um pesado círculo de fogo na palma da mão. Em câmara-lenta experimentou-a em todos os dedos, até que se alojou perfeitamente no anular. O quarto estava praticamente às escuras, a única luz, débil, vinha do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Vicente estava na penumbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não faz qualquer diferença que tenham acabado", disse a Luísa. "Não é essa a questão."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu sei."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nunca antes tinhas mentido."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sei muito bem. E odeio-me por isso."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo quando estava a acontecer, ele pensava às vezes que nada daquilo estava realmente a acontecer. E nas semanas solitárias que se sucederam, tudo aquilo lhe pareceu uma loucura, como foi de facto. O amor é uma loucura, disse Arnaldo uma vez, há muitos anos, quando ambos eram apenas dois jovens à porta da idade adulta, e, nessa altura, Vicente não percebeu o verdadeiro alcance daquela frase: tendo amado Arnaldo na juventude, sem que esse amor tivesse então sido concretizado, e amando agora Luísa, nunca tinha passado por aquela experiência. A sua recente e inexplicável aberração foi como se tivesse deixado de ser ele próprio durante algum tempo, mas agora estava de volta aonde sempre pertencera, sem perceber, mas consciente de que todos os actos de loucura não têm explicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nem a muito custo isso serve de explicação", disse a sua mulher, quando ele contou parte do que lhe ia pela cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nem me apercebi de que já não era amada."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas, Luísa, eu amo-te. Amo-te. E depois, eu acabei com ele. E também não significou nada."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um silêncio embaraçoso elevou-se entre eles. "Amo-te", disse Arnaldo não há muito tempo, em Julho, em Agosto e também em Setembro. E ele amara-o igualmente. Mais do que amara qualquer pessoa antes, mesmo mais do que os próprios filhos. Mas agora era capaz de dizer que não teve qualquer significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se lhe adivinhasse o que lhe ia pela cabeça, Luísa disse: "Eu estou velha, sou muito chata, e depois nunca poderei competir com ele. Ou com qualquer outro homem. Vai chegar outro dia em que não vais conseguir viver sem um homem e, então, vais abandonar-me. De uma vez por todas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não, nunca pensei nisso nesses termos, Luísa. Não digas isso."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vicente levantou-se e começou a despir-se. Luísa, encostada à ombreira da porta, disse que sempre confiara nele, o que já lhe tinha dito antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Desculpa-me, Luísa, por te ter magoado." Sem saber o que mais acrescentar, caiu no cliché de dizer que Arnaldo foi apagado como um vírus informático, que já nada restava desse homem no seu sistema. Mas o que disse teve pouca relevância para Luísa, que nem o ouviu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Estou envergonhado por te ter feito sofrer", continuou. "Estou envergonhado por ter sido egoísta e parvo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não deviam ter aguardado tanto tempo para consumar essa paixão. Era com ele que devias ter ficado desde logo o início."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas foi contigo que escolhi viver, ter filhos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vicente vestiu o pijama, dobrou as roupas que despira lentamente e pô-las sobre o espaldar da cadeira. Sentado na beira da cama, lutava contra as lágrimas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tens todo o direito de me pôres fora de casa", disse ele, então mais calmo. "Tens até o direito de ficares com as crianças. Eu não lutarei."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"É isso que queres?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela odeia-me, Vicente pensou, mas percebeu que aquele ódio era passageiro, e que o tempo levaria para longe. Adivinhando o que Vicente acabara de perceber, Luísa pensou como algo tão vulgar e simples como a passagem do tempo é capaz de destruir todas as emoções que estavam a viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda não havia o perdão quando se deitaram. Nem quando se levantaram e vestiram de novo. Nada estava ainda resolvido. O perdão chegaria mais tarde. Muito mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115702582543705932?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115702582543705932/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115702582543705932&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115702582543705932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115702582543705932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/08/o-rduo-caminho-do-perdo.html' title='o árduo caminho do perdão'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115696670653872863</id><published>2006-08-30T20:13:00.000+01:00</published><updated>2006-08-30T20:38:26.626+01:00</updated><title type='text'>Paedicabit dominus me et irrumabit</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nunca terei a certeza de que será necessário, mas acabaram por me atar os braços e as pernas à cama, e puseram-me uma almofada sobre a pélvis. Agora ouço os passos nas escadas, e muito quieto, oferecido, aberto, sufocado pelo calor e pela impaciência, espero deitado de bruços a chegada do amo. Não sei se será necessário terem-me manietado, porque, de qualquer modo, eu não teria escapatória: advertiram-me muitas vezes que, quando chegasse o Verão, o amo viria à quinta e desfloraria os escravos que tivessem feito 14 anos no Inverno anterior. E como poderia escapar aos seus apetites e suas ordens? Desde que tenho uso da razão vejo e ouço os castigos impostos aos escravos rebeldes, e desde que tenho uso da razão sei que haveria de chegar o dia em que o amo me possuiria, como faz com todos os escravos ao atingirem a puberdade, e às vezes até antes. Com eles aprendi que só dói no início, o amo não é um homem bruto, e depressa te habituas. Pelo menos, é o que contam os escravos jovens quando nos encontramos no pátio ou no dormitório. Mas Marcelo, uma vez em que estava apartado dos outros, contou-me que algumas vezes tinha desfrutado tanto com o amo, ou debaixo dele, que só de recordar... "Olha", disse-me, apontando-me para o membro erecto. Puxou-me pelo pescoço para o seu colo e meteu-me a carne palpitante e olorosa na boca: tinha que ir aprendendo, disse, já que o amo vai exigir essa caricía. Não me importei de fazê-lo, e devo dizer que tão pouco me doeu muito quando, na semana passada, o mesmo Marcelo, seguindo as instruções do capataz dos escravos, ordenou-me que me deitasse de bruços e foi introduzindo-me no ânús falos de couro lubrificados com banha, cada vez maiores, ainda que sem chegar, explicou-me, ao tamanho do pénis do amo: ao nosso senhor gosta-lhe notar uma certa resistência da jovem carne dos escravos. Por isso, Marcelo aconselhou-me igualmente a queixar-me, que gemesse e suplicasse. "Se são causa de uma dor real ou da tua vontade em agradar o amo, ele não será capaz de distinguir; qualquer uma delas o satisfaz, e já sabes que se ele te tomar como seu favorito, ainda que apenas durante o Verão, te verás livre dos trabalhos do campo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarro-me às correias que me apertam os pulsos e respiro profundamente o ar cálido e seco.  Através das cortinas entra a luz intensa e quente de Julho. Tento relaxar-me, encontrar uma posição mais cómoda, procuro um ângulo adequado, penso no corpo maciço do nosso amo, no seu peito amplo e nas suas pernas possantes, no seu sexo comprido, que apenas vi flácido  no banho, e que depressa se fincará, duro, quente, implacável, no meu ventre virgem. Ouço os seus passos, a minha respiração acelera-se, contraiem-se todos os meus músculos, tenho medo, inunda-me o suor e outras secrecções, todo eu tremo, range a porta, inunda-me a luz, inunda-me o calor, o seu calor, o seu suor, inunda-me. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Paedacabit dominus me irrumabit&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115696670653872863?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115696670653872863/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115696670653872863&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115696670653872863'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115696670653872863'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/08/paedicabit-dominus-me-et-irrumabit.html' title='Paedicabit dominus me et irrumabit'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115685109069859805</id><published>2006-08-29T12:11:00.000+01:00</published><updated>2006-08-29T12:31:32.763+01:00</updated><title type='text'>O prazer da semelhança</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os amigos regressavam da festa de carro. João vinha atrás com Abel. Cantavam "Only You", queimando-se com o olhar e com o desejo. Ao acabar a canção, Abel sentiu a mão de João, primeiro no tornozelo e depois subindo entrepernas até pousá-la sobre a braguilha. Abel nunca esqueceria esse momento. Foi como se tocassem as trombetas celestiais e os céus se abrissem em horizontes dourados, brilhantissimos. Apertou a mão sobre a do João, que dava conta de como crescia e endurecia a macieza interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não soube como conseguiu desprender-se do olhar e subiu, aos tombos, as escadas de casa. Contemplou a mulher, adormecida, como se não fosse a sua. Aproximou-se do filho, que dormia no berço, e pareceu-lhe que o cenho cerrado da pequena criatura desaprovava aa sua recente desorientação. Saiu de casa como um ladrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia que encontraria o João depois do trabalho. Começaram a andar, lado a lado. Impacientes, refugiaram-se num beco e beijaram-se, impetuosamente. Sentiu a língua agressiva do João na sua boca; as pernas consistentes entre as suas; a dureza dos membros querendo romper as calças. Era um embate selvagem. O sexo com a sua mulher era uma brincadeira de crianças comparado com isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou para Abel uma nova vida. Admirava a aspereza viril, tão distinta da fragilidade feminina. Excitava-se com um semelhante, um corpo como o seu, sujeito aos mesmos impulsos e reagindo de igual modo - adivinhava as ondas antes de chegarem à praia. Tinha finalmente um oponente à altura na batalha sexual. Penetrar uma mulher, ao invés, era um abuso, quase um crime. O corpo feminino, dócil, abria-se como um pão acabado de cozer. Só os sádicos podem ter prazer com tal possessão. Ou os frustrados, com a ilusão de ter debaixo, de dominar o mundo que se entrega como uma mão. Vãs Ilusões! No fundo, os homens são subjugados pela vagina. Quando fodia com uma mulher, pensava que havia saido de um orificio como aquele. Os homens, coitados, saem de um orificio e passam o resto da vida loucos por voltarem a entrar, para regressarem à origem. Só quando tiram o pénis da vagina é que conseguem ser homens - recuperam a força da autonomia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel sente-se agora um homem entre homens, seus iguais. Experimentava o prazer da semelhança.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115685109069859805?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115685109069859805/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115685109069859805&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115685109069859805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115685109069859805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/08/o-prazer-da-semelhana.html' title='O prazer da semelhança'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115607258852564504</id><published>2006-08-20T10:54:00.000+01:00</published><updated>2006-08-21T13:47:11.006+01:00</updated><title type='text'>Cacifos</title><content type='html'>Não lembra a ninguém, nem mesmo ao diabo, enfiar-se numa sauna em pleno mês de Agosto, mas pode mais o desejo do que o senso comum. Como seria de esperar, estava quase vazia: um par de velhos, um turista rosáceo e louro e um quarentão nervoso que nem era preciso olhar para o seu anular para perceber que seria casado e muito provavelmente estaria ali a fazer a sua estreia neste ambiente. Eu não fazia parte daquela realidade. Farto de vapores e de calores, encaminhei-me com passos decididos para o vestiário, e quando me preparava para abrir o cacifo com a chave senti uma ligeira tontura. "A tensão", pensei. Tinha de sair dali quanto antes, precisava de ares menos inquinados, mas faltavam-me as forças. Passado um instante, já numa das cabines, deitei-me de costas num colchão. Quando fechei os olhos, ainda conservava na retina a imagem dos cacifos, que me fez recordar outros cacifos, os do quartel onde há meia dúzia de anos fizera o serviço militar. Vi-os como se nunca tivesse saído de lá, deitado no beliche inferior e febril. Um companheiro ajudara-me a deitar-me, porque, no estado em que então me encontrava, não me convinha fazer as manobras. E ali estava, mais morto do que vivo e sozinho; ou pelo menos assim pensara até ouvir passos, um pigarreio e o roçar de uma esfregona pelo chão. A cabeça estalava e a dor fez com que me lembrasse que tinha aspirinas algures. Levantei-me, invocando uma réstia de força onde sabia não a ter e, com um mal-estar incrivel, lá consegui deslizar por entre os cacifos, até encontrar o meu. Abri-o com a chave e meti a cabeça lá dentro, procurando na confusão a embalagem das aspirinas. Pouco depois, um braço rodeou-me a cintura e um corpo colou-se ao meu. Senti nas nádegas uma erecção. Ao arrepio da febre, juntou-se o arrepio do susto e da expectativa do prazer. Duas mãos resolutas desabotoaram-me as calças, descendo-as juntamente com as cuecas até aos tornozelos. Ouvi o som de uma cuspidela e senti logo a seguir a saliva cair no extremo inferior da coluna. A palma de uma mão desceu por entre as minhas nádegas e alguns  dedos empapados lubrificaram-me o esfincter tenso. Mesmo assim, a penetração foi tão dolorosa quanto uma descarga eléctrica. Saiu-me do fundo da garganta um gemido que soou a um lamento e a uma rendição. Até que senti um par de tomates bem apertados contra as nádegas. Relaxei-me então e predispus-me ao prazer que viria depois do suplício. O caralho retrocedia, aliviando um pouco a pressão no esfincter, para logo depois voltar a castigá-lo. A lâmina gelada esquadrinhava-me as entranhas. Durante aquele tempo fui incapaz de pensar nisso, mas ele estava seguramente a preparar-me para o que viria a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preferia mil vezes que ele continuasse a foder-me assim - brutalmente mas com uma inusitada ponta de ternura. Já estava completamente dilatado e começava a gostar da invasão imposta pelo seu membro. As investidas começaram sem aviso prévio, cada vez mais egoistas, cada vez mais selvagens. Quis tirar a cabeça do cacifo, ver quem era o meu algoz e até tentar roubar-lhe um beijo, mas uma mão impediu-me,  mantendo-me a cabeça lá dentro. Estive quase  a morder a língua e a engoli-la, enquanto ele continuava a escavar-me as entranhas, bombeando impiedosamente. Os golpes secos e brutais do meu corpo contra o metal dos cacifos ecoava na camarata vazia. O soldado desconhecido movia os quadris com tal fúria que os cacifos começaram a vibrar e todos os cadeados golpeavam em uníssono nas portas. Gritei e um urro prolongou o meu grito. Viemo-nos os dois. Inesperadamente, ele esperou que eu me viesse para só depois ejacular. Senti um alivio enorme quando o violador saiu de dentro de mim. Um regato quente escorreu-me por uma das pernas. Deslizei para o chão, sem conseguir sentir as pernas. Ouvi novamente o roçar de uma esfregona pelo chão, um pigarreio e uns passos que se afastavam. Abri os olhos, alguém gritou: "Vamos fechar!"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115607258852564504?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115607258852564504/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115607258852564504&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115607258852564504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115607258852564504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/08/cacifos.html' title='Cacifos'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115555469074302860</id><published>2006-08-14T12:08:00.000+01:00</published><updated>2006-08-14T12:24:50.826+01:00</updated><title type='text'>Será que, se ficar, conseguirei amá-lo?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Até agora, se tentasse dividir as pessoas entre as que conseguem apaixonar-se e as que não conseguem, teria que me incluir no segundo grupo. Mas houve um tempo em que acordava a meio da noite e era capaz de ficar a olhar durante quatro horas para o rosto de alguém que, adormecido, ignorava ser alvo de tamanha devoção; houve também um tempo em que ainda era capaz de sorrir - não um sorriso qualquer, mas aquele que mostramos às pessoas que amamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdida toda e qualquer  inocência, nada mais nos resta a não ser assumir de uma vez por todas que somos uns grandesissimos filhos da puta, capazes de fingir amor só para ter a sensação de que somos amados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite, porém, dou conta de que a insónia regressou e, com ela, veio também o sorriso idiota dos que sabem que ainda podem vir a ser amados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este que está na cama, como os joelhos a tocarem o queixo, como se temesse que o atacasse durante o sono, pouco mais sei do que um nome, idade e profissão. Conheci-o através da internet. Há anos que tenho perfil no Gaydar. Enviou-me uma mensagem que me fez rir às gargalhadas e entornar cerveja sobre a secretária. Gostei da forma como sorriu para mim quando nos encontramos. A pila capaz de dar prazer a um cavalo foi apenas um extra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijámo-nos até ficarmos tontos com a falta de oxigénio, cobrimo-nos de sémen e, de vez em quando, púnhamo-nos a olhar um para o outro com uma admiração sincera, até que um de nós desatava a rir e as gargalhadas contagiavam o outro. Fiquei a pensar no tipo de homem é que teria metido na minha cama. Podia ficar o dia todo a admirar a forma enternecedora como dorme e a pensar em todas as coisas que podem ocorrer-nos depois de passarmos a noite com um homem no qual admiramos o cheiro, o sabor e o riso. Será que vai cá ficar? Será que quero que fique? Adoro este instante, em que o parceiro que mal conhecemos continua a dormir e podemos pensar à vontade que talvez estejamos apaixonados por ele, sabendo lá no fundo que podemos impressioná-lo com um pequeno-almoço caseiro e depois mandá-lo à merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que, se ficar, conseguirei amá-lo? Por que será que, mal constatei que me sentia feliz sozinho, ou melhor, que nunca me sentira tão feliz, já estou outra vez a perder-me em fantasias domésticas, a aturar homens cujo brilho nos olhos é interesseiro? Talvez não seja o caso deste, mas mal o conheço. Ou será que já sei tudo o que há a saber, tudo o que é significativo?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115555469074302860?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115555469074302860/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115555469074302860&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115555469074302860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115555469074302860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/08/ser-que-se-ficar-conseguirei-am-lo.html' title='Será que, se ficar, conseguirei amá-lo?'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115401474403294288</id><published>2006-07-27T16:35:00.000+01:00</published><updated>2006-07-27T16:39:04.053+01:00</updated><title type='text'>Férias</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/1600/list.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2080/2725/400/list.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Estou, oficialmente, de férias. Tal como na foto de Herbert List, espero arranjar companhia para os meus óculos de sol. Estou de volta em Setembro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115401474403294288?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115401474403294288/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115401474403294288&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115401474403294288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115401474403294288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/frias.html' title='Férias'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115390857120554376</id><published>2006-07-26T10:55:00.000+01:00</published><updated>2006-07-26T11:09:32.340+01:00</updated><title type='text'>Timidez</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;«Não fosse tão tímido.» Vai fazer trinta e dois anos e pode contar pelos dedos das mãos as relações indeléveis que teve. Chegam-lhe os dedos, na verdade, pois nunca quis contar as loucuras que cometeu depois de Abílio o ter deixado. O que, isso sim, não teria conta é a quantidade de amores platónicos vividos e que a timidez não lhe permitiu, pelo menos, tentar começar. No emprego, amou três colegas até às lágrimas, mas a eles de certeza que nunca lhes passou pela cabeça. A pior das paixões foi com Alfredo, o chefe de secretaria. Nunca percebeu o que é que viu naquele magricelas pálido e obsessivo, ainda com olhar de quem acabou de aterrar num mundo completamente estranho. É possível que o seu desamparo e a sua languídez estivessem na origem daquele amor, jamais concretizado, estava convencido, pela sua irreprimível timidez. Alfredo, com dois convites para provar o seu esparguete &lt;span style="font-style: italic;"&gt;a la carbonara&lt;/span&gt;, duas idas ao cinema ou à bola teria sido caçado, mas no trabalho não podia, e não sabia porquê. Nem no fundo, nem à superficie, lhe interessava que os outros soubessem a verdade, alguns até o conheciam bem, mas um atavismo remoto de que há coisas que se respeitam, aliado ao receio de possiveis represálias laborais, tinham-no transformado num caçador furtivo e vadio, que só de noite ia à cidade pensando que em algum bar, algum cinema, em alguma sauna, apareceria o homem dos seus sonhos - que tanto se pareceria com Abílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não fosse tão tímido, sabia-o, um dia iria para a rua, gritaria o que queria sentir, seria belo e mais louca que a louca mais louca. «Mas a verdade é que não as suporto.»&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115390857120554376?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115390857120554376/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115390857120554376&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115390857120554376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115390857120554376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/timidez.html' title='Timidez'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115365240987053468</id><published>2006-07-23T11:35:00.000+01:00</published><updated>2006-07-23T12:00:09.910+01:00</updated><title type='text'>Facadinha</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu amava o Mário. Mas isso não impedia que me interessasse por outros homens. (Ah, os homens) Acho que tive uma recaída, pensei ao chegar a casa de Victor. Saciedade: exigências físicas e morais satisfeitas. O que não acontecia. Por isso, estava ali, na casa de Victor numa noite chuvosa e estimulante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bebemos café e  uma bagaceira, reclinados em grandes almofadas coloridas espalhadas pela sala.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Por onde andaste?»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Passei a tarde num hotel.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Justificação prévia de um possível desempenho medíocre?»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Talvez.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O pé de Victor era grande; a sola, escura de sujidade, brilhava como se lhe tivessem puxado lustro com um pano de flanela; o dedo polegar era desproporcionalmente maior do que os outros. Uma djebala larga e comprida cobria-lhe o corpo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Estou a ficar gordo, com uma barriguinha», disse Victor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«Estamos todos a ficar gordos e preocupados com isso. A opulência engorda. Esse é um dos contratempos, talvez o único, da riqueza.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;«O truque para ninguém perceber que está gordo é simples - basta usar roupa mais larga e durante algum tempo abrir a boca só para dizer asneiras. Num mês perco tudo.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Victor ajeitou a túnica com um gesto que, por instantes, deixou as pernas magras inteiramente à mostra. Um silêncio inconfortável e expectante instalou-se entre nós. Victor mexeu novamente na djebala, com um sorriso que foi entendido por mim como recatado e encorajador: ele que tome a iniciativa que eu cumpro a minha parte.  Uma das pernas de Victor estava agora flexionada, pondo em destaque um joelho frágil, confiável, limpo, intímo. Continuamos à espera, contingentes. Victor aperta a sua própria perna e pousou o rosto sobre o joelho. Inclinando-me, rocei com os lábios o joelho dele, sentindo no rosto a expiração das suas narinas; o meu olhar desceu pela sua perna até ao pé, detendo-se na pulsação da artéria abaixo do tornozelo, distendendo a pele em pequenas bolhas latejantes. Deitei-me de costas no almofadão, puxando o corpo obediente de Victor. Mas sentei-me pouco depois e contemplei o corpo estendido ao meu lado. De seguida, sem pressa, toquei nos pés de Victor, sentindo a aspereza dos ossos, e acariciei-lhe o peito do pé com os dedos e a palma das mãos. Victor separou mais as pernas. Com facilidade desnudei o seu sexo e a barriga. Ele ergueu o corpo e, com destreza, tirou a djebala por cima da cabeça. Como o tapete de sisal picasse os nossos corpos, levantamo-nos e fomos para o quarto, onde a cama larga, forrada de macios lençois perfumados já estava preparada para receber-nos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115365240987053468?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115365240987053468/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115365240987053468&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115365240987053468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115365240987053468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/facadinha.html' title='Facadinha'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115357115328217087</id><published>2006-07-22T12:51:00.000+01:00</published><updated>2006-07-22T13:25:53.376+01:00</updated><title type='text'>Corpo que parte para uma lembrança</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Natal, 2004. Finalmente livre das obrigações de sangue, saltava pela primeira vez do aturdimento das convenções para o entusiasmo de passar aquela quadra numa das minhsa ilhas, junto de indivíduos que entendimentos particulares tornaram felizes as nossas amizades.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naquela vez, atravessaríamos a ilha na sua zona mais estreita, trocando o Sul de Ponta Delgada e a harmónia do seu vetusto hotel pelo Norte de Ribeira Grande e a suavidade do salão habitado por um quadro afim de pessoas afeitas ao descontínuo. Seria um repouso tão grande como não ir a nenhuma praia no Verão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Chovia bastante quando se partia. De vários sítios, cinco ou seis seres de alheamento ao obrigatório quotidiano fomo-nos sentando em redor do vinho e das conversas que se estendem sobre quase coisa alguma, histórias cruzadas de vivos e desaparecidos numa lentíssima alegria de tristeza passageira. Na rádio avisavam da eminência de ventos ciclónicos, talvez a culminar antes da hora do almoço seguinte. Esses avisos, mais do que qualquer sono inexistente, levaram-nos para a rua.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aquecido em que o ar se tornara agourava deslocamentos que levavam para os seus pousos cada um. Antes de as velas dos carros humedecerem ou de algum tronco se varar num desvio ou de um golpe mais rude atirar para uma valeta a minúscula viatura alugada; a mais barata pedíramos nós. Mas não era susto, antes regularidade, o que se deslocava nos muitos carros vagarosos a caminho de Ponta Delgada, talvez num regresso um pouco antecipado como connosco estava a acontecer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No hotel apenas connosco como hóspedes nessa noite havia um único recebedor, de um louro calvo e sorridente, a camisa entreaberta como seus lábios apontados aos nossos olhos. Percebi, percebemos e eu perguntei-lhe por uma bebida, se ainda era possível já tão tarde. «Tenho a noite toda para estar aqui.» Fechou a porta principal, mudou os comandos do telefone para a cozinha, subimos os três. Eu acompanhei-o até ao bar e tocámo-nos ao de leve quando me estendeu a lista, detivemo-nos, tocámos com mais força e beijámo-nos de súbito, no velamento da sala, entre o dilúvio que passava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Corajoso por estar sem mais funcionário algum, corajoso pelo desejo, acedeu a que não nos detivéssemos só os dois no início do fogo, mas com as bebidas nos encontrássemos no quarto os três. Por cerca de uma hora a tempestade não se ouviu, tudo se entrelaçou entre nós, e esse prazer maior de corpos que se esmagam acabou em assolação, como se adivinhava no porto o mar a bater. Via no repouso de depois as suas pernas que se entreabriam e beijava-as com maior mansidão. O seu pescoço alto atravessava o outro peito deitado. Levavam as bocas a uma união agora mais serena e eu corria os meus dedos pelos cabelos dos dois, pelos sexos ainda firmes, pelas nádegas húmidas de um pouco de suor e do lubrificante para os preservativos. Estavam pousados na bandeja com os copos. Reparava vagaroso no seu olhar cinzento, no sorriso com que para mim olhavam desde o cansaço feliz, nos ombros apoiados às brancas almofadas e a penugem clara no peito dos dois reenconstava-se à minha pele mais escura, recomeçava a forçar o intuito de cada músculo. E entre ventos de novo já ouvidos recomeçávamos a euforia da noite, o côncavo da noite, o negrume que cantava em cada abraço, em cada torção, em cada inebriamento até abrir numa luz agora já reconhecida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Iam longas as horas e ouviu-se o telefone. Perto ficava a cozinha. «Perguntavam pelos toldos, como se não tivesse pensado nisso.» E o seu corpo meio vestido era algo que agora partia para uma lembrança, dessas que não se esquece e sempre nos baterá na memória em recantos mais tardios da idade, se ela existir. «Amanhã o meu turno dá-me o dia livre. Outros hóspedes virão. E quando regressar haverá gente a mais. Já só nos cumprimentaremos, tem de ser assim.» Olhei-o, valente já ele fora em mínimos riscos que, contudo, poderiam ter sucedido. E serão os seus ombros a sair uma porta que lhe ajudei a abrir, empurrada ao de leve com o seu calcanhar, a mais forte imagem que reterei. Nós fomos tomar um banho e ficámos juntos a ler cada um o seu prazer.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115357115328217087?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115357115328217087/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115357115328217087&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115357115328217087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115357115328217087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/corpo-que-parte-para-uma-lembrana.html' title='Corpo que parte para uma lembrança'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115347942823495080</id><published>2006-07-21T11:47:00.000+01:00</published><updated>2006-07-21T11:57:08.243+01:00</updated><title type='text'>Antes do sono</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estamos sempre a foder, ou a acabarmos de foder, ou a preparar-nos para foder. Inventamos uma vida que nunca chegaremos a vivê-la. Esquecêmo-nos das nossas vidas fora dos quartos pirosos de hoteis de subúrbios.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Eduardo é o meu amor. Eu sou o amor dele. Somos isso um para o outro desde os tempos do ciclo preparatório. Damos as mãos no fim. Não fazemos mais nada. Mas não reparamos. Não vamos a lado nenhum. Não podemos. Mas mesmo que pudéssemos, não iríamos. Não fazemos planos. Não temos. Estamos juntos de vez em quando. É a única coisa com que nos importamos: estamos juntos de vez em quando, como há três horas estivémos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dois velhos ou nem dois velhos sequer. São nove horas da noite. Cada um no seu quarto, enquanto as respectivas mulheres não voltam da casa-de-banho. Ele não me ama como eu o amo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas eu também não o amo como já amei. Mas falámos como se nos amássemos mais que nunca. Nada mais é importante. nove horas da noite. Ninguém.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115347942823495080?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115347942823495080/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115347942823495080&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115347942823495080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115347942823495080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/antes-do-sono.html' title='Antes do sono'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115281336597129651</id><published>2006-07-13T18:13:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T10:36:08.453+01:00</updated><title type='text'>Bolond</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lászlo deixava-se levar pelo lugar-comum de que uma pessoa tem a idade que sente ter. Quando o conheci, Lászlo tinha sessenta e quatro anos. mas sentia-se como se tivesse dezoito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artur e Guido, os meus amantes na altura, tinham a sensação premonitória do que iria acontecer, mas nunca tive a oportunidade de controlar, porque tinha vergonha e desde a partida de Lászlo nunca mais falei com eles a seu respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artur via-se a si próprio como o absolutamente oposto de Lászlo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou um fala-barato - dizia ele - e é claro que também eu te desejo, mas se agora me perguntares se com isso quero realmente alguma coisa: não. Sou um idiota, mas ainda tenho olhos na cara para ver como as coisas são. O Lászlo é diferente: mais veemente, mais apaixonado, talvez mais irrealista, quem poderá dizer? Ele quer-te, ponto final. É claro que isso é tudo uma forma de resistir à morte, não precisas de me dizer nada, menino, que eu sei muito bem como é. Tu chamas-nos de novo à vida, ou que é que pensas? A verdade é que é uma história magnífica: dois velhadas que se viram do avesso por um segundo da tua atenção, por um breve brilho dos teus olhos e um beijo da tua boca rosada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era em tom irónico que Artur pronunciava frases como esta. Nesses momentos, acentuava fortemente o tom de artificialidade, falava arrastadamente e formando as palavras com os lábios grossos e exagerada solenidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que tinha razão: Lászlo queria-me, inteirinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do nosso encontro na biblioteca, tinha-se-nos juntado, no intervalo da aula seguinte, acompanhando-nos, inclusive, em seguida, até ao bar. Quase não pronunciara uma palavra, mas não tinha deixado de me olhar a espaços regulares, com ar inquiridor. Era evidente que não retirava qualquer prazer disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa dessas quartas-feiras, ao chegar a casa, encontrei um bilhete dobrado na minha pasta. Não trazia envelope.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bilhete era de Lászlo. Propunha-me que nos encontrássemos no bar uma hora antes do início da aula, para podermos ter uma conversa a sério sem sermos esmagados pela alegria ruidosa das reuniões de massas no fim da aula. Tinha escrito a direcção no fundo do bilhete, e eu respondi-lhe que achava óptimo. Aliás, eu também não fazia o que quer que fosse, nas horas que antecediam as aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir dessa altura, todas as quartas-feiras de manhã me sentava a uma mesa, em frente de Lászlo, desde as dez até às onze e um quarto. Ao contrário de Artur, não gostava de se ouvir, e jamais alguém me fez tantas perguntas como Lászlo. Apaixonas-te muitas vezes? Porque tipo de homens? Para ti, um homem tem de ser atraente? Os homens despertam em ti desejo sexual? Quem? Como? Quando? Há qualquer coisa que influencie os teus desejos: hormonas, filmes, leituras? Contigo, um homem tem de ser apaixonado ou, pelo contrário, precisamente reservado? Que significa o amor para ti?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Experimentem só!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desconhecimento revelado pelas perguntas, o interesse genuíno com que as fazia e a sua própria franqueza, quando, por minha vez, lhe fazia perguntas a ele, davam-me uma sensação de segurança e eu treinava-me a dar respostas tão francas quanto possível, o que exigia grande esforço da minha parte. Mas tinha confiança nele e, sobretudo, nas suas interpretações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lászlo não me dizia como eu era realmente encantador, simpático, terno, solícito, espontâneo, alegre, sensível, inteligente e honesto, coisa que nunca consegui ouvir sem experimentar a sensação de que, mais uma vez, alguém tinha, de certo modo, caído na esparrela e não tinha penetrado na minha verdadeira natureza, que, aliás, nem mesmo eu fazia a menor ideia de como seria, mas a respeito da qual tinha as piores suspeitas. Lászlo dizia sem rodeios que eu era impenetrável, orgulhoso, agressivo, obcecado, melancólico, pessimista, desconfiado, destrutivo, megalómano, inacessível e narcissista. Classificava os meus anseios amorosos como &lt;span style="font-style: italic;"&gt;selige&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sehnsucht&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(1)&lt;/span&gt;, e o meu lema em questões de amor como: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;und wenn ich dich liebe, was geht es dich an&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(2)&lt;/span&gt;, e os meus verdadeiros amores como raridades singulares, porque eu amava como os homens da triba Asra, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;welche sterben, wenn sie lieben&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(3)&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acreditava nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava a tentar compreender por que motivos eu era como era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu aguardava com ansiedade os nossos encontros. No intervalo entre as quartas-feiras, escrevíamos um ao outro cartas que se tinham tornado cada vez mais frequentes; com o passar do tempo, inclusive, várias por semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lászlo dizia, escrevia e proclamava que estava apaixonado, mas eu pensava que não havia mal nisso, que se tratava de qualquer coisa de que ele próprio tirava prazer, sem para isso ter verdadeiramente necessidade de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lászlo  persistia, teimosamente, convencido.  Queria o meu amor. O tom das nossas  conversas ia-se tornando cada vez mais mordaz; as suas cartas, acusações;  as minhas, rejeições e defesas. Ele retinha tudo na memória, perseguia-me com as minhas  próprias respostas, interpretava cada olhar, cada contacto, cada ponto e vírgula; interpretava cada palavra e sempre de maneira diferente daquilo que eu pretendia dizer, dizia-lhe eu, escrevia-lhe eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Conquistas todos, e nunca te deixas conquistar - disse ele. - Deixares seria uma reacção retrospectiva à tua relação com Artur - disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixa-te de me aborrecer - disse eu. - Deixa de me desejar. Isso enerva-me. Não estás a ser realista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As nossas cartas acabaram por se tornar interpretações de interpretações, e, por fim, já não me atrevia a escrever frases da minha autoria. Durante uma semana respondi apenas com citações:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com Kierkegaard, quando me acusou de ter dado a impressão, com o meu comportamento, de também o desejar a ele totalmente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Man erfährt aus dem tagenbuch, dass es mitunter etwas ganz Willkürliches war, das er begehrte, zum Beispiel einen Gruss, und um keinen Preis mehr annehmen wollte, weil es das Schönste bei der Betreffenden war&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(4)&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com Kafka, quando me escreveu que eu era caprichoso e imprevisível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ich ruhe eben nicht in mir, ich bin nicht immer "etwas" und wenn einmal "etwas" war, bezahle ich es mit dem 2Nichtsein" von Monaten&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(5)&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram as últimas cartas. Numa manhã de quarta-feira de Abril, recebi um postal ilustrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ponto final. Desisto. Amanhã de manhã não estarei aí e nunca mais vou aborrecer-te. O &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bolond&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;(6)&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(1) Ânsia de viver.&lt;br /&gt;(2) Se te amo, não tens nada com isso.&lt;br /&gt;(3) Os que morrem quando amam.&lt;br /&gt;(4) Sabemos que às vezes aconteciam coisas absolutamente arbitrárias; por exemplo, o homem ansiava por uma saudação e de modo algum pretendia receber mais do que isso, porque o mais agradável era que as pesoas o saudassem.&lt;br /&gt;(5) Nestes momentos não estou em mim; nem sempre sou algo, e se algumas vezes o sou, pago logo não sendo nada durante meses.&lt;br /&gt;(6) Velho tonto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115281336597129651?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115281336597129651/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115281336597129651&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115281336597129651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115281336597129651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/bolond.html' title='Bolond'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115261366250833066</id><published>2006-07-11T11:06:00.000+01:00</published><updated>2006-07-11T11:27:42.570+01:00</updated><title type='text'>Conversa de travesseiro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Houve muitos homens - diz ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade que sempre houve homens - digo eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falo-lhe dos homens, até que me diz que me cale. Põe-no doente, de ciúmes, diz ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Contigo, é diferente - digo eu. - Ainda nunca amei alguém, ainda não pertenci a quem quer que  fosse. Foram sempre histórias estranhas. Fui sempre alguém que era mantido em segredo. E eu deixava que assim fosse. Estava tudo bem asim. Mas contigo é autêntico, é real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a vida tenho sonhado com isto, com qualquer coisa  real. A realidade é espantosamente verdadeira e, não obstante, mantém-se extremamente  inacessível. Tenho sempre a sensação de que não é assim, de que, tal como são as coisas, há nela qualquer coisa que não bate certa. A realidade  surge sempre de mãos dadas com algo que também  lhe retira a força, a torna fictícia, com qualquer coisa de mentiroso e falso. A arte também tem isso: é realmente aquilo que é, mas, não obstante, também é outra coisa qualquer. Muito difícil!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha opinião, é também disso que tratam as tuas esculturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Achas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que tinhas tu em vista? Que pretendias conseguir junto das pessoas que viam as tuas obras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No fundo, qualquer coisa como o sentido da realidade, coisa que, aliás, nem eu próprio tenho. O que era estranho era que com as minhas esculturas pretendia conseguir que as pessoas deixasem de olhar para as minhas obras e aprendessem a ver o que é verdadeiramente real. Nós não podemos apreender a realidade. Vemos precisamente através da língua e através da arte e não vemos o que existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O Gonçalo chegava e o Gonçalo partia. Quando partia, eu ficava para trás, sem saber o que fazer comigo mesmo. Sentia-lhe a falta. Já não sabia como contentar-me com os meus próprios olhos, com a minha boca e os meus ouvidos. Já não me bastava a mim próprio. Todas as vezes, ficava louco de medo de que ele nunca mais voltasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Gonçalo, porém, voltava sempre. Inclusive para me deixar bem claro que, de facto, nunca havia a certeza de que iria regressar sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que eu queria era estar dentro de ti - digo-lhe eu -, como uma amiba, ou como uma espécie de doença, de que, a pouco e pouco, começamos a gostar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;- Será uma lei do verdadeiro amor - pergunto ao Gonçalo - estarmos juntos, para logo voltarmos a separar-nos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei. Talvez também eu nunca tenha pertencido verdadeiramente a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É uma coreografia cruel, a do amor. Não gosto dela. Atrair e repelir... Quem determinou que tinha de ser assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez também possa ser de outro modo. Talvez a culpa seja minha, porque mantenho sempre aberta uma porta de saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E porque não acabas com isso, com manter aberta uma porta de saída?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A verdade é que gosto realmente de ti, ou como é que se diz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem sei que gostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas talvez não o suficiente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115261366250833066?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115261366250833066/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115261366250833066&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115261366250833066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115261366250833066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/07/conversa-de-travesseiro.html' title='Conversa de travesseiro'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115115318720527726</id><published>2006-06-24T13:37:00.000+01:00</published><updated>2006-06-24T15:09:09.520+01:00</updated><title type='text'>Exercício de espera</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Lembro-me bem de quando o conheci. Ria com vontade, tão alegre, e esse riso contrastava com a reserva do olhar. Estava encerrado em si mesmo e exalava mistérios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ligação entre nós fez-se de imediato. Conversámos e todos os assuntos se desenvolviam e se desdobravam em outros, de tal forma que não concluímos nenhum. Ele, raciocínio matemático; eu, literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morávamos em cidades distantes - ele, em Bragança; eu, em Faro. Encontrámo-nos em Lisboa, por ocasião de um seminário. Usámos depois a internet para conversar; durante muitas noites falei-lhe de coisas que desconhecia em mim, compartilhando, pela primeira vez, o meu ser obscuro, doce e dorido. Nu na sua presença, encontrei a minha força. Forte, fui ao seu encontro. Também ele foi-se deixando escapar para que eu o compreendesse. No trabalho de decifrar as suas reticências, cartografei os seus contornos. Ele, descodificando-se aos meus olhos através de milhares de palavras trocadas através dos nossos computadores; eu, descobrindo-me uma pessoa de verdade. E assim apaixonei-me.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu havia pedido a Deus uma paixão avassaladora. Ele atendera-me.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Então, uma enxurrada de palavras tomou conta de mim. Todas as entidades - o Delírio, o Impronunciável, a Vida, o Intenso, o Raro, a Aleluia - que eu adivinhava, percebia, imaginava, chegavam-me em visita clara. Arrebatado pelo Encantamento, comecei a expressar o que havia em mim, a usar outro olhar para ver o que se passava dm meu redor. Tudo apareceu-me claro, novo por ser claro. Andava com passos certos e decididos - era bom estar vivo (e como isso era novo!)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quando nos encontrámos num quarto de hotel, outra vez em Lisboa, o meu corpo acolheu as suas mãos com uma volúpia até então ignorada. Ele completou a sua entrada em mim, abrindo-me onde eu sempre fora somente dor, amarras e reservas. Chegara o momento de receber a parte de prazer que me cabia e ainda não pudera usufruir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele teve medo do que ofereci: os seus próprios devaneios desenhados na nossa pele com suor, saliva e movimento. Quis fugir, receoso de perder a alma no precipicío que eu descerrara diante dos olhos dele. Ele, racional; eu, suicida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Voltei para Faro, endoideci com desejos carnais, ungido com delicías. Em noites silenciosas, no escuro do quarto, aprendi a rezar o seu nome, sabendo que Deus concordava em dividir com um mortal a minha devoção porque o sentimento que movia os meus lábios era sagrado. Louco, louco - apelidava-me, contrito. Quero-o, rezava. Quero-o, gemia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas a dúvida consumia-o. E decidimos que não voltaríamos a estar um com o outro. Interromperíamos também as nossas conversas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Resolvi, então, procurar uma caixa bem bonita para guardar as cartas que lhe escreveria durante o mês e não poderia enviar. Depois encontraria outras, sempre bonitas mas sempre diferentes, para guardar as cartas dos outros meses. Decoraria a casa com elas. Mas eu estava viciado na comunicação que estabeleceramos: era tarde demais para mim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas também já era tarde demais para ele. Não lhe era mais possível voltar ao lugar-comum. Fizeram-lhe falta o meu corpo e os seus liquídos oferecidos como hóstia e vinho, o novo espaço que eu criara na sua vida, a veem~encia com que eu pronunciava as palavras, a minha certeza de lhe estar destinado desde o princípio dos tempos. Eu era forte, e ele gostava disso; sabia-me vulnerável, mas adivinhava que não precisaria de levar-me pela mão, e isso encantara-o. Ele amava-me, mas submergia no medo e mantinha distâncias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O universo conspirou a meu favor. As raízes que prendiam-no a Bragança apodreceram e perderam a força.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entrou cá em casa para ficar pouco tempo. Demorei a acreditar que a sua presença era real. Deliciava-me o movimento que fazia no colchão e que, em ondas, me alcançava. O riso dele preenchia o apartamento e iluminava-me. Agora era eu a ter medo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Descobri-me ardiloso. Ao acordar, beijova todo o seu corpo, todos os dias, para certificar-me de que estava ali de facto, e também para que se habituasse aos meus beijos e não quisesse ir embora. Cumpri todas as suas vontades. Entreguei o meu corpo às suas experiências e lascivía.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele foi baixando as guardas. Acerquei-me das suas trincheiras. Ele, protegendo-se ainda; eu, avançando na sua direcção com passos comedidos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Procurava-me nas madrugadas para sessões de sexo desesperado ou, dentro do sono, abraçava-me com força , só assim rendido ao desejo de descansar em mim. Ele, encarcerado em si mesmo; eu, à espera da sua libertação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A saudade que ele sentia de Bragança contristava-me a alma. O cheiro das roupas dele, quando voltava em viagens curtas à terra, era o meu desespero e a minha esperança.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enraizou-se aos poucos em faro. Enraizou-se lentamente em mim. Mas, embora irremediavelmente apaixonado, ainda conservava uma certa distância.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto transcrevíamos a nossa paixão para o quotidiano, exercitei a arte da espera. Dava-me inteiro, e dele recebia apenas indicações do amor que ele tinha por mim. Quis vasculhar os seus sitios mais recônditos, ele não se deixava penetrar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rendi-me, um dia. Abri os meus braços para os seus abismos inescrutáveis. Quero-o assim, rezei. Quero-o assim, gemi.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entregou-se, então.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou o seu homem. Ele é o meu homem. Em noites inesperadas, revela-se mágico. Em dias auspiciosos, conta-me segredos. Olha-me no meio de muitas pessoas com olhar de dono.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115115318720527726?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115115318720527726/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115115318720527726&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115115318720527726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115115318720527726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/exerccio-de-espera.html' title='Exercício de espera'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115106222417991084</id><published>2006-06-23T12:05:00.000+01:00</published><updated>2006-06-23T12:30:24.230+01:00</updated><title type='text'>Irresponsabilidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;(Ele veio cá para casa a 14 de Novembro e no fim do mês já tinha desaparecido. Quanto a mim, aquilo até durou duas semanas a mais.) Conheci-o no Max, quando estava com uns amigos a meio da minha quarta cerveja. Ele entrou pela porta, levantou a bandeira Bear e eu vi logo, aquele gajo é meu. No fim da noite fui ao pé dele e disse-lhe, vai à merda, pá. Fomos para minha casa e nunca mais me consegui livrar dele. Aquele caralho de merda agarrou-se a mim. Só por causa de uma noite. Colou-se à minha cama. De manhã, quando eu ia para o trabalho, ficava a ressonar, e, porra, quando voltava encontrava-o ressonando de cu para o ar. Não ia trabalhar, nem às compras, o filho da puta nem sequer levava os sacos do lixo para fora. Engoli isso tudo, porque, de certo modo, até gostava dele, pelo menos na cama, quando ele não estava a dormir. Ele propôs-me "casamento" uma semana depois do nosso primeiro encontro, e eu aceitei, porque estava um Novembro de merda com todas as frentes frias, Bairro Alto e Princípe Real e tudo. Pensei, vamos ter uma razão para festejar com a malta, tanto faz com que tipo de gajo, "caso-me" e pronto. O "casamento" começou no Max e acabou no Bric, recebemos alguns presentes, apanhámos uma besana do caraças e toda a gente se divertiu imenso. A seguir veio o quotidiano, a mesma merda, o gajo fazia palavras cruzadas e cheirava mal. Ainda consegui engolir isso, mas quando estávamos na primeira semana de "casados, ele começou a queixar-se, que tinha tido o caralho de uma infância triste e uma juventude de merda e que ninguém se importava com ele e que não tinha nenhuma razão para continuar vivo. Ouvi aquela merda durante uma semana, todas as noites, pá, a mesma choradeira, e eu que pensava que tinha arranjado um homem a sério. Depois da primeira semana fiquei numa pilha de nervos e pensei, o que é que eu falo com um gajo assim, parece feito de ranho. Na segunda semana ele só piorou, começou a choramingar a morte de uma avó qualquer há quinze anos atrás. Eu disse-lhe, vai-te foder, cabrão de merda. Ele apontou para a aliança dele. Eu atirei a minha pela janela, mas ele não se mexeu. Tentei empurrá-lo para as escadas, mas era tão mole que não consegui nada. Chamei a polícia e disse, levem-no para a cona da mãe dele. Os bófias olharam para mim, depois olharam para o gajo e puseram-se a andar, e eu agarrei na faca grande da cozinha e espetei-a nele umas quantas vezes. Foda-se, que aquele gajo nem sequer resistiu, morreu na minha única cama. Telefonei para o 118 e disse que o meu homem se tinha suicidado com a faca grande da cozinha, mesmo no coração. Apareceram outros bófias, mais giros do que os primeiros, a perguntar pormenores. Eu contei tudo e disse que tinha ido à casa de banho, estava a ler uma revista e entretanto o gajo tinha-se suicidado. Acreditaram em tudo, e fui para casa de um amigo. Ele acalmou-me, disse que estas coisas acontecem de vez em quando. Bebemos café e de manhã fomos trabalhar. Os amigos disseram-me que eu tinha feito bem, a culpa era toda do fulano que ficava assim parado, a choramingar sobre coisas de merdas. Porra, eu preciso de um homem que saiba fazer coisas, que traga dinheiro para ajudar a pagar a casa e compre comida para o frigorífico... que um homem, caralho, também tem que ter algumas responsabilidades se vive com connosco.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115106222417991084?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115106222417991084/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115106222417991084&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115106222417991084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115106222417991084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/irresponsabilidade.html' title='Irresponsabilidade'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115063336333813074</id><published>2006-06-18T12:53:00.000+01:00</published><updated>2006-06-18T13:22:43.360+01:00</updated><title type='text'>Não matei uma pessoa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu matei-o. Matei-o como uma mosca. Sem a mínima sensação de nojo ou de pena. Matei-o e nem sequer fugir. Fiquei ali, de pé, porque quis ver a última cena também. Fiquei de pé, como um pau de bandeira, quando a ambulância e a polícia chegaram e me levaram e o levaram a ele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele vestia uma t-shirt verde muito justa e umas calças de ganga. Era um caso muito típico. Tinha o cabelo cortado muito rente e músculos por todo o lado. De repente, o tipo ficou só deitado ali em cima do asfalto e o sangue escorria da barriga dele numa poça encarnada de Robbialac. Primeiro, não topei nada do que se estava a passar. Eu próprio estava fora da jogada. Pelo menos, sentia-me assim ao princípio. Como se tivesse saltado para lá por acaso. Assim como se visse algo já acontecido. Uma sensação estranha. Ele deitado no chão, sem dizer nada. Agora o esquema parece-me uma palhaçada ridícula. Que a vida de um tipo possa sair por tão pouco. Se a minha vida tivesse sido tão fácil de arrancar eu já teria batido as botas como um bebé de mama. Eu, pelo menos, tenho aguentado muito, ele morreu duma naifada miserável e imprecisa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu acho que aquilo foi uma história mandada do Céu, aquilo dele bater as botas. Foi, digamos, o destino dele, e eu, por acaso, estava lá quando o sino do destino tocou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O facto dele se esvaziar por tão pouco mostra que também merecia dar de frosques. Mostrou-me que ele era um individuo demasiado fraco para viver. Em todo o caso, nunca teria aguentado muito tempo nesta luta. De certo modo, o que eu fiz foi ajudá-lo a sair de uma rotina diária pesada. Dos sofrimentos. Era impossível ele ter uma vida em ordem. Os paneleiros não são felizes. São incuráveis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Desde que me lembro, os paneleiros e outros osciladores de cu sempre me foderam o juízo. Não vejo como é que um homem pode ser paneleiro... é um pensamento inteiramente repugnante. Percebo claramente a razão que levou o Führer a amontoar os paneleiros em câmaras de gás. Acho que todos os maricas deviam morrer para que a gente não tivesse que os ver na rua. Foda-se, achava bem que se agrafasse cada maricas nas trombas até a cara lhes inchar e se fechar. Os maricas não são pessoas. São doidos. Eu não matei uma pessoa, matei um bicho, um bicho desgraçado. Nem sequer era uma mulher. 'Tás a ver, era um BICHO. Um produto falhado da natureza.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Qualquer homem decente teria feito como eu. Não se pode ver uma coisa destas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não quero que se meta a minha casa ou o meu padrasto ao barulho. Não aceito que se rebobine a minha infância para a frente e para trás. Não peço circunstâncias atenuantes. Não tenho falta de compreensão ou de terapia. Quero a sentença completa e tenciono levar tudo até ao fim com honra e orgulho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não me arrependo de nada. Não culpo ninguém. Muito menos a mim próprio, a minha família ou o sistema. Eu sabia o que estava a fazer. E FIZ BEM.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115063336333813074?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115063336333813074/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115063336333813074&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115063336333813074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115063336333813074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/no-matei-uma-pessoa.html' title='Não matei uma pessoa'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115055010461834889</id><published>2006-06-17T13:53:00.000+01:00</published><updated>2006-06-17T14:15:04.646+01:00</updated><title type='text'>Como se outro alguém estivesse também na cama</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No quarto do sótão de uma casa de praia, em meados de Junho. O céu limpo e as temperaturas acima dos trinta graus deram lugar ao vento forte e às trovoadas. O vento faz oscilar na noite escura as copas das árvores na janela. Está deitado, as coxas apertadas uma contra a outra, a caixa toráxica e a depressão do ventre depois da última costela como um penhasco. O lençol sujo, velho e gasto, o cobertor florido esgarçado. Silêncio. Da parede, o jesus misericordioso de cabelos compridos e de barba cuidadosamente aparada olha, sorrindo ligeiramente. A ovelha perdida ao colo. Puxa o cobertor por cima do rosto e respira a sua própria respiração. Como se outro alguém estivesse também na cama. As molas do colchão já não encaixam umas nas outras. Os pensamentos andam no primo que está no sofá da sala, lá em baixo. Nos mamilos, no fundo do umbigo, no membro, na costura entre os testículos e o ânús. Enfia a mão na bifurcação das coxas e acaricia o pénis subterrâneo. O dedo entra e sai do orifício quente. O vento geme por cima do sótão. a mão sobe e desce ao longo do membro. Arrepanha o lençol, morde o cobertor. Pelos dedos, ao longo da mão, escorre um rio espesso de um cheiro a couro e cogumelos. Respira devagar, sugando cada nuance do odor. As nuvens na janela olham por um momento. Os ramos oscilam. Fica deitado, paralisado, saboreia as pontas dos dedos e ouve o bater rápido do coração. Olha fixamente o universo com grandes olhos receosos. Na noite. Só.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115055010461834889?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115055010461834889/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115055010461834889&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115055010461834889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115055010461834889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/como-se-outro-algum-estivesse-tambm-na.html' title='Como se outro alguém estivesse também na cama'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115046003485712296</id><published>2006-06-16T12:57:00.000+01:00</published><updated>2006-06-16T13:13:54.893+01:00</updated><title type='text'>Então não sou o mesmo que de manhã acordou</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;Então não sou o mesmo que de manhã acordou,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;a noite dá-me um nome&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;que nenhum daqueles a quem de dia falei&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;ouviria sem angústia&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rainer Maria Rilke&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O homem está sentado no sofá de napa, numa sala de estar iluminada a luz fluorescente. Os &lt;em&gt;bibelots&lt;/em&gt; de porcelana na estante de madeira, cheios de pó, competem, em vão, com a imagem extranítida do &lt;em&gt;écran&lt;/em&gt; de televisão. Passa uma hora depois da meia-noite, e o homem finge olhar a televisão. Uma luz vermelha vagueia lentamente pela parede até à porta e depois até à reprodução barata de pintura de um mercado pendurada sobre o sofá. Mudar de posição não alivia os músculos tensos do homem. Apanha o telecomando do chão e rebobina o filme, até chegar ao ponto em que um homem louro e de pele muito rosada está a enfiar dentro de si o pepino de meio metro de um preto. O homem põe a mão no coiso, mole, sentindo-o com suavidade. O louro no &lt;em&gt;écran&lt;/em&gt; sorri em êxtase e a sua boca diz "oh". O homem sente o coiso a entesar-se dentro das calças de fato de treino em &lt;em&gt;poliester&lt;/em&gt;, até atingir o seu tamanho máximo. Engole em seco e olha furtivamente para a porta do quarto, branca e fechada. Desvia de novo o olhar para a televisão e vê o pepino de meio metro do preto castigar o poço palpitante de carne limpa e húmida do louro. Mete as mãos nas calças e pega no membro teso, bate-o contra a barriga flácida e espreita com um olho a porta do quarto. O louro chupa então o último centímetro do pepino, gemendo, o homem golpeia-se apressado, com um ar receoso, e o sofá de napa chia. O louro transforma-se num preto que passeia-se algures pela densa selva africana. O homem mete o caralho, mole e molhado, nas calças, deixa de respirar por uns momentos e desliga a televisão. Fica ainda alguns minutos sentado no sofá e sente uma acalmia relaxar-lhe os músculos, do crânio aos calcanhares. A luz vermelha já passou o quadro do mercado. O homem boceja, acaricia ternamente a barriga e os seios frouxos, levanta-se e dirige-se para a porta do quarto, abrindo-a cuidadosamente e desaparecendo na frescura estival do quarto escuro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115046003485712296?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115046003485712296/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115046003485712296&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115046003485712296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115046003485712296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/ento-no-sou-o-mesmo-que-de-manh.html' title='Então não sou o mesmo que de manhã acordou'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115037685248881756</id><published>2006-06-15T13:53:00.000+01:00</published><updated>2006-06-15T14:07:32.510+01:00</updated><title type='text'>Revelação</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;(O que se segue aconteceu antes da democratização das máquinas fotográficas digitais.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois de ter encontrado a focalização certa, o homem tirou a fotografia. Poucos momentos depois, a máquina cuspia, da parte inferior, um pedaço de papel preto, quadrado, que o homem ofereceu, sorrindo, ao rapaz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Se tiveres paciência, estará pronta num minuto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O rapaz desviou os olhos do homem sorridente e olhou desconfiado para o bocado de papel preto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Está quase.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Voltou a olhar para o homem, duvidoso, e depois para o papel.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Fiquei bem?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Muito bem - respondeu o homem e lambeu os lábios secos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Silêncio. Os calções de banho brancos deixavam ver o tronco esguio e as pernas esculpidas cor de café do rapaz, e umas nádegas pequenas e alçadas. O homem desejava-o, e, na praia, todos repararam nisso. O rapaz apoiou-se na outra perna, aborrecido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Daí não sai nada. Continua preta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Pois é. Não sai nada - disse o homem, e deitou o papel preto para o chão. O rapaz pegou-lhe na mão e correram pela orla do mar até às rochas, onde pararam, esbaforidos, rindo e beijando-se.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois da praia se esvaziar, um rapaz ainda mal entrado na adolescência, de casaco de malha azulão e calças arregaçadas pelos tornozelos, encontrou a fotografia. Na fotografia via-se, em frente a um mar azul, um jovem bonito, magro e alto, em calções de banho brancos, que sorria. O rapaz observou a fotografia durante muito tempo, sentiu um estranho prazer e, sem olhar em volta, enfiou a fotografia no bolso do casaco e correu para casa, onde ficou sentado até o pai desligar a televisão e a mãe puxar o autoclismo. Então despiu-se, tirou a fotografia do jovem em calções de banho brancos debaixo da cama e beijou-a.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115037685248881756?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115037685248881756/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115037685248881756&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115037685248881756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115037685248881756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/revelao.html' title='Revelação'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115029669461529650</id><published>2006-06-14T15:41:00.000+01:00</published><updated>2006-06-14T15:51:34.633+01:00</updated><title type='text'>O melhor que tinha para oferecer</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De noite, já tarde, fui procurar Colin Farrel na cidade, mas o que me veio parar às mãos foi qualquer coisa diferente, um turista alemão, vermelhusco e brilhante de gordura. Despi-lhe as roupas, falei-lhe longamente do amor, das estrelas e da lei da gravidade da Terra. Ele ouviu, aguçando as grandes orelhas e sorrindo ingenuamente, com um ar idiota. Quis muito e bem depressa, e eu pus na mesa o melhor que tinha para oferecer. De manhã balbuciava como um bebé acabado de mamar e queria mais. Fiz como ele quis. Sorri e sussurei-lhe ao ouvido, ofereci-lhe tudo numa bandeja de ouro. Deixei-o penetrar-me, ao mesmo tempo que lhe apertava o pescoço com toda a minha força. Um gargarejo, e o seu espírito deslizou-lhe para fora do corpo balofo. Levantei-me, vesti-me, encomendei o pequeno-almoço e saí.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115029669461529650?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115029669461529650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115029669461529650&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115029669461529650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115029669461529650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/o-melhor-que-tinha-para-oferecer.html' title='O melhor que tinha para oferecer'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-115010784988270924</id><published>2006-06-12T11:11:00.000+01:00</published><updated>2006-06-12T11:24:09.893+01:00</updated><title type='text'>Ele voltou à cidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele voltou à cidade há já uma semana, mas ainda não o vi. Não sei dizer porque não quero encontrá-lo. Dou voltas em torno da cidade, e à noite não saio à rua nem vou aos bares, para não o enfrentar sem estar preparado. Não gosto que ele tenha penetrado na minha terra e na minha cidade. Este é o meu mundo e não quero que ele venha e baralhe tudo. Chegou a vir tocar-me à campainha, mas apaguei as luzes e não abri a porta. Ele sabia que eu estava em casa. Deixou uma mensagem no meu telemóvel, com o nome do hotel e o número do quarto. Ouvi a mensagem vezes sem conta, antes de a apagar. Passaram três anos desde que o deixei. Quis ser como o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cowboy&lt;/span&gt; que se vai embora deixando a impressão de que um dia voltará. Mas nunca pensei voltar antes e agora muito menos. Deixei-o porque queria viver sozinho. Não suporto o cheiro das outras pessoas, nem as caras que fazem, nem a maneira como se sentam à mesa ou em frente da televisão. Quero viver sozinho, porque não preciso de ninguém, muito menos de um homem que faz de tudo um problema. E apesar disso, estou aqui sentado neste sofá, pelo sétimo dia, e não penso em mais nada a não ser nele. Não tenho um momento de sossego, porque ele está presente o tempo todo. Isto remexe-me de tal maneira que nem dormir consigo. O coração bate-me da nuca às pontas dos dedos. Perturba-me que ele esteja na cidade, no hotel da esquina, e eu aqui neste T0 claustrofóbico. Claro que podia descarregar esta tensão com a maior das facilidades, desapertar as calças e tirar isto para fora, mas não o faço. Quero penar durante todo o tempo que ele estiver na cidade. Atormento-me por manter a excitação, e a graça de Deus só se reflectirá em mim quando ele voltar para a sua terra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-115010784988270924?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/115010784988270924/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=115010784988270924&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115010784988270924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/115010784988270924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/ele-voltou-cidade.html' title='Ele voltou à cidade'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114985219089681836</id><published>2006-06-09T12:01:00.000+01:00</published><updated>2006-06-09T12:23:10.923+01:00</updated><title type='text'>Como Apagar Toda a Porcaria do Quotidiano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O que se segue aconteceu na Quinta-feira passada e podia ter acontecido na Quinta-feira anterior a essa. Vim do trabalho e amarrei-me no sofá de cabedal da sala, como faço todas as quintas-feiras, se não estou em viagem de trabalho ou incapacitado de outra maneira qualquer. Voltei, assim, do emprego para casa, li o jornal na mesa da cozinha, bebi um copo de &lt;em&gt;whisky &lt;/em&gt;e acendi a luz mais fraca do candeeiro pequeno. Despi-me, pendurei o fato no cabide e sentei-me no sofá. Respirei fundo e com calma, relaxei-me completamente e consegui apagar toda a porcaria do quotidiano da semana. Fui buscar uma corda ao armário e liguei a luz do aquário que fica mesmo em frente do sofá. Atei-me, como de costume, à cadeira, muito apertado e da maneira mais dolorosa possível. Os pneus da minha barriga rebentavam entre as cordas e apertavam-me os pulmões de tal modo que só conseguia respirar sincopadamente. Puxei a ponta da corda por cima do pénis e por entre os testículos, debaixo das nádegas, tão apertada que as gotas de suor apareceram na minha testa. Fiquei sentado durante muito tempo, como sempre, obriguei-me a pensar nos métodos de tortura mais estranhos e dolorosos, e senti um prazer enorme. Imaginei um pide enfiando a culatra da sua arma por um preso político acima, imaginei um soldado cortando o pescoço de um preto que pedia misericórdia. Estas imagens acalmavam-me depois de um dia de trabalho pesado e cheio de responsabilidades. Com a mão livre, procurei a pequena faca de fruta debaixo da almofada do sofá e comecei a fazer cortes finos, mas sangrentos, pelo interior das coxas e na parte inferior da barriga. O sangue corria em pequenos ribeiros ordenados pelas pernas e aquecia-me gentilmente. Voltei a esconder a faca no sofá e tive o seguinte sono:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era um dia quente de Junho. Cheguei do trabalho muito bem disposto. O meu companheiro veio ao meu encontro. Quis beijá-lo, mas ele empurrou-me. Gritou-me obscenidades, enfureceu-se, insultou-me e acabou por me agredir fisicamente. Num impulso momentâneo, agarrei o meu companheiro pelo braço, arrastei-o para o quarto, amordaçei-o, amarrei-o ao armário. Fui buscar a besta. Os olhos dele abriram-se de terror e de dor. O suor escorria da sua testa, mas, na verdade, não percebia o que lhe estava a acontecer. Fechei as persianas, coloquei-me a alguns metros de distância dele e retesei a besta. Um último e silencioso olhar de terror e a seta cortou o ar. Atravessou-lhe directamente o crânio e ficou presa na porta do armário.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acordei. O sangue tinha secado em estrias nas minhas pernas, as nádegas tinham-se colado no cabedal preto. Levantei-as e a ponta da corda soltou-se. Libertei-me rapidamente, escondi a corda no armário e fui tomar um duche. Cantei o hino nacional e lavei-me com um bálsamo de óleo medicinal. Senti-me bem e calmo. Depois do duche, desinfectei as feridas e untei-as com uma pomada feita de ervas medicinais. Vesti um fato azul e servi-me de outro &lt;em&gt;whisky&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114985219089681836?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114985219089681836/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114985219089681836&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114985219089681836'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114985219089681836'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/como-apagar-toda-porcaria-do.html' title='Como Apagar Toda a Porcaria do Quotidiano'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114975676233016103</id><published>2006-06-08T09:43:00.000+01:00</published><updated>2006-06-08T11:44:10.363+01:00</updated><title type='text'>Uma Viagem de Trabalho Rotineira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apanhei um voo para Madrid e, no aeroporto, tinha já à minha espera um homem que encomendara pela &lt;span style="font-style: italic;"&gt;internet&lt;/span&gt; para a minha cama. Tinha olhos castanhos, ombros largos e era talvez um pouco cheio de barriga. A cara, comestível, os olhos, de miúdo. Não era exactamente o que eu queria, mas, pelo menos, era um homem. Fomos para o hotel, e fi-lo trabalhar bem pelo dinheiro que lhe paguei. Pus-me deitado de costas na cama, ajoelhado no chão, de mãos apoiadas na mesa, de pé com uma face colada ao vidro da janela, e com as costas encostadas à parede, as minhas pernas envolvendo os seus quadrís e as suas mãos quadradas e peludas no meu rabo. Paguei-lhe e ainda acrescentei uns cinquenta euros de gorjeta, que o gajo era bom, e depois mandei-o embora. Tomei um banho quente de espuma seguido de um duche de água fria. Pedi jornais de economia e uma garrafa de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Krugs&lt;/span&gt;. Li os jornais e bebi a garrafa toda, devagar. Depois vesti-me e fui para o seminário. Fiquei lá durante duas horas, assinei a lista e sorri para o chefe de departamento. Depois fui até ao &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Reína Sofia&lt;/span&gt;. Fui jantar e tomar um copo à Chueca e depois fui dormir para a cama de casal, macia e espaçosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, voei para casa e contei à minha mulher que tinha sido uma viagem de trabalho rotineira, e ela acreditou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114975676233016103?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114975676233016103/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114975676233016103&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114975676233016103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114975676233016103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/uma-viagem-de-trabalho-rotineira.html' title='Uma Viagem de Trabalho Rotineira'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114967339101454505</id><published>2006-06-07T10:30:00.000+01:00</published><updated>2006-06-07T10:43:11.023+01:00</updated><title type='text'>Insónia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Continuo escravo das minhas noites de insónia, mas raramente tenho vontade para ir até aos bares ou às saunas em busca de companhia. Ligo o computador, marco encontros com homens que mentem sobre eles próprios. Divirto-me por serem feios e velhos, mas desde que satisfaçam os meus vícios, tudo bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tipo chamado Luís Pedro, vestido de cabedal, pequeno, barbudo, quarenta e muitos anos, um pouco cheio de barriga, espera-me na área de serviço de Oeiras. Sigo-o no meu carro, vamos para casa dele. Oferece-me um uísque, acho-o simpático. Vamos para o quarto, abre uma grande mala cheia de instrumentos de cabedal e põe-nos na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há aqui para todos os gostos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís Pedro obriga-me a experimentar alguns deles, depois diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queres que eu te pendure? - Desdobra umas tiras de cabedal, passo por dentro delas os meus braços e as minhas peernas. Obriga-me a subir para um banco, prende as tiras de cabedal ao tecto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espero que isto aguente! - Digo eu enquanto ele tira o banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou suspenso, tenho a sensação de me partir aos poucos. Luís Pedro quer rapar-me os pêlos púbicos e das axilas. Envolve-me o pescoço numa coleira e aperta-a. Começo a sentir calor dos pés à cabeça. Tenho vontade de vomitar, começo a ver estrelas brancas e peço-lhe para me desamarrar e afrouxar o abraço da coleira antes que eu desmaie. Fico um bocado deitado na cama, incapaz de me mexer. Diz-me que da primeira vez é sempre assim porque as tiras de cabedal bloqueiam a circulação sanguínea nas artérias e a coleira impede a oxigenação do sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não te preocupes, eu sou médico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos para o edifício em construção defronte do seu prédio. Dispo-me e ajoelho-me sobre a poeira. Coloco as mãos atrás das costas e abro a boca. Luís Pedro está de pé, diante de mim. Mija.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114967339101454505?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114967339101454505/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114967339101454505&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114967339101454505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114967339101454505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/insnia.html' title='Insónia'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114950058488426116</id><published>2006-06-05T10:27:00.000+01:00</published><updated>2006-06-05T10:43:07.823+01:00</updated><title type='text'>Umas das Nossas Noites</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fazemos tanto mal um ao outro que é impossível não reagirmos. Ele parte tudo o que possuo, grita-me como se isso pudesse mudar alguma coisa, tenta entalar-me os dedos nas portas. Quando quer que lhe prometa um amor jamais visto em parte alguma eu penso nos outros homens. O último era um jovem universitário e tinha uma pele que fazia com que a minha parecesse ambarina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite estou sentado com o Eduardo em frente da televisão e bebemos meia garrafa de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;whiskey&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos magoar-nos, diz ele, levantando o copo. Também há heroína, um pouco para ele, um pouco para mim. Lá em cima os meus vizinhos têm uma longa noite pela frente, cheia de acusações. Acusações cruéis e duras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouçam-me só esse romance, diz ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São só palavras, digo. Gritam porque estão apaixonados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tira-me os óculos e beija as partes da minha cara que nunca são tocadas, a pele que fica por baixo das lentes e da armação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens uns olhos tão doces e meigos que me dão vontade de chorar, diz. Como é que alguém podia magoar um homem com uns olhos como estes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei, digo, mas ele deve saber. Uma vez tentou cravar-me uma caneta na coxa, mas foi na noite em que lhe dei uns murros no peito até ficar azul e escuro; por isso acho que não conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adormeço primeiro, como sempre. Tenho uns &lt;span style="font-style: italic;"&gt;flashes&lt;/span&gt; do filme antes de apagar completamente. Um homem a verter demasiado &lt;span style="font-style: italic;"&gt;whiskey&lt;/span&gt; para uma caneca. Um casal a correr um para o outro. Quem me dera ser como ele e ficar acordado durante centenas e centenas de maus programas, mas não faz mal desde que continue a respirar contra o meu pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, abro os olhos e apanho-o a beijar o nosso amigo Adelino. Lino. Pressiona as ancas contra ele e ele tem aquelas mãos peludas na nuca dele. Foda-se, digo, mas depois acordo e ele está a ressonar no sofá. Ainda não tem vinte anos, está demasiado gordo para qualquer um excepto para mim. O seu cachimbo está em cima da mesa, esperou que me passasse antes de o atacar. Tenho que abrir as janelas para fazer desaparecer o cheiro. Volto a adormecer e quando acordo de manhã, estou deitado na banheira e tenho sangue no queixo e não me consigo lembrar como raio é que isso aconteceu. Isto não é bom, digo a mim mesmo. Vou para a sala desejando que ele esteja lá mas foi outra vez embora e eu dou-me um soco no nariz só para aclarar as ideias.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114950058488426116?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114950058488426116/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114950058488426116&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114950058488426116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114950058488426116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/umas-das-nossas-noites.html' title='Umas das Nossas Noites'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114924506370597712</id><published>2006-06-02T11:09:00.000+01:00</published><updated>2006-06-02T11:44:26.423+01:00</updated><title type='text'>Notas soltas com lugares comuns</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Obrigar-me a escrever um conto regularmente é um óptimo exercício, mas não deixa de ser um acto cansativo; e eu estou cansado. Deixemos então a ficção por hoje.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Plano Nacional de Leitura&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Isto vai ter sucesso. É exequível, possível e dá resultados&lt;/em&gt;. A frase é de Isabel Alçada, escritora e docente, sobre o &lt;strong&gt;Plano Nacional de Leitura&lt;/strong&gt; (PNL).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não conheço o Plano, mas não partilho do entusiasmo de Isabel Alçada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vamos, então, obrigar as criancinhas a ler uma horinha na sala de aulas. Olha, que bom! &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Obrigar alguém a ler não será incompatível com a própria ideia de leitura, que se quer que seja um acto&lt;/span&gt; de liberdade e também de solidão?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda me lembro dos suores frios do tempo em que fui obrigado a ler&lt;em&gt; Os Maias&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Viagens na Minha Terra&lt;/em&gt;, livros que detestei e com quem só fiz as pazes quando os reli sem qualquer obrigação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ninguém pode obrigar alguém a ler um livro. Ou será que as crianças são masoquistas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Feira do Livro&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou leitor compulsivo. Acho que deviam interditar a minha entrada na Fnac, por exemplo. Fui à Feira do Livro e não comprei nada. Estarei doente? Não, o mercado livreiro é que está doente, possivelmente moribundo. Tirando os clássicos, que já cá cantam em casa - Sou pedante, ah, pois sou! -, apenas livros de quinta categoria se podem encontrar na Feira do Livro. Obrigadinho por olharem pela minha conta bancária.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Everyman&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Saí do Parque Eduardo VII, desci a pé a Avenida da Liberdade - Lisboa foi feita para se andar a pé, mas apenas os turistas é que se apercebem disso -, e meti-me na Fnac do Chiado. A secção estrangeira foi relegada para os fundos. Obrigado Fnac! As importações  diminuiram. Obrigado Fnac! Também tu te preocupas com a minha conta bancária.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acabei por comprar o novo Philip Roth. &lt;em&gt;Everyman&lt;/em&gt;. Menos de 200 páginas, duas horinhas de leitura.  Depois de &lt;em&gt;The Plot Against America&lt;/em&gt;, ainda não foi desta que Roth voltou a Zuckerman. A última vez que ouvimos falar deste anti-herói foi por altura de &lt;em&gt;The Human Stain&lt;/em&gt;, e já lá vão uns anitos. Volta Zuckerman, tenho saudades!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Everyman não é Zuckerman. Porém, é mais uma prova de que Roth, a par com Don Delillo, cujo &lt;em&gt;opus magnum&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Underground&lt;/em&gt;, continua sem edição portuguesa, e Cormac McCarthy, é um dos escritores norte-americanos mais entusiasmantes do momento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;The Organ&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estou viciado nas canadianas &lt;em&gt;The Organ&lt;/em&gt;. Diz a critica que em &lt;em&gt;Grab The Gun&lt;/em&gt; é possível ouvir &lt;em&gt;The Smiths&lt;/em&gt;. É verdade, sim senhor, Mas ouço mais qualquer coisinha. Se Kristin Hersh &lt;em&gt;circa&lt;/em&gt; &lt;em&gt;The Trowing Muses&lt;/em&gt; colaborasse com Marr, o resultado seria &lt;em&gt;The Organ&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Cowboys literatos&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Outro álbum que ando a ouvir insistentemente é &lt;em&gt;Start Your Own Country&lt;/em&gt;, compilação editada pela Loose Music. Alternative Country não só americano e canadiano, mas inglês e australiano - E por &lt;em&gt;down unders,&lt;/em&gt; já estreou o &lt;em&gt;western aussie The Proposition&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Música melancólica para homens melancólicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E estes cowboys são mesmo grande leitores. Ora vejamos. O projecto &lt;em&gt;Two Gallants&lt;/em&gt; foram buscar o nome da banda a James Joyce. Os australianos &lt;em&gt;Augie March&lt;/em&gt; andaram a ler Saul Bellow, falecido recentemente. &lt;em&gt;Augie March&lt;/em&gt; é a personagem e título do melhor romance de Bellow. Temos ainda &lt;em&gt;Blood Meridian -&lt;/em&gt; projecto paralelo de dois elementos dos &lt;em&gt;Black Mountain -&lt;/em&gt; que é nada mais nada menos que o título de um romance de Cormac McCarthy.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas estes &lt;em&gt;new sounds of the&lt;/em&gt; &lt;em&gt;old west&lt;/em&gt; têm muito mais para ouvir. As minhas preferidas são "&lt;em&gt;Angel Of the Morning&lt;/em&gt;" dos &lt;em&gt;Charlemagne&lt;/em&gt; e a versão dos &lt;em&gt;Ox&lt;/em&gt; de "&lt;em&gt;Surrende&lt;/em&gt;r" dos &lt;em&gt;Cheap Trick&lt;/em&gt;. Sim, sim, leram bem: &lt;em&gt;Cheap Trick&lt;/em&gt;. Glup!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vou para a praia. Volto na segunda, talvez com um conto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114924506370597712?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114924506370597712/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114924506370597712&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114924506370597712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114924506370597712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/notas-soltas-com-lugares-comuns.html' title='Notas soltas com lugares comuns'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114915560344407991</id><published>2006-06-01T10:27:00.000+01:00</published><updated>2006-06-01T10:53:23.466+01:00</updated><title type='text'>Um dia de praia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há mais de três semanas que planeavam passar o dia do 16.º aniversário do filho, Rafael, em Troia. Tinham ansiado tanto por aquele dia, porque coincidia com a primeira ida à praia, que se levantaram bastante cedo nessa manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai, enérgico e cheio de fanfarronice, conduzia. A seu lado, a mulher tresandava a essência de côco. Na parte posterior sentava-se o filho e um colega de turma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravessaram o Sado e, em cima do ferry, tudo era um deslumbramento. O rio resplandescia; aspirada pelo sol, levantava-se uma neblina que dava a sensação de uma suave quietude; até a serra esventrada pela cimenteira  lhes parecia bela, uma beleza árida, é certo, mas  mesmo assim bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixaram o aldeamento turístico para trás. Apareceu-lhes à esquerda uma placa a indicar a entrada para as ruínas romanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E então, minha cara senhora, é coisa que lhe agrade? Vá lá, decide-te! Aqui ou mais à frente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher examinou o local livre de carros, e lá se decidiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, está bem! - disse - E parece-me que teremos a praia só para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sim, sim, vai esperando, nem sabes onde te vais meter», pensou o filho, esboçando um sorriso malicioso na direcção do amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apearam-se. Em primeiro lugar o marido que, jovial, correu a abrir a porta à esposa. Depois foi a vez do filho e do amigo que dirigiam-se de imediato para a bagageira do carro, de onde tiraram a mala térmica e o chapéu de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravessaram o pinhal, seguindo pelo corta fogo, e chegaram, transpirados e cansados, à praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah! Isto sim, isto é que é bonito! Isto é que é qualidade de vida! - repetia o pai, abrindo os braços e inspirando fortemente o odor forte a maresia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam deitados nas toalhas, já depois do almoço, quando repararam num grupo de homens a descer a duna. A mãe e o pai olharam um para o outro, em silêncio, quando viram que os homens corriam nús para a água. Outros homens, sozinhos ou acompanhados, foram chegando ao longo da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos dar um passeio pela mata - disse o filho para os pais, que não responderam. Parecia que ainda estavam em choque por terem caído no meio de uma praia de nudismo e, o que era pior, no meio de homossexuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael e o amigo subiram a duna e logo deixaram de se ver. Viram uma clareira no meio de uns arbustos. Pararam e penetraram no emaranhado de ramos, constituindo um refúgio aparentemente inacessível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam sentados perto um do outro; lentamente, o braço do amigo deslizou pela cintura de Rafael, cingindo-a com uma leve pressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, uma voz longínqua chamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rafael!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não respondas - disse o amigo, baixinho. Mas o rapaz não sonhava em responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram ali escondidos durante algum tempo. O pai não estava muito longe, porque ouviam vagamente, de vez em quando, a sua voz falando baixinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam os dois muito pálidos ao abandonarem o refúgio de verdura. O céu azul parecia-lhes obscurecido. O sol ardente extinguira-se para os seus olhos. Caminhavam rapidamente, lado a lado, sem se falarem, sem se tocarem, pois parecia terem-se transformado em inimigos irreconciliáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, Rafael chamava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu-se um tumulto numa moita. Rafael julgou ver uns calções azuis que alguém subia rapidamente sobre uma perna peluda, e o pai apareceu, um pouco confuso e ainda mais vermelho, os olhos muito brilhantes e peito ofegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai pôs os braços em redor dos ombros dos rapazes e, fazendo de conta que não se apercebiam do odor a sexo que pairava sobre eles, voltaram todos para junto da mulher.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Nota&lt;/span&gt;: Qualquer semelhança com o conto Um dia no campo de Guy de Maupassant não é coincidência!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114915560344407991?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114915560344407991/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114915560344407991&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114915560344407991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114915560344407991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/06/um-dia-de-praia.html' title='Um dia de praia'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114907487982926145</id><published>2006-05-31T11:46:00.000+01:00</published><updated>2006-05-31T12:27:59.903+01:00</updated><title type='text'>O emigrante</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não foi só o cabelo que perdeu, gastou também muito do seu entusiasmo e muitas das suas ilusões, naqueles últimos dez anos em que andara lá por fora; e voltava pela primeira vez cansado e triste, mais ainda, desconsolado de todo: tinha sido posto fora de uma relação que não chegara a durar um ano, aliás, nunca conseguia manter um namorado por um período maior do que um ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entregou-se à vida de antigamente, incrivelmente a mesma depois de tanto tempo, precisamente a mesma que lhe dera pela primeira vez o desejo de fugir para longe, mas que ele agora, de tão desiludido, considerava de certo modo reconfortante e quase doce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe, às nove e meia, aparecia no seu quarto muito bem disposta e fresca, a cheirar a sabonete, e beijava-o na testa. O pai continuava a ir todos os Sábados ao campo, a casa de uma irmã viúva, para passar o fim-de-semana. A Lisa também continuava a vir todos os Domingos tomar chá, agora sem a mãe. Era um hábito de há muitos anos. Ele fugira sempre dos hábitos. Agora, porém, era como se se entregasse sem luta. No primeiro Domingo deixara-se ficar em casa a olhar para Lisa que achou quase bonita, quase interessante e a ouvir os silêncios dela, subitamente cheios de recordações. Quantos anos teria? - perguntou a si próprio. Trinta e dois, trinta e três?... Sim, devia ser isso. Por que não se teria casado? Não era feia, nada feia. Até era rica. Devia haver um motivo... Qual seria? Um amor não correspondido? Mas ainda se usaria tal coisa? Talvez não fosse nada disso, talvez ela fosse uma daquelas mulheres que não se interessam pelos homens, que a bem dizer não se interessam por nada. Nos quinze dias que todos os anos vinha passar a Lisboa, Luís mal a vira, sempre apressado com assuntos a tratar, com os amigos que de manhã à noite o arrastavam de um lado para o outro. Só agora notara a diferença que ela fazia da rapariga de dezoito ou dezanove anos com quem tivera um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;flirt&lt;/span&gt; inconsequente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe perguntou-lhe no dia seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca reparaste que a Lisa tem uma paixão por ti?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso mesmo. Todos sabem, todos souberam sempre. Só que tu nunca deste por isso. Nunca te contei tal coisa porque sabia que não te querias casar. Mas agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís olhava-a espantado. Teria planeado casá-lo com Lisa? Pensando bem, não era coisa para o espantar muito. Era mesmo da mãe sair-se com as ideias mais inesperadas, já completas e muito bem construídas pela sua imaginação demasiado fértil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Previno-a de que não me quero casar - declarou friamente, para lhe cortar as possíveis e mais que prováveis ilusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois devias fazê-lo. Essa vida de estudante que levas já não é para a tua idade. Credo, não ter casa, viver em quartos alugados... A Lisa é uma boa rapariga... Séria, como poucas. Gosta de ti... Podes crer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Luís não quis ouvir. Saiu de casa aborrecido, com vontade de fugir, como dantes. Aquilo nele era antigo, ficar furioso sempre que a mãe lhe falava na seriedade desta ou daquela mulher. Havia muitas coisas que estavam dentro de si, bem escondidas, que ele julgava pessoais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante toda a semana que se seguiu, Luís fugiu dos amigos e ficou em casa a pensar em Lisa. Recordou episódios da sua juventude que julgava esquecidos e nos quais ela tinha lugar. E notou que sentia por ela uma grande ternura como nunca sentira com ninguém. Pôs-se então a pensar na possibilidade de casar com ela. Não era um grande amor, decerto, mas antes um desejo muito forte e muito sincero de descansar de tantos homens e de tantas camas estranhas à luz daqueles olhos calmos e repousantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe, a meio de uma conversa, dissera-lhe onde ficava o emprego de Lisa e também a hora a que ela saía. Luís fez-se encontrado com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sabia que estavas empregada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade, estou. Arranjei isto há seis anos. Precisava de uma coisa para matar o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se sentou em frente dela numa esplanada da Baixa, esteve um momento a olhá-la em silêncio. Lisa disse-lhe na sua voz arrastada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ficas ou voltas para Londres?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei ainda. Tudo depende de conseguir ou não uma coisa que pretendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ah&lt;/span&gt; que era quase um ponto final. mas Luís sabia que isso não queria dizer que ela o desejase em absoluto, a esse ponto final. Lembrava-se de que fora sempre difícil conversar com Lisa porque de vez em quando ela alheava-se, deixava perder sem as agarrar as coisas que os outros diziam e que ainda há pouco parecia considerar interessantes. Os seus olhos pareciam de repente vazios de olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que Luís lhe perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lisa, queres casar comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar voltou para se fixar nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero - disse com simplicidade. - Mas tu, quererás de facto casar comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís pôs-se a falar. Da sua vida passada, principalmente da que tinha diante de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisa ouvia-o com atenção aparente mas não percebia o sentido das palavras que ele dizia com entusiasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lembras-te porque acabou o nosso namoro dos dezassete anos? - perguntou por fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís esperava que ela dissesse outra coisa e aquela pergunta deixou-o perplexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por isso mesmo, porque tinhamos dezassete anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu. Tu tinhas vinte e três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É muito diferente. Tu tinhas vinte e três e parecias mais velho. Já tinhas andado lá por fora e para a tua idade tinhas vivido bastante. Eu, pelo contrário, acabava de sair das Doroteias e, ainda que isso te pareça impossível, ignorava tudo da vida. Mas, contigo, depressa aprendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua voz perdera o tom arrastado, era agora serena, muito calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu não pensavas em te casar pela razão que bem sabes. No entanto, achavas-me agradável e no fundo talvez te divertisse ter a atenção de uma jovem mulher para poderes pensar que, se o desejasses, podias muito bem voltar ao caminho das convenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís olhava-a sem compreender. Lisa interrompera-se para beber um golo de chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como havias tu de descobrir que eu era cheia de ilusões. Sugeriste então uma vez, em ar de graça, que fosse contigo a Sintra onde os teus pais tinham uma casa. Vazia, naturalmente. Daí a dias insististe e zangaste-te mesmo porque eu recusei. Eu tinha já percebido que nunca seria capaz de te fazer feliz, que nunca poderia dar o que precisavas e que eu não passaria de um capricho teu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve, Lisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvir o quê? Dizer o quê? Ela saía de cabeça alta, muito depressa, quase a correr entre as mesas e perdia-se já na multidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís partiu nessa mesma semana para Londres.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114907487982926145?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114907487982926145/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114907487982926145&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114907487982926145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114907487982926145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/o-emigrante.html' title='O emigrante'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114891300614028872</id><published>2006-05-29T15:24:00.000+01:00</published><updated>2006-05-29T15:30:06.150+01:00</updated><title type='text'>O tiro</title><content type='html'>Tive uma discussão com um amigo. As minhas últimas palavras foram claras. "Eu estou certo!", disse. "A vida não tem sentido e Deus não existe." Para prová-lo, peguei numa pistola, encostei o cano à têmpora e disparei. A minha cabeça explodiu. No entanto, há uma coisa que me traz preocupado... Não sou capaz de parar de pensar nisso... Se estivesse certo, como é que podia estar a escrever isto?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114891300614028872?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114891300614028872/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114891300614028872&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114891300614028872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114891300614028872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/o-tiro.html' title='O tiro'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114873153888377280</id><published>2006-05-27T12:47:00.000+01:00</published><updated>2006-05-27T13:05:39.370+01:00</updated><title type='text'>A dúvida</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Fôra um rapazinho rechonchudo, guloso, bem disposto e risonho. Tinha um olhar doce e distraído que preocupava a mãe e exasperava o pai. O seu mundo era pouco maior do que a cozinha e o quarto de dormir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando entrou para a escola foi o alvo favorito das graçolas e agressões dos outros. Chorava e, em casa, contava aos pais. O pai zangava-se, ficava furioso, rangia os dentes; virava-se para a mulher e gritava: "Fizeste dele um inútil, um maricas". Para não afligir a mãe, para não irritar o pai, deixou de contar em casa as suas desgraças. Sentia-se infeliz, indigno de qualquer amor e de guloso passou a glutão, de rechonchudo a gordo. Sobressaltava-se com as gargalhadas dos outros, corava, fugia. A sua vergonha e o seu ridículo mais foram aguçando a agressividade dos outros rapazinhos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aos doze foi violado por um grupo de colegas. Eram cinco ou seis, dois deles corpanzudos, de virilidade precoce, excitando-lhes mais a humilhação infligida no outro do que o sexo. Encurralaram num canto o rapazinho gordo, baixaram-lhe as calças e as cuecas. O rapazinho gordo ficou aterrado, paralisado, incapaz de reagir. "Vais dar a cada um momento de prazer", disse um dos matulões enquanto o penetrava. E, nesse instante, o rapazinho gordo teve uma erecção. "Olha pra ele, olha, olha. Ele está a gostar, está a gostar". Um resto de dignidade se interpôs, se ofendeu e o seu sexo murchou. Nada se consumou para ele, nesse dia, a não ser um negro sentimento de culpa. E uma dúvida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O rapazinho gordo sentiu um prazer que só podia chamar perverso porque ele próprio se comprazia ao ver-se reduzido a mero objecto de desejo dos outros. Era apenas resultado do terrível estado de humilhação que então vivia? Ou era, de facto, um homossexual?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;*    *&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até hoje, nunca conseguiu aproximar-se de nenhuma mulher, com receio de ser um homossexual reprimido; e nunca se aproximou dos homens, porque eles lhe lembravam aquele horrível sentimento de humilhação, de abjecção.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114873153888377280?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114873153888377280/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114873153888377280&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114873153888377280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114873153888377280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/dvida.html' title='A dúvida'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114855106363474236</id><published>2006-05-25T10:43:00.000+01:00</published><updated>2006-05-25T10:57:43.643+01:00</updated><title type='text'>A vida nos livros</title><content type='html'>Os livros dela - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Madame Bovary&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ana Karenina&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Ausência de Lol V. Stein&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Bela do Senhor&lt;/span&gt; - ocupam agora o lugar dos de Gabriel - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Billy Budd&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Querelle&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Oficial Prussiano&lt;/span&gt; - ao lado dos meus - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;As Velas Ardem até ao Fim&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Coração, Solitário Caçador&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Gustave Flaubert - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Madame Bovary&lt;/span&gt;, Relógio d'Água&lt;br /&gt;Leo Tolstoy - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ana Karenina&lt;/span&gt;, Pub. Europa-América&lt;br /&gt;Marguerite Duras - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Ausência de Lol V. Stein&lt;/span&gt;, Difel&lt;br /&gt;Albert Cohen - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Bela do Senhor&lt;/span&gt;, Contexto&lt;br /&gt;Herman Melville - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Billy Budd &amp; other stories&lt;/span&gt;, Penguin Classics&lt;br /&gt;Jean Genet - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Querelle&lt;/span&gt;, Pub. Europa-América&lt;br /&gt;D. H. Lawrence - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Oficial Prussiano&lt;/span&gt;, Assírio &amp; Alvim&lt;br /&gt;Sandor Marai - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;As Velas Ardem até ao Fim&lt;/span&gt;, Pub. Dom Quixote&lt;br /&gt;Carson McCullers - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Coração, Solitário Caçador&lt;/span&gt;, Pub. Europa-América&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Caro leitor,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode não parecer, mas é um conto. Como não gosto de leitores passivos, cabe-lhe agora, através dos livros deles, imaginar como é cada personagem e o que se terá passado entre elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;p. lino - Como vê, o pousio foi breve. Estive tentado a "postar" outra pequena história. O mais certo seria ser acusado de plágio. Na verdade é apenas uma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;hommage&lt;/span&gt; a Tonino Guerra. Talvez, com o argumento de se tratar de um caso de meta-literatura, ainda venha a "postá-la" aqui.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114855106363474236?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114855106363474236/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114855106363474236&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114855106363474236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114855106363474236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/vida-nos-livros_25.html' title='A vida nos livros'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114847591344951681</id><published>2006-05-24T13:54:00.000+01:00</published><updated>2006-05-24T14:05:13.456+01:00</updated><title type='text'>Pousio</title><content type='html'>Este blog vai entrar num período de pousio, não porque tenha secado a pena ao escriba, mas porque o escriba teve ontem um deslumbramento, para não dizer epifania, chamado "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Histórias para uma noite de calmaria&lt;/span&gt;" de Tonino Guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um livro inclassificável - Poesia? Contos? -, que, uma vez mais, me fez pensar que não vale a pena insistir em escrever, quando há coisas melhores para ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou acima de tudo um leitor que, depois de tanto ler - como fez Giacomo "Il Gattopardo" Lampedusa -, decidiu ver se também seria capaz de escrever como os autores de sua predilecção e, num ou outro caso, até excedê-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além de que, se escrevesse agora qualquer coisa, estaria totalmente contaminada por Tonino Guerra, um autor que vai já juntar-se à Duras, ao Thomas Bernarhd, ao Robert Walser, à prosa do Samuel Beckett, à Flanery O'connor, ao Italo Calvino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aviso: A Caixotim fez o serviço público de disponibilizar uma nova (e bonita e elucidativa) edição de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Novelas do Minho"&lt;/span&gt;, de Camilo Castelo Branco, que, por ventura, são os 20 euros mais bem empregues na ficção portuguesa neste ano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114847591344951681?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114847591344951681/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114847591344951681&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114847591344951681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114847591344951681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/pousio.html' title='Pousio'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114838510159922748</id><published>2006-05-23T12:13:00.000+01:00</published><updated>2006-05-23T12:51:41.670+01:00</updated><title type='text'>Verão de S. Martinho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No oitavo Inverno da relação, na ausência de João Paulo, Pedro decidiu-se, pegou nalgumas malas, pegou na Serafina, uma gata Angorá, e foi viver com a mãe, Maria Luísa, na casa onde nascera, em Castelo Branco. Quando João Paulo voltou de Varsóvia na véspera de Dia de Reis encontrou o apartamento  vazio. Sobre a mesa da cozinha havia apenas um recado à sua espera. Pedro declarava, numa letra redonda e firme: «Estamos em Castelo Branco. Podes telefonar, mas não apareças».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele manteve-se afastado, obedientemente, durante todo o Inverno. Talvez estivesse à espera de que, quando lhe chegasse aos ouvidos que não viajaria mais em trabalho até ao fim do ano, Pedro reconsiderasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, no início da Primavera, regressaram a Lisboa, carregados de queijos e outros presentes de Castelo Branco. Começou um bom período. Pedro e Serafina quase que entravam em competição para lhe darem mimos sempre que ele regressava a casa. A gatita costumava saltar-lhe para o colo logo que ele se sentava. Pedro brindava-o com dotes culinários inesperados e surpreendia-o com jantares inspirados. Ele, para não ficar atrás, insistia em fazer coisas em casa, tal como fizera durante todo o Inverno quando Pedro e Serafina não estavam. Providenciava para que o frigorifício estivesse cheio. Vasculhava nas charcutarias de Lisboa à procura de salame apimentado e queijos raros de ovelha. Um dia, sem dizer nada, substituiu o velho computador por um de última geração para que Pedro tivesse melhores condições de trabalho. Pedro rispostou redecorando a sala. No aniversário de João Paulo, ofereceu-lhe uma pasta caríssima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Paulo não sabia nem tentava descobrir  o que tinha acontecido em Castelo Branco naquele Inverno. Pedro parecia  estar a passar por um desabrochar tardio.  Teria encontrado um amante?  Ou teriam os frutos da pequena propriedade de Castelo Branco reavivado a sua seiva interior? Mudara o corte de cabelo: agora tinha-o cortado à escovinha. Aprendera pela primeira vez a vestir-se para sublinhar as formas do corpo ainda tenso. Às vezes, quando se sentava à mesa da cozinha pela noite dentro e ele descascava um pêssego metendo cada quarto na boca como quem o saboreia antes de o engolir, João Paulo não conseguia deixar de o olhar. Começara também a usar um novo perfume. E assim começou o Verão de S. Martinho de ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alimentou várias vezes a suspeita de que ele estava a transmitir-lhe tudo o que aprendera com outro homem. pedro viera directamente dos braços dos pais para os seus. E assim, à laia de confirmação, levou-o a passar quatro dias num hotel na costa da Bretanha. Durante todos aqueles anos eles haviam feito amor gravemente, num silêncio concentrado; a partir de então faziam-no por vezes rindo convulsivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Paulo acabou por lhe perguntar numa daquelas noites especiais, num murmúrio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com quem aprendeste isto? Com o teu amante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro rira-se no escuro e respondera:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que fazias se te dissesse? Matáva-lo sem deixar rasto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Paulo respondera:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelo contrário, ele merece uma garrafa de whiskey e um ramo de flores por te ter ensinado tão bem. Quem é o sortudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro lançou uma das suas gargalhadas sonoras antes de replicar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com esse teu olhinho perspicaz hás-de ir longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele hesitou por momentos antes de perceber e de se associar, cauteloso, ao riso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, sem explicações nem confidências, como que de comum acordo, as novas regras foram fixadas. Havia agora uma nova cláusula. Nenhum deles a quebrou, nem mesmo por engano, nem sequer num momento de distracção. Acabaram as queixas e as recriminações. Desde que as viagens de trabalho de João Paulo não voltassem a ser mencionadas. Nem sequer indirectamente. Se acontecesse - acontecia. E pronto. Nada mais havia a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro mimoseava-o na cama com surpresas que nunca imaginaria, mesmo nos primeiros dias. Por vezes alarmava-se com a força da sua paixão misturada com ternura, generosidade, com uma espécie de predisposição musical para adivinhar cada um dos seus desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que é que fiz eu? - perguntou-lhe uma vez num sussurro - para merecer isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É simples - sussurrou Pedro - , os meus amantes não me satisfazem. Só tu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E realmente João Paulo excedia-se. Ele dava-lhe um prazer estonteante e quando o corpo de Pedro era assolado por espasmos e os dentes rangiam como se estivesse com frio, sentia-se mais inebriado com o prazer dele do que alguma vez sentira com o seu próprio prazer. Por vezes João Paulo  tinha a sensação de que não era o seu órgão sexual mas sim todo o seu ser que o penetrava e se deleitava dentro dele. Que estava totalmente envolvido, tremendo, dentro dele. Até que, em cada carícia, a diferença entre acariciador e acariciado se desvanecia como se tivessem deixado de ser dois homens a fazer amor e se tivessem tornado numa só carne.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114838510159922748?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114838510159922748/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114838510159922748&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114838510159922748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114838510159922748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/vero-de-s-martinho.html' title='Verão de S. Martinho'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114830454060601231</id><published>2006-05-22T14:18:00.000+01:00</published><updated>2006-05-22T14:29:12.133+01:00</updated><title type='text'>Preservativo</title><content type='html'>Ele trazia consigo na carteira um preservativo já não sabia há quanto tempo. Primeiro, na sua carteira em imitação de pele, e agora na sua bela carteira de cabedal Dunhill. Na verdade, já trazia um artigo idêntico numa carteira anterior também, naquela carteira estampada com o camuflado da tropa e com fecho de velcro, e que deixou de usar quando entrou para a faculdade. O preservativo vinha bem embrulhado, hermético, com um casto odor farmacêutico, quase não ocupava espaço. Nestes últimos meses, ele não lhe tocara uma vez só, à espera da ocasião para lhe pegar, para sugerir a qualquer que fosse o homem, amigo ou conhecido de trabalho ou quase estranho, que o utlizasse ou pelo menos encarasse a hipótese de o utilizar. Uma pessoa prepara-se para quaisquer emergências mas no fim não se consegue falar, faltam as palavras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114830454060601231?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114830454060601231/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114830454060601231&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114830454060601231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114830454060601231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/preservativo.html' title='Preservativo'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114796341753530568</id><published>2006-05-18T15:16:00.000+01:00</published><updated>2006-05-18T15:43:37.606+01:00</updated><title type='text'>Cenas da vida doméstica III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;No banho&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Debaixo do chuveiro deixava as mãos dele escorregarem pelo meu corpo, e as suas mãos eram inesgotáveis e corriam perscutadoras com muita espuma, e elas iam e vinham incansavelmente, e os nossos corpos molhados colavam-se uma e outra vez para que elas me alcançassem as costas num abraço, e eu achava delicioso todo aquele movimento dúbio e sinuoso, provocando-me súbitos e recônditos solavancos, e vendo que aquelas mãos já me devassavam as regiões mais obscuras - vasculhando inclusive os fíapos que acompanham a emenda mal cosida das virilhas (sobpesando sorrateiras a trouxa do meu sexo) - eu disse «Lava-me a cabeça que estou com pressa», e então, tirando-me de debaixo do chuveiro, as mãos dele começaram logo a penetrarem pelos meus cabelos, friccionando com firmeza os dedos, riscando o couro cabeludo com as unhas, raspando-me a nuca de uma maneira que me deixava louco na medula, mas eu não dizia nada e ficava apenas sentindo a espuma crescendo fofa no alto da cabeça até que desabasse com espalhafato pela cara, alfinetando-me os olhos na queda, fazendo-me esfregá-los freneticamente com o nó dos dedos, ainda que eu soubesse que eles, ardendo, anunciavam francamente o meu asseio, e não demorou que ele me puxasse de novo para debaixo do chuveiro, e os seus dedos começaram a fazer a coisa mais deliciosa do mundo nos meus cabelos com a chuva quente que caía em cima, e era então um flop flop de espuma grossa e atropelada, espatifando-se no poliban com a água que caía ruidosa para o ralo, ele ria ria e ria, e eu ali, quieto e abandonado aos seus cuidados, eu nem sequer mexia um dedo para que ele cumprisse sozinho esse trabalho, e eu já estava bem enxaguado quando ele, resvalando dos limites da tarefa, dslizou a boca molhada sobre a minha pele de água, mas eu, pondo-lhe travão, fiz de conta que nada perturbavao ritual, e assim ele fechou a torneira, deixei-me conduzir para o tapete felpudo, e, ligado, numa ligeira corrente de arrepios, fiquei à espera que ele atirasse uma ampla toalha sobre a minha cabeça, secando-me os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória, e com os olhos escondidos vi por instantes, embora pequenos e descalços, os seus pés crescerem metidos em chinelos, e senti também as suas mãos afiladas transformarem-se de repente em mãos rústicas e pesadas, e eram mãos minuciosas que me entram com os dedos pelas orelhas, enchendo-me de afagos, fazendo-me cócegas, fazendo-me rir baixinho sob a toalha, e era uma sensação extremamente boa ele ocupando-se do meu corpo e conduzindo-me enrolado para o quarto e penteando-me diante do espelho e fazendo-me pequenas recomendações e vestir as calças e a camisa e fazendo-me deitar de costas na cama, debruçando-se de seguida para abotoar os botões, e fazendo-me estender os meus pesados sapatos para que ele, dobrando-se cheio de aplicação, pudesse fazer o laço, e eu só sei que entregava-me inteiramente nas suas mãos para que fosse completo o uso que ele fizesse do meu corpo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114796341753530568?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114796341753530568/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114796341753530568&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114796341753530568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114796341753530568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/cenas-da-vida-domstica-iii.html' title='Cenas da vida doméstica III'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114795561623708177</id><published>2006-05-18T12:17:00.000+01:00</published><updated>2006-05-18T13:33:36.310+01:00</updated><title type='text'>Cenas da vida doméstica II</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Na cama&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uns momentos no quarto nós pareciamos dois estranhos que seriam observados por alguém, e este alguém éramos sempre eu e ele, cabendo aos dois ficar de olho no que eu ia fazendo, por isso eu sentei-me na beira da cama e fui tirando calmamente os meus sapatos e as minhas meias, tomando os pés descalços nas mãos e sentido-os deliciosamente húmidos como se tivessem sido arrancados à terra naquele instante, e pus-me de seguida, com um propósito certo, a andar pelo quarto, simulando pequenos motivos para a minha andança, deixando que a baínha das calças tocasse ligeiramente o chão ao mesmo tempo que cobria parcialmente os meus pés com algum mistério, sabendo que eles, descalços e muito brancos, incorporavam poderosamente a minha nudez antecipada, e depressa ouvi as suas inspirações profundas junto à cadeira, onde ele quem sabe já se abandonava ao desespero, atrapalhando-se ao tirar a roupa, e eu, fingindo sempre, sabia que era verdade, conhecendo, como o conhecia, o seu pesaelo obsessivo por uns pés, e muito especialmente pelos meus, firmes no porte e bem feitos de escultura, um tanto nodosos nos dedos, além de marcados nervosamente no peito por veias e tendões, sem que perdessem contudo o modo tímido de raíz tenra, e eu ia e vinha com os meus passos calculados, dilatando sempre a espera com mínimos pretextos, mas assim que ele saiu do quarto e foi por instantes à casa-de-banho, tirei rapidamente as calças e a camisa, e atirando-me para a cama fiquei a aguardar por ele já teso e pronto, saboreando em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e fechei os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e fui imaginando sozinho todas as coisas que faziamos, de como ele vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu punha nos olhos, onde fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ele arrebatado pelo meu avesso haveria sempre de gritar «É este o sacana que eu gosto», e imaginei esse outro gesto trivial do nosso jogo  tão necessário como fazer avançar um peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando a minha mão sobre na sua, arrumava-lhe os dedos, conduzindo-os sob o meu comando aos pêlos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol, desenvolvessem por si só uma primorosa actividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados os nossos pêlos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos mediamos o caminho mais prolongado de um beijo, as nossas mãos com as palmas coladas, os braços abrindo-se num exercicio quase cristão, os nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne do coração, e de olhos fechados, saltando a imaginação nas curvas desses rodeios, vi-me também voltar com certas práticas, quando eu em transe, e já soberbamente soerguido da sela do seu abdómen, atendia precoce a um dos seus (dos meus) caprichos mais insólitos, atirando em jactos súbitos e violentos o visgo leitoso que lhe aderia à pele do rosto e aos pêlos do peito, ou fosse aquela outra, menos impulsiva e de lenta maturação, o fruto desenvolvendo-se, num crescendo mudo e paciente de rijas contracções, e em que eu dentro dele, sem nos mexermos, chegávamos com gritos exasperados aos estretores da mais alta exaltação, e pensei ainda no salto perigoso do reverso, quando ele de bruços oferecia-me generosamente aquele poço palpitante, e em que os meus braços e as minhas mãos, simétricas e quase mecânicas, agarravam-lhe por baixo os ombros, comprimindo e ajustando, área por área, a massa untada dos nossos corpos, e ia pensando sempre nas minhas mãos de dorso largo, que eram muito usadas em toda essa geometria passional, tão bem elaborada por mim, e que o leva a dizer «Sim! Sim! Tu és  especial!», e daí comecei a pensar nos momentos de renovação, nos cigarros que fumávamos seguindo  cada bolha envenenada de silêncio, quando não fosse ao correr das conversas com chá e torradas com doce de frutos vermelhos (escapávamos nus da cama e íamos profanar a mesa da cozinha), e em que ele tentava descrever a sua experiência confusa do prazer, falando sempre na minha segurança e ousadia na condução do ritual, mal escondendo o espanto pelo facto de eu juntar insistentemente o nome de Deus às minhas obscenidades, falando-me sobretudo do quanto lhe ensinei, especialmente da consciência no acto através dos nossos olhos que muitas vezes seguiam, pedra por pedra, todos os troços de uma estrada convulsionada, e era então que eu falava da sua inteligência, que sempre exaltei como a sua melhor qualidade, uma inteligência ágil e actuante (ainda que só debaixo dos meus stímulos), excepcionalmente aberto a todas as incursões, e eu de seguida acabava falando também de mim, fascinando-o com as contradições intencionais (algumas nem tanto) do meu carácter, insinuando outras tretas que eu  canalha era puro e casto, e eu ali, de olhos sempre fechados, ainda pensava em muitas outras coisas enquanto ele não vinha, já que a imaginação é muito rápida ou o tempo dele é diferente, quando pressenti os seus passos de volta no corredor, e foi só o tempo de abrir os olhos para inspeccionar a postura correcta dos meus pés já despontando de fora do lençol, dando conta como sempre de que os pêlos castanhos, que brotavam no peito e nos dedos mais compridos, lhes davam graça e graciosidade ao mesmo tempo, mas tratei logo de fechar de novo os olhos, sentindo que ele ia entrar no quarto, e já adivinhando o seu vulto ardente ali já por perto e sabendo como começariam as coisas, quero dizer: que ele de mansinho, muito de mansinho, se aproximaria primeiro dos meus pés, que um dia comparou com dois lírios brancos&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114795561623708177?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114795561623708177/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114795561623708177&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114795561623708177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114795561623708177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/cenas-da-vida-domstica-ii.html' title='Cenas da vida doméstica II'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114779457639034006</id><published>2006-05-16T16:31:00.000+01:00</published><updated>2006-05-16T16:49:36.400+01:00</updated><title type='text'>Cenas da vida doméstica I</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;A  chegada a casa&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando cheguei a casa, ele já me aguardava andando pela relva com os pés descalços, veio abrir-me o portão para que eu entrasse com o carro, e assim que saí da garagem subimos juntos a escada para o terraço, e quando lá chegámos sentámo-nos nas cadeiras de vime, olhando para o alto, onde o sol se iam pondo, e estávamos ambos em silêncio quando ele me perguntou, "Que é que tu tens?", mas eu, muito disperso, continuei distante e calado, o pensamento solto na vermelhidão do poente, e foi só pela insistência da pergunta que respondi, "Já jantaste?", e como ele dissesse "mais tarde" levantei-me e fui sem pressa para a cozinha (ele veio atrás), tirei um tomate do frigirífico, fui até à bancada e passei-o por água, depois fui buscar o saleiro ao armário sentando-me de seguida na mesa (ele do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu discipliscente fingisse que não percebia), e foi sempre debaixo dos olhos dele que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia restando-me na mão, fazendo um empenho simulado na mordidela para mostrar os meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que os seus olhos não descolavam da minha boca, e sabendo que por baixo do seu silêncio ele já se contorcia de impaciência, e sabendo que mais me desejava quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer o tomate deixei-o na cozinha e fui buscar um livro que estava na estante da sala, e sem voltar para a cozinha encontrámo-nos no corredor, e sem dizer uma palavra entrámos juntos na penumbra do quarto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114779457639034006?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114779457639034006/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114779457639034006&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114779457639034006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114779457639034006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/cenas-da-vida-domstica-i.html' title='Cenas da vida doméstica I'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114734289414827064</id><published>2006-05-11T10:58:00.000+01:00</published><updated>2006-05-11T11:21:34.160+01:00</updated><title type='text'>Pesadelo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pesadelo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na cama com o Nuno. O cabelo um pouco comprido cola-se na testa e nas faces e a água corre-lhe pelo corpo, enquanto está montado em mim. Rindo, grita séries de invocações da ladaínha da Santíssima Virgem. Estou deitado de costas, sorrindo e preguiçoso, as mãos atrás das costas: deixo-o prosseguir, que faça o que bem lhe apetecer, por mim, pode, estamos mais uma vez semi-embriagados, olho para os seus mamilos, olho para as gotas de prata nos pêlos do seu baixo-ventre. Quando termina, levanta-se do meu membro, no qual se tinha empalado, e agora, ajoelhando-se entre as minhas pernas, vai ocupar-se de amimar esse membro com a boca, com a língua, com as mãos, com falas doces, com um cantarolar suavemente encantatório, com ah -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas repentinhamente ele está de chapéu com um véu, que põe com ambas as mãos na aba do chapéu. A cara que surge de baixo do chapéu não é a de Nuno, é branca como a morte em pessoa, e essa morte é um velhote com peladas em carne viva no crânio, - ele não tem mamilos nem pénis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando esse homem morto, que me sorri de uma maneira repugnantemente amável, para não dizer maternal, leva a língua preta ao meu membro, todo o meu corpo parece composto de calosidades: está revestido de uma couraça de nódulos e excrescências córneos, estou insensível, estou inamovivelmente pesado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por detrás dos meus olhos esvoaçam mosquiteiros e outros panos de gaze manchados de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esquerdo, direito, esquerdo, vejo-me a caminhar pelo nevoeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir, sonho que acordo: - estou noutro quarto que não o de Nuno, toda a mobília está coberta com lençóis. Uma voz, pertencendo a uma pessoa que não vejo e que soa como se a ouvisse num zunido, através de um telefone, pergunta-me: "não queres este banco?", "não queres este tapete?", "não queres esta televisão?", "não queres o retrato que está em cima da televisão?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desato a chorar como não chorei em muitos anos, - as lágrimas escapam-me de diversos orifícios e de maneiras diferentes: esguichando, salpicando, marulhando, pingando. As calosidades na cara amolecem e em seguida liquefazem-se, começando a escorrer pelo meu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontro-me num labirinto composto por cenários de teatro, as peças começam a vacilar, à minha volta, por todos os lados, aparecem fissuras em forma de teias de aranha, por exempolo, no espelho ou no vidro perante o qual de repente me encontro e que reflecte a minha figura mas não a cara: no pêlo púbico está pendurado o pequeno cadáver de uma mosca. As mãos tremem-me de tal maneira que não consigo agarrar ou segurar no que quer que seja, - não obstante tento partir ao meio o meu membro entesado e caloso no punho ou arrancá-lo do corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo-me a mim durante minutos num bosque, parado à borda de um lago. Os relógios fazem tique-taque, os relógios fazem tique-taque. No interior da minha cabeça passam fragmentos de filmes.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114734289414827064?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114734289414827064/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114734289414827064&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114734289414827064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114734289414827064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/pesadelo.html' title='Pesadelo'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114726266606291219</id><published>2006-05-10T12:42:00.000+01:00</published><updated>2006-05-10T13:04:26.073+01:00</updated><title type='text'>Joaquim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Joaquim Braço-Forte tinha sido um menino que andara sempre a pisar a sombra do pai. Aos sete anos, quem o queria ver era em cima de um cavalo, acompanhando a ronda paterna pelos trabalhos da enxertia, mergulhia e vindima, dependendo da época do ano, e aos quinze, quando a febre de Malta atirou com o pai para a cama do hospital com o cérebro recozido e um rim bom para a faca, o unânime elogio dos vizinhos, trabalhadores e até estranhos acompanhou o seu sucesso enquanto substituto do pai, vaticinando-lhe uma série de êxitos quando chegasse a altura de tomar as rédeas da casa agrícola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, quando fez dezasseis anos, pôde notar-se na promessa de jovem agricultor uma evidente transformação. Começara a preocupar-se desmesuradamente com a sua voz, a afectação do rosto, com o sobrolho carregado, com os olhos em êxtase enquanto cantava. Joaquim queria ser cantor, não só para os pais e a irmã, mas para todo o mundo. Joaquim queria aparecer na televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco, Braço-Forte foi-se especializando nos gestos empolados e nas expressões faciais. Tinha uma para cantar a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Desfolhada&lt;/span&gt;, outra para &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Povo que lavas no rio&lt;/span&gt; e outra ainda para a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Rosa enjeitada&lt;/span&gt;. Antes de cada espectáculo que tinham lugar aos domingos na sala com os pais, a irmã e o Jeremias, um rafeiro alentejano, como público, ensaiava em frente do espelho, mas o público freneticamente fascinado tomava essas expressões por espontâneas e acolhia-as com ruidosos aplausos, bravos e batendo pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro sintoma de inquietação surgiu num recital caseiro por ocasião do aniversário de casamento dos pais. O público apercebeu-se de que se passava algo de estranho quando o viu entrar na sala com um vestido preto, um xaile de merino e duas fiadas de pérolas no pescoço alto e crestado do sol, e o aplauso não sobreveio quando ele terminou a sua interpretação de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lusitana paixão&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a catástrofe aconteceu ano e meio depois, quando foi escorraçado de casa pelo pontapé paterno. O motivo foi um recital para o filho do feitor num monte de feno. Na ínfima parte de um segundo, o pai esquecera para sempre que tivera um filho que parecia ser o herdeiro perfeito dos seus genes de marialva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O assombroso, o realmente assombroso, foi que Joaquim pôde assim dar azo a todos os seus gestos empolados e afectados que acompanhavam cada uma das suas interpretações. Nunca mais pôde dar um recital em casa, mas há uma coisa que lhe serve de consolo. Ainda hoje, sobretudo nas noites de sexta-feira e sábado, desconhecidos de todo o lado enchem o bar para assistirem veneradamente à sua subida ao palco. É unânime entre eles a opinião de que a sua interpretação de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vogue&lt;/span&gt; é melhor do que a da própria Madonna.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114726266606291219?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114726266606291219/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114726266606291219&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114726266606291219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114726266606291219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/joaquim.html' title='Joaquim'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114718110883684967</id><published>2006-05-09T13:50:00.000+01:00</published><updated>2006-05-09T14:25:08.900+01:00</updated><title type='text'>Noite de caça</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os sapatos novos do homem enterravam-se na areia solta à medida que ele se aproximava do carro. Tinha a pistola na mão direita e a lanterna eléctrica na esquerda. Quando chegou ao carro abriu a porta e acendeu a lanterna com um estalido, apanhando pelo feixe amarelo as caras de dois rapazes nos braços um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz mais franzino foi o primeiro a falar. Disse: Ele tem uma arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem sentia-se zonzo. Parecia-lhe estarem os três ali reunidos com outra intenção que não a dele. Disse: Vamos lá ver a carta de condução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não é polícia, disse o rapaz mais encorpado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é cá comigo, disse o homem. O que é que vocês estão a fazer os dois aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos só aqui sentados a conversar, disse o rapaz mais franzino. Tinha na orelha direita duas argolas de ouro, uma maior do que a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam-se a preparar para foder, não estavam? Observou a cara deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É melhor ter cuidado com a língua, disse o rapaz mais encorpado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porquê? És tu que me vais obrigar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deita a pistola fora e já vais ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se te está a apetecer, salta cá para fora, disse o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz mais encorpado curvou-se sobre o painel de instrumentos e girou a chave na ignição, fazendo o motor soltar alguns roncos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Larga isso da mão, disse o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motor teimava em não pegar. O rapaz levantara a mão como se fosse dar uma pancada na mão que empunhava a pistola quando o homem lhe deu um tiro. Ele caiu de lado sobre o colo do outro rapaz. Ele juntou as mãos e pô-las debaixo do queixo. Oh não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem continuou com a pistola na mão, então apontada para o rapaz mais franzino. Eu avisei esse estúpido, disse ele. Ou não avisei? Não sei por que é que as pessoas se gostam de fazer de surdas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz mais franzino olhou para o outro e depois levantou os olhos para o homem. Tinha as mãos erguidas como se não soubesse onde as havia de pôr. Disse: Qual era a necessidade de fazer isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A culpa foi dele, disse o homem. Eu avisei esse idiota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, meu Deus, disse o rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É melhor saíres cá para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá para fora. Vem cá para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é que você vai fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu é que sei e tu já vais descobrir não tarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz empurrou o outro para o lado e deslizou ao longo do assento para a areia do acesso à praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vira-te, disse o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é que você vai fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vira-te só e não te rales com o resto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho que mijar, disse o rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisas de te preocupar com isso, disse o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apoiando-lhe a mão num ombro ele virou-o de costas, encostou-lhe o cano da pistola à base do crâneo e disparou. Ao longe o som encantatório da rebentação a bater na areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele caiu como se os ossos se tivessem liquefeito. Segurou-o pela camisa tentando levantá-lo mas os botões não aguentaram com o peso e acabou por ter que deixar a arma em cima do tejadilho do carro e pegou nele por debaixo dos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrastou-o pela areia, andando às arrecuas, olhando por cima do ombro. A cabeça do rapaz balançava, pendente, e havia sangue escorrendo-lhe pelo pescoço abaixo e o homem fizera-o perder os sapatos. Ele respirava pesadamente e tinha os olhos esgazeados e brancos. Estendeu-o na mata a uns quinze metros da praia e atirou-se para cima dele, beijando a boca ainda quente e metendo as mãos por debaixo das roupas. Subitamente parou e soergueu-se. Olhou para as calças do rapaz. Ele molhou-se. Soltou um palavrão e despiu-lhe as calças e as cuecas e limpou-lhe as coxas pálidas com a camisa. Virou o rapaz de borco, desapertou a fivela do cinto e baixou as calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ginasta enlouquecido afadigando-se sobre um cadáver a arrefecer e a enrijecer. Derranou naquela orelha pálida como cera tudo o que alguma vez pensara dizer a um homem. Quem sabe se o rapaz o não ouviu? Quando terminou soergueu-se. Pegou na camisa do rapaz para limpar-se. Enfiou a camisa para dentro das calças e afivelou o cinto. Depois foi buscar a pistola e partiu como viera, por sobre a areia solta, as latas de cerveja espalmadas, os papéis e os preservativos apodrecidos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114718110883684967?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114718110883684967/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114718110883684967&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114718110883684967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114718110883684967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/noite-de-caa.html' title='Noite de caça'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114708810341636027</id><published>2006-05-08T12:08:00.000+01:00</published><updated>2006-05-08T12:35:03.426+01:00</updated><title type='text'>Mais como um pai e filho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de saber que o seu sangue estava a traí-lo, Winston aproveitava todas as oportunidades para saltar de Nova Iorque através do Atlântico até Lisboa, mas para vê-lo pela última vez foi preciso que eu desse o salto de Lisboa até Nova Iorque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me recebeu foi Douglas, o jovem companheiro de Winston, que parecia-me uma mistura de suave delicadeza com volátil brutalidade. Podia estar certo de que cuidava dele com a mão-de-ferro que o seu estado de saúde obrigava, e Winston fora sempre um arruaceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dem - disse eu - ele tem tido uma série de infecções, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O herpes deixou-o muito abalado - respondeu Douglas. - Herpes zóster. Claro. Inflamação dos nervos. Horrivelmente doloroso e desagradavel. Geralmente atinge os nervos da medula e do crâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As suas palavras fizeram-me ver Winston. Vi-o, deitado em silêncio, sob o seu edredão de penas. os olhos negros recuados para dentro. A cabeça assente nas almofadas. A postura sugeria repouso. Mas ele não estava a ter nenhum repouso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Safou-se  disso, não? - perguntei. - Mas não foi atingido por nenhuma outra? Algo mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia algo de novo. Esta nova infecção fora chamada de Guillain-Barré pelos neurologistas quando finalmente a identificaram. Ainda não tinha sido diagnosticada, por essa altura. Winston tinha ido de Nova Iorque para Boston para um jantar em sua honra. Smokings, celebridades universitárias, discursos quase fúnebres - exactamente o tipo de ocasião à qual Winston, o distinto professor, há muito esfomeado por reconhecimento, não podia dizer não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Winston dera um pulo até Boston e regressara com uma doença que o mandara para o hospital. Os médicos puseram-no nos cuidados intensivos. Davam-lhe oxigénio. As visitas só eram permitidas uma de cada vez. Ele mal conseguia falar. Ocasionalmente, lançava-me um olhar de reconhecimento. Os grandes olhos estavam concentrados na torre de vigia que era a sua cabeça. Os braços, que nunca desenvolvera muito, rapidamente perderam o pouco músculo. Nos primeiros dias do vírus de Barré não estava capaz de usar as mãos. Ainda não conseguia exprimia que precisava de fumar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não com a máscara de oxigénio, era o que faltava. Dava sempre cabo de tudo. Sem saber como, eu acabava sempre no papel de cauteloso, dizendo as mesmas banalidades de bom-senso a gente que tinha orgulho em desprezar a prudência. Via-me, em momentos agudos de auto-crítica, como o porta-voz de uma classe média confortável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Douglas e eu não éramos muito diferentes, neste aspecto. Douglas era muito mais crítico e severo. Este &lt;span style="font-style: italic;"&gt;protégé&lt;/span&gt; de Winston, pensava eu - ou pensava antes - estava de algum modo mimado. Também aqui eu estava errado. Tratado como um princípe com os cartões de crédito de Winston, mas era mais inteligente e tinha mais discernimento do que muita gente mais bem educada e até mais velha. Mais importante, ele tinha a ousadia de afirmar o seu direito a ser exactamente o que parecia ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto, como observava Winston, não era uma postura. Não havia absolutamente nada na sua aparência que fosse estudada ou teatral. Ele nunca procurava sarilhos, note-se, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está sempre pronto para lutar. E a sua autoconfiança é tal que... ele vai à luta. Várias vezes tive de o controlar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes baixava a voz ao falar de Douglas, para dizer que já não havia intimidade entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mais como um pai e filho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114708810341636027?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114708810341636027/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114708810341636027&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114708810341636027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114708810341636027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/mais-como-um-pai-e-filho.html' title='Mais como um pai e filho'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114700682707223706</id><published>2006-05-07T13:29:00.000+01:00</published><updated>2006-05-07T14:00:27.080+01:00</updated><title type='text'>Olha para a boquinha do peixe</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Tenho andado a faltar à escola. Roubei dinheiro, vendi coisas, enganei os meus amigis e - não consigo pensar nisso - fui para a casa-de-banho com o Daniel, um amigo do meu irmão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Disse que a minha pila se parecia com um peixe. Fiquei espantado. Em que peixe é que ele estava a pensar? Segurei-a com os dedos e tentei imaginar a cauda e as barbatanas. - Onde é que está a cauda? - perguntei. Puxou a ponta, a parte que se parece com um capacete do exército alemão da II Guerra Mundial, e riu, mostrando os dentes com o brilho prateado do aparelho. - He, he, he, olha para a boquinha do peixe. - De seguida torceu-a nos seus dedos parecidos com pinças de crustáceo, como se fosse um pedaço de plástico sem interesse, e colocou a minha mão na sua pila enorme que se parecia com a de um Labrador. Obrigou-me a agarrá-la com a pequena palma da minha mão enquanto executava um movimento para cima e para baixo. Senti que ela inchava e latejava como um deus. Senti-me invadir por um misto de espanto e de respeito. Nunca vira uma pila tão gigantesca. Como na história de João e o pé de feijão, crescia entre os meus dedos que se moviam lentamente. Daniel tirara a mão dele e inclinava a cabeça para o lado. Permanecíamos de pé um junto do outro naquele quarto de banho acizentado. Os nossos calções jaziam no chão. Daniel apoiava as costas no mármore esbranquiçado da parede. No toalheiro esmaltado estava pendurado um tapete verde para a banheira. A tampa da sanita cor-de-rosa estava levantada. Reflectia-se o brilho da sua forma elegante. Tudo o que se encontrava na casa-de-banho, a banheira cor-de-rosa, o suporte do papel higiénico, o lavatório que resplandescia, o espelho cromado, tudo parecia frio. Voltei a olhar para aquilo que tinha na mão. Atingira um tamanho três vezes maior do que o meu punho. Não sabia muito bem onde é que devia pegar. A pele macia foi desenrolando-se e deixou a descoberto um rolo de carne húmido. Senti-me levemente enjoado. Daniel colocou a mão dele sobre a minha, movendo-a para cima e para baixo com uma velocidade cada vez maior. Pus de lado a minha hesitação inicial, apertei com força o meio do seu mastro e trabalhei-o como um pistão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Senti-me invadir por um sentimento de assombro ao ver como o globo da sua pila ganhara um tom púrpura. Daniel parecia descontrair o corpo ao sentir que eu adquirira um ritmo tranquilizador com a minha mão. Senti nos dedos que se retesava, qualquer coisa de novo que se movia no interior, uma tensão na pele e, incrivelmente, continuava ainda a crescer. Sensações incontroláveis e irreconhecíveis, como fosse qualquer coisa que nunca comera, percorreram-me o estômago e as pernas. Daniel empurrava a minha mão com a dele. Cada vez andava mais depressa, para cima e para baixo, tentando não pensar na dor que sentia no braço e até quando é que isto iria durar. A certa altura tive uma sensação de humidade na mão. O corpo dele estremeceu como se estivesse no estretor de um pesadelo. Foi então que, mudo de surpresa, vi um liquido espesso que era cuspido pelo minúsculo orifício da cabeça da pila dele, jorrando para o chão imaculado. Recuei. Daniel agarrou na pila e executou um movimento vigoroso para cima e para baixo. Toda a sua vida parecia concentrar-se nesta emissão. De repente eu passara a ser supérfluo - como alguém que, por acaso, tivesse entrado no quarto de banho naquele momento. Da pila que começava a encolher saiu mais porcaria branca. Os lábios abriram-se num esgar sobre os dentes onde sobressaía o parelho metálico, sorriu e apontou para o meu pequeno peixe. Esatava a começar a aumentar, a pele esticada, paralelo ao chão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114700682707223706?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114700682707223706/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114700682707223706&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114700682707223706'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114700682707223706'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/olha-para-boquinha-do-peixe.html' title='Olha para a boquinha do peixe'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114693111382519472</id><published>2006-05-06T16:24:00.000+01:00</published><updated>2006-05-06T16:58:33.836+01:00</updated><title type='text'>Se aguentamos a merda durante duas manhãs, aguentamos tudo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sempre que o meu pai ficava bêbado e se ria, fazia coisas estúpidas: certa vez pegou numa faca de cozinha e enfiou-a pela sanita abaixo. A faca ficou presa e a sanita entupiu-se durante duas manhãs até vir o canalizador; eu e a minha irmã rezámos para não sujarmos a roupa. Mais tarde, este episódio tornou-se numa das poucas piadas sobre a nossa família: se conseguíamos aguentar a merda durante dois dias, aguentaríamos qualquer coisa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Noutras ocasiões, o meu pai escondia os pensos higiénicos da minha irmã e ela via-se obrigada a pedir o meu lenço de mão emprestado. Às vezes ficava violento e barbeava-se sem sabão nem água até sangrar. Era nestas ocasiões que ficávamos assustados. A minha irmã era uma mulher forte; agarrava-o pelos ombros com força e abanava-o, e às vezes até lhe dava vigorosas bofetadas. Nessas alturas começava a chorar e aninhava-se lentamente no sofá, os olhos semiabertos até adormecer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;****&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando o meu pai chegou a casa ao fim da tarde, a minha irmã não estava em casa. Tinha ido à biblioteca devolver alguns livros que já devia ter entregue. O meu pai sorriu e disse que queria ver-me nu. "Quero ver-te como estás crescido", disse ele. Ao princípio pensei que se tratava de mais uma das suas piadas de bêbado, mas como ele ficou imóvel no meio do quarto, com o sorriso a desvanecer-se, comecei a despir-me.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Talvez eu devesse ter protestado, mas nessa tarde, com o meu pai bêbado e a rir-se, com a minha irmã fora de casa, fechei os olhos e despi-me; obedeci às ordens do meu pai e deitei-me na colcha azul.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lá fora na rua alguém se riu; acho que gritei, mas não tenho a certeza. Mesmo que o tenha feito, o meu grito não teria alcançado o lugar onde estava a minha irmã.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que aconteceu depois surge despedaçado, rasgado, e depois novamente fundido como se num sonho. Adormeci e, quando acordei, saí do quarto. Mantive-me imóvel na pequena varanda com vista para a rua e recordo-me de ter chorado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;****&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando a minha irmã anunciou que o jantar já estava pronto, as lágrimas já tinham secado. Na mesa do jantar, tentei esconder-me atrás do copo e observar o meu pai e a minha irmã a comerem em silêncio. Desejei diminuir de tamanho, subir pelo copo, mergulhar até ao fundo, nadar em círculo, deixar que a água rodeasse o meu corpo e lavasse a viscosidade e algum sangue.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Amanhã não tens de ir à escola - disse o meu pai, já de pé.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não estás com bom aspecto - disse ele, acendendo um cigarro e aproximando-se da minha cadeira e abraçando-me. Conseguia ouvir o jantar no seu estômago, o meu coração pressionado contra a sua virilha. Nessa noite não apaguei o candeeiro. A colcha estava desagradavelmente húmida e fria, manchada e com crostas no lugar onde o esperma escorregara pelas minhas pernas abaixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;****&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esse fim de tarde e essa noite aconteceram há mais de vinte e cinco anos atrás. Na minha mente, embelezei com adjectivos a respiração pesada do meu pai e os meus gritos abafados. Em certas ocasiões tornei as calças do meu pai pretas, e noutras azuis; mudei uma tarde chuvosa para uma manhã quente de Verão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;****&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em certas noites chuvosas, quando me encontro deitado na cama, vejo o meu pai lá fora à chuva, o cabelo todo molhado, a água correndo-lhe pelo rosto. Parece-me ter metade do tamanho, a gordura em redor da cintura já desapareceu, assim como as rugas da testa. Em vez disso, parece-me débil, perdido, como uma criança abandonada sobre uma chuva diluviana.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quero abrir a janela, convidá-lo a entrar, mudar-lhe as roupas e cobri-lo com um cobertor. Desejo dizer-lhe que o que aconteceu, aconteceu, e que foi egoísmo da minha parte usá-lo constantemente como uma desculpa para os meus próprios falhanços. Quero que ele me ajude a compreender por que razão ele falhou como pai e como foi possível tanto ódio e dor terem coexistido com tanto amor e alegria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas quando volto a olhar para a janela, já é demasiado tarde, o meu pai já desapareceu sob a chuva que cai a cântaros numa noite escura; vejo-a cair rápida através dos postes de iluminação pública, a bater levemente na minha janela, a gorgolejar na sarjeta. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114693111382519472?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114693111382519472/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114693111382519472&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114693111382519472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114693111382519472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/se-aguentamos-merda-durante-duas-manhs.html' title='Se aguentamos a merda durante duas manhãs, aguentamos tudo'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114682832169623124</id><published>2006-05-05T11:25:00.000+01:00</published><updated>2006-05-05T12:25:21.750+01:00</updated><title type='text'>Trinta anos depois</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Mas Manuel não quis saber mais nada, disse que estava com uma dor de cabeça e afundou-se numa melancolia prostrada, ao ponto da mulher, Ana Maria, ter ficado nervosa, certamente preocupada com o seu estado de saúde. Ainda quis interessar-se pelas conversas que esvoaçavam sobre a mesa do jardim, riu das piadas de Fernando e de Sandra, mas não resistiu à lassidão entorpecida e triste que cada vez mais o impregnava e, pedindo desculpas, explicou que se sentia indisposto e que ia para o quarto, mas que não se preocupassem, não se preocupassem mesmo, mais tarde desceria para juntar-se a eles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Subiu para o quarto com passos lentos, pensando nas suas mentiras. Tinha mentido, sim, tinha mentido, quando contou a Ana Maria que não se recordava de Fernando. Claro que não devia ter dito nada, mas foi um impulso que não pôde calar, pois, apesar de saber que não adiantava, queria muito que a mentira fosse verdade. Mas não é, não é, não é, pensou, quase tendo um novo engulho, mas também sentindo uma excitação incontrolável que o levou a enfiar a mão por baixo dos calções e a massajar-se convulsivamente. Logo pareceu arrepender-se, libertou a mão e sentou-se no cadeirão do quarto, os olhos fechados e aquela recordação de magma a queimar-lhe as sinapses. Porquê?, porquê recordar-se, se não queria recordar, se detestava recordar, se se sentia horrorosamente ao recordar? Mas recordava-se, e de novo lhe vinha tal excitação que tremia e apertava as mãos nas coxas. Lembrava-se de todas as vezes que tinham estado juntos, lembrava-se com volúptia como o beijara na boca desde o primeiro encontro, com uma naturalidade tão inesperada quanto deliciosa, e como se beijariam depois, beijariam-se muito. Lembrava-se de todos os encontros, todas as vezes em que, mal contendo a ânsia e o abrasamento, iam agarrando-se e arrancando as roupas com sofreguidão assim que se viam a sós, e recordava, recordava, recordava como achava bonito que ele, parecendo procurar algo de vital sem o qual morreria, lhe tirasse com impaciência as cuecas e, mesmo antes que os pés se desenvecilhassem delas, já viesse trémulo fuçar no seu púbis e o chupasse ronronando baixinho com os olhos fechados, uma mão a aconchegar o saco dos testículos e a outra a alisar o rabo, as pontas dos dedos escorregando pelos pêlos do rego e tocando de leve a sua mais funda intimidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não, não, não, pensou com revolta e quis levantar-se e expulsar de vez aquelas lembranças, mas não se levantou nem tirou a mão da braguilha soerguida e, com o fôlego mais arfante do que antes, mordeu os lábios  ao reviver a tarde que tiveram só para eles num quarto de hotel, onde tomaram banho juntos e depois chuparam-se infinitamente, até que, de um modo inesquecível, Fernando ficou de quatro e pediu para ser penetrado. Recordou com pormenores insuportáveis como se veio tão intensamente naquele dia, enfiado nele até não poder mais e mordendo-lhe o pescoço, e pedindo-lhe que virasse o rosto para ser beijado e deitado em cima dele sem sair de dentro dele e masturbando-o com tal sincronia que se vieram juntos aos gritos e gemidos, sem quererem descolar-se um do outro. E como se veio também tão esquisitamente, tão avassaladoramente, quando se deitou de bruços para ele, com um travesseiro em baixo da barriga para melhor se oferecer, humedecendo-lhe a glande com uma chupadela prolongada e molhada, e aguardou com prazer e expectativa cada vez mais arfantes, que ele terminasse de beijá-lo, lambê-lo e enfiasse-lhe a língua, para depois pincelá-lo com aquela grande, macia  e deliciosa cabeça, até assestar-se no ponto certo, hesitar adoravelmente e, devagar mas decididamente e sequioso, entrar nele e enchê-lo e dar-lhe um prazer inexprimível em fazer força para trás, abrir-se com as mãos, até sentir contra as nádegas os pêlos e testículos dele - e então, ajudado por ele, vir-se daquela maneira nunca antes provada, um prazer visceral, longo, desfalecedor. Orgulhava disso na cama, por terem sido amantes completos, em vez de, como antes lhe parecia que ia acontecer, ele nunca ser possuído - e nem sequer doeu como havia temido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não, não, não, nada disso, e ele conseguiu levantar-se, resolvido em ocupar-se com qualquer coisa. Afinal, quem era Fernando? Hoje, apenas o novo marido de Sandra, a irmã de Ana Maria, que estavam lá em casa aquele fim-de-semana. Quando os viu chegar, e apesar dos anos já passados, soube que  Fernando não era um estranho. Recusou-se a admitir que já o conhecia, mas ele mesmo tomou a iniciativa de contar a Ana Maria e a Sandra que eram conterrãneos, que tinham sido amigos durante muito tempo, e depois os seus caminhos separaram-se. Olhou-o com atenção, como se não o conhecesse bem. E, pensando melhor, não o conhecia - era agora um homem casado que tinha diante de si, era na verdade um estranho, ou que se tinha transformado num estranho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas não, não era um estranho, porque, ao cruzarem-se na cozinha a meio da noite anterior, sem terem feito ou mencionado qualquer coisa intíma, Fernando abraçou-o e, sem se soltarem do abraço, caíram juntos no chão. Não, não, não queria lembrar-se, mas desceu a mão para os calções, abriu o fecho. Não, só o fecho, não, tiraria os calções e as cuecas. Tirou também a camisa e masturbou-se pensando em todos os buracos e pontos do corpo um do outro, mas não conseguiu atrasar o orgasmo como queria e ejaculou com tanta força que algumas gotas de sémen lhe chegaram ao queixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Abriu os olhos, sentiu com as mãos o visco do esperma sobre o peito e veio-lhe um enorme desgosto, um enorme nojo, uma enorme vergonha, que o fizeram correr para a casa-de-banho e tomou um duche de uns quinze minutos ininterruptos, durante os quais pensou de novo se um dia poderia ter coragem de matá-lo, porque era isso que lhe vinha à mente, quando sentia que jamais resistiria ao seu poder.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114682832169623124?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114682832169623124/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114682832169623124&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114682832169623124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114682832169623124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/trinta-anos-depois.html' title='Trinta anos depois'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114675535013458581</id><published>2006-05-04T15:32:00.000+01:00</published><updated>2006-05-04T16:09:10.196+01:00</updated><title type='text'>O amigo francês do meu amigo</title><content type='html'>Durante um mês perdi a conta às vezes que me telefonaram do hospital para ir buscar o amigo francês do meu amigo escultor que está a residir em Paris. Mas talvez seja melhor voltar atrás e começar a contar como o conheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa tarde, portanto, ouvi tocar à campainha de casa, fui abrir a porta e dei de caras com um desconhecido. Apresentou-se, disse-me que vinha da parte de um amigo comum, o qual lhe dera a minha morada mas, infelizmente, não o meu número de telefone, por não o ter - eu tinha mudado para esta casa nas imediações do Principe Real há dois meses -, pelo que se vira forçado a aparecer sem se anunciar, esperando, dizia, não incomodar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandei-o entrar, e perguntei-lhe o que era feito do nosso amigo, se ele vinha também a Portugal nesse Verão. Pascal - Pascal Bonnefroy era o nome do visitante - respondeu que não, não vinha, andava com muito trabalho, as esculturas dele e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim - respondi. - E como resolveste vir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pascal respondeu que desde o tempo que era rapaz sonhava vir a Portugal, que tinha viajado por todo o mundo por conta da empresa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Empresa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma empresa de exportação de roupa bastante conhecida, explicou, e este ano pela primeira vez em quinze anos não era obrigado a conciliar o útil com o agradável, e etc. e etc... Ficámos a tagarelar bastante tempo e quando se levantou para se ir embora, pediu-me o meu número de telefone. Dei-lhe um cartão. Esperava, disse ele, ter o prazer de voltar a ver-me, e eu levei-o à porta da rua, "também eu, também eu" - repliquei, mas cá por dentro amaldiçoava o amigo de Paris: estava muito enganado se pensava que uma identidade de preferências sexuais bastava para que duas pessoas se dessem, e ainda por cima enviara-me esta curiosa criatura... Se a criatura telefonasse, eu arranjaria pretexto para lhe escapar. Mas isso era não contar com o Pascal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite - noite, mas bem moite, isto é, passava das duas da manhã -, deitara-me eu há já algum tempo e preparava-me para largar o livro que estava a ler e apagar a luz, tocou o telefone. Que estranho, disse para com os meus botões, quem é que poderá telefonar a uma hora destas, e levantei o auscultador  com disposições belicosas, mas logo à primeira frase ouvida fiquei desarmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É do Hospital... O senhor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim - respondi - que se passa? E pensei que talvez tivesse acontecido alguma coisa à minha velha mãe. O coração batia-me fortemente, mas as frases seguintes sossegaram-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... deu entrada nas urgências e diz que o conhece. Chama-se Pascal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que aconteceu? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondeu-me que dera entrada no hospital com o esfíncter rasgado. Ao que tudo indicava, parecia que uma sessão de fisting tinha corrido da pior maneira. Já tinha sido saturado e pedira que me telefonassem, para ir buscá-lo. Voltei a vestir-me e dirigi-me para o hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No regresso, Pascal não parecia muito contrariado nem humilhado com a aventura: um pouco de perigo e de dor, disse ele, é o sal da vida. Que acontecera? Bem, conhecera um rapaz num bar, abordou-o e levou-o para o hotel. Pedira-lhe que o penetrasse com o punho. Como era inexperiente no fisting, rasgou-lhe o esfincter ao retirar a mão e, ao ver a quantidade de sangue que ensopara os lençois, fugira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutra noite, novamente de volta do hospital, pôs-se a contar a "infeliz aventura" que tivera horas antes. Segundo disse, engatara um rapaz que lhe parecia uma bela fera selvagem, mas que, foi a ver-se, era mais manso que um cordeiro, mandou-o vestir-se e ir-se embora, mas o rapaz pediu-lhe 50 euros para o taxi, ao que o Pascal respondeu que não pagava a prostitutos, só que o rapaz, insistindo que precisava de dinheiro para voltar para casa, acabou por lhe dar vários socos e pontapés, por lhe pegar nas calças e tirar todo o dinheiro que encontrou, preparando-se para sair. Então, o Pascal ajoelhou-se em frente dele, implorando-lhe que ficasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O palerma pensava que eu estava a pedir que me restituísse o dinheiro...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26027467-114675535013458581?l=real-sujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://real-sujo.blogspot.com/feeds/114675535013458581/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26027467&amp;postID=114675535013458581&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114675535013458581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26027467/posts/default/114675535013458581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://real-sujo.blogspot.com/2006/05/o-amigo-francs-do-meu-amigo.html' title='O amigo francês do meu amigo'/><author><name>serrano</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17804512481611979402</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26027467.post-114657491737382071</id><published>2006-05-02T13:09:00.000+01:00</published><updated>2006-05-02T14:01:57.416+01:00</updated><title type='text'>Como se o conhecesse já há dias</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;1.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A forma como nos conhecemos foi um instante de desconcerto e vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho trinta e seis anos e estou comprometido com um homem. O meu companheiro é soldado da GNR, um homem de boa índole. Conhecemo-nos há oito anos. Eu amei-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis como nos conhecemos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dia de Inverno, ainda não eram nove horas da manhã, ao sair da estação do metro do Chiado, escorreguei ao descer para a Rua do Ouro. Um homem desconhecido agarrou-me pelo braço. Vi dedos compridos e esguios com unhas polidas, dedos pálidos com uma suave penugem nas articulações. Acudiu-me logo e evitou que eu caísse, e apoiei-me no braço dele até a dor passar. Sentia-me confuso pois é desconcertante tropeçar de repente diante de estranhos: olhos inquiridores e sorrisos maliciosos. E sentia-me consternado porque a mão do jovem desconhecido era grande e quente. Enquanto me segurava, sentia o calor dos seus dedos através da manga da camisa. Era uma manhã amena de Inverno em Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele quis saber se eu me magoara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse-lhe que achava que tinha torcido o pé direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse que sempre gostara da palavra "pé". E sorriu. Um sorriso embaraçado e embaraçante. Corei. Nem sequer recusei quando me perguntou se podia acompanhá-lo ao café ali ao lado. Sentia-me perturbado enquanto obedecia à voz dele. Não conseguia encará-lo fixamente e examinar-lhe o rosto. Tive a impressão de que o seu rosto era longo, magro e moreno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos sentar-nos - disse ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentámo-nos, sem olhar um para o outro. Pediu dois cafés, nem sequer perguntou o que eu queria. Quando este meu novo conhecimento virou a cabeça, reparei que tinha o cabelo cortado curtinho e que se barbeava bem. Viam-se-lhe pêlos escuros, principalmente sob o queixo. Não sei por que é que este pormenor me pareceu importante, sobretudo como um ponto a favor. Gostei do seu sorriso e dos dedos, que brincavam com uma colherzinha como se tivesse vida própria e independente. E a colherzinha gostava de ser manuseada por eles. O meu próprio dedo sentiu uma ténue necessidade de lhe tocar no queixo, no sítio em que se barbeara mal e onde brotavam os pêlos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamava-se Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era GNR desde que acabara o serviço militar. Nascera e fôra criado no Torrão, concelho de Alcácer do Sal. Não tinha qualquer sotaque alentejano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;2.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Eu e o Paulo combinámos encontrar-nos naquela mesma noite na Brasileira, no Chiado. Lá fora rugia uma verdadeira tempestade que batia furiosamente na estátua de Fernando Pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paulo disse: - És tímido, não és?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acabámos de tomar o café, o Paulo tirou um maço de tabaco e um isqueiro do bolso do casaco e pô-los em cima da mesa. Eu estava de calças de caqui e uma camisola de lã encarnada, para dar um ar casual. O Paulo comentou timidamente que naquela manhã eu parecia mais um betinho com a camisa às riscas e as calças de sarja. Aos olhos dele, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu também me pareceste diferente de manhã - disse eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paulo estava com um casaco do fardamento da tropa alemã. Não o tirou durante todo o tempo em que estivemos na Brasileira. As faces brilhavam-lhe do frio cortante lá de fora. Tinha um corpo magro e anguloso. Pegou no isqueiro e esboçou com ele figuras no tampo da mesa. Os dedos dele a brincarem com o isqueiro davam-me um sentimento de paz. Talvez se tivesse arrependido de repente da observação sobre a minha roupa daquela manhã; como se tivesse sido um erro, o Paulo disse então que me achava um homem bonito. E olhava fixamente para o isqueiro enquanto dizia isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou no café um homem dos seus cinquenta anos acompanhado de dois jovens. O Paulo inclinou-se para mim sussurando o nome dele ao meu ouvido. Tal como o Paulo, também era GNR. Os lábios dele devem ter-me tocado na orelha. Disse-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  És  transparente. Consigo ler-te os pensamentos. Estás a dizer-te a ti mesmo: «o que é que vai acontecer a seguir? Que nos vai acontecer depois?». Acertei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Paulo corou de repente como uma criança apanhada a comer um chocolate minutos antes do jantar: - Nunca namorei a sério antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Antes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mexeu pensativamente na chávena vazia. Olhou para mim. Espreitou-lhe nos olhos um lampejo de zombaria, bem fundo, por baixo daquela sua brandura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Até agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;3.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O Paulo e eu pagámos cada um a sua conta. O frio cortante enregelava-nos os rostos. Ficámos parados por uns momentos, sem saber
